Eça no Brasil

A produção escrita do autor português Eça de Queirós (1845-1900) sempre foi acompanhada por estudiosos de diversas áreas de atuação. No Brasil, a obra queirosiana recebeu – e continua recebendo – um número  significativo de leituras críticas guiadas sob prismas diferentes. (…).

O presente livro procura apresentar 0 papel da crítica literária  sobre Eça no Brasil, tendo em vista as perspectivas críticas e o processo de  construção da imagem do autor, a qual sofreu mudanças durante 0 século XX. Para desenvolver este estudo, 0 corpus e constituído por publicações em formato de livro, uma vez que ele exerce, na sociedade, um poder maior de legitimidade da produção intelectual. Além disso, em vista de sua extensão, propicia a análise crítica mais detalhada do que um artigo ou ensaio, colocando-se mais facilmente como referência para a reflexão acerca de um escritor.

Por conseguinte, busca-se, por meio dos estudos queirosianos publicados em volume durante 0 século XX, visualizar como a crítica, enquanto mediadora entre os produtos de bens simbólicos e 0 público, teve 0 poder de legitimar a obra de Eça no âmbito da cultura designada erudita, além de atuar como instância significativa na consagração desse autor juntamente ao público. Como nota Bourdieu (1974), é por intermédio da atuação da crítica que muitas obras entram para 0 cânone literário e Eça, apesar de ter caído no gosto popular, não fora exceção à regra e teve na crítica os mais árduos defensores de seu valor literário.

(Cristiane Navarrete Tolomei, A Recepção de Eça de Queirós no Brasil. Leituras críticas do século XX. São Paulo: Scortecci, 2014, pp. 23-25).

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Eça e o Brasil

O século XIX de Eça de Queirós, Machado de Assis e do romance de adultério. O professor da Universidade de Coimbra Carlos Reis abriu os encontros Minha Língua, Minha Pátria na Livraria Cultura, em São Paulo.

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“Os Maias” na televisão

os maias Globo            O projeto da minissérie Os Maias teve início em 1997, quando a Rede Globo convidou a novelista Glória Perez para assinar o roteiro, e Wolf Maya, a direção. A minissérie teria dezesseis capítulos, seria toda gravada em Portugal, teria Paulo Autran como Afonso da Maia e estava prevista para ser exibida a partir de janeiro de 2000. No entanto, em março de 1999, depois de trabalhar no remake da novela Pecado Capital, Glória Perez não pôde participar do projeto de Os Maias.

Então, em 2000, após o sucesso de A Muralha, a emissora escolhe Maria Adelaide Amaral para elaborar o roteiro e Daniel Filho para a direção, que posteriormente foi substituído por Luiz Fernando Carvalho. E, para colaborar com Maria Adelaide Amaral nesta elaboração do roteiro, foram convidados Vincent Villari e João Emanuel Carneiro, a mesma equipe do sucesso A Muralha. Após análise do romance, a equipe decidiu construir a minissérie a partir de três romances de Eça de Queirós: Os Maias, A Relíquia e A Capital, já que a minissérie deveria ter 44 capítulos. Nesse caso, a equipe buscou na obra de Eça de Queirós subsídios para ampliação dos capítulos.

A pesquisa para a elaboração do roteiro contou com o exame e a consulta da obra ficcional do autor de Os Maias, as correspondências, ensaios, artigos publicados em jornais, projetos de textos inéditos fornecidos pelo professor Carlos Reis e também fotografias do escritor. Dessa forma é que os roteiristas chegaram à construção de cenas e diálogos que apresentassem o mesmo tom da literatura de Eça de Queirós. As escolhas dos romances do escritor português, as inserções de textos não narrativos e não verbais, bem como de outras fontes, para que a minissérie fosse elaborada, culminaram em um complexo processo de construção do roteiro da minissérie.

No trabalho de composição, os roteiristas sentiram a necessidade de aproximar o texto queirosiano ao espectador brasileiro. Com isso, as adaptações foram conduzidas para que houvesse a compreensão da narrativa e que pudessem ser atendidos os influxos da mídia televisiva.

A roteirista-autora esteve atenta aos cuidados com a realização deste trabalho, conduzindo-se de forma respeitosa com o texto do escritor português e as estratégias utilizadas para atender aos anseios da teledramaturgia. O embate entre o “fazer dramaturgia” e a preocupação com a aproximação ao texto literário, além da preocupação em imprimir suas marcas no texto, causaram reação diversa na crítica, que antevia a reação de queirosianos acerca da inserção de outros textos do autor e dos recursos melodramáticos utilizados na versão para a TV.

Em 2004, o DVD Os Maias (versão do diretor) foi lançado pela Globo Vídeo, com a edição de Luiz Fernando Carvalho, que suprimiu os trechos da narrativa audiovisual que fazem referência aos romances A Relíquia e A Capital!.

O lançamento do DVD também possibilitou a abertura de espaços para a discussão de outras obras dos realizadores de Os Maias e comparações entre os seus trabalhos, além da discussão acerca da obra de Eça de Queirós. Nas redes sociais e blogues, a discussão acerca da afinidade entre o texto literário e o texto televisivo continua ocorrendo, especialmente no que diz respeito ao material do DVD. De março a maio de 2012, o Canal Viva (da Rede Globo) reapresentou a minissérie, o que trouxe à agenda brasileira de fãs, o retorno das participações nos grupos de discussão.

A análise da minissérie Os Maias nos faz crer que essa produção constitui-se em um cuidadoso trabalho de adaptação. O atendimento aos “influxos televisivos” de que fala Maria Adelaide Amaral não impede que a minissérie seja um dos melhores produtos da televisão brasileira.

 Excerto de «“Os Maias” na televisão brasileira», por Kyldes Batista Vicente, em Jornal de Letras, Artes e Ideias, 1117, 23.7.2013

Selton Melo como João da Ega

Selton Melo como João da Ega

 

Eça e Machado: diálogo cancelado

Machado de Assis

O décimo quarto volume  da Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós (Almanaques e outros dispersos. Ed. de Irene Fialho. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2011) abarca um conjunto de textos que, na sua  maioria, pouco dirão ao leitor que admira no grande escritor português sobretudo os seus  títulos “canónicos”. E contudo, aquele volume acolhe escritos de grande significado para se compreender a história literária de Eça, incluindo o seu não-diálogo com o confrade que no Brasil lhe corresponde em talento: Machado de Assis. É o caso de um texto que a crítica queirosiana conhece como “Idealismo e Realismo”, texto que aquela edição permite reavaliar: trata-se de um desordenado borrão, a que os acidentes da publicação póstuma deram a coerência que, no manuscrito, ele não evidencia. E contudo, aquele manuscrito inacabado constitui um testemunho eloquente do que poderia ter sido (mas não chegou a ser) o diálogo entre dois grandes escritores; disso mesmo tratou, em parte, o livro de Machado da Rosa, Eça, discípulo de Machado? (1963).

Resposta de Eça a Machado (fragmento; transc. diplomática por Irene Fialho)

É sabido que, na segunda metade do século XIX, Eça era já um escritor conhecido e  consagrado no Brasil. E é sabido também que, na época,  de Portugal e também da França chegavam ainda as tendências literárias com que a emergente literatura brasileira ia dialogando. Passava-se isto numa época e num quadro ideológico em que a independência política carecia da legitimação que lhe era conferida pela afirmação de uma literatura nacional; no muito citado texto em que reconhecia, na “atual literatura brasileira” e “como primeiro traço, certo instinto de nacionalidade”, Machado de Assis dizia também:   “Esta outra independência não tem Sete de Setembro nem campo de Ipiranga; não se fará num dia, mas pausadamente, para sair mais duradoura; não será obra de uma geração nem duas; muitas trabalharão para ela até perfazê-la de todo.” Para além daquilo que estas palavras significam, realço o seguinte: o longo ensaio de onde elas provêm,  “Notícia da atual literatura brasileira. Instinto de nacionalidade”, foi originariamente publicado não no Brasil, mas nos Estados Unidos (no jornal O Novo Mundo, em Nova York, a 24 de março de 1873), como se fosse estrategicamente conveniente afirmar fora do Brasil um impulso de autonomização literária que tinha também uma dimensão patriótica.
Pois bem: um tal impulso não perturbava a atenção com que Machado  acompanhava a literatura portuguesa que então se publicava. Assim tinha que ser, também porque, nos anos 70, Eça protagonizara, juntamente com Ramalho Ortigão, um episódio com larga repercussão no Brasil e há muito estudado por Paulo Cavalcanti, no livro Eça de Queirós, agitador no Brasil (1959): as críticas sarcásticas ao Imperador D. Pedro II, quando da sua visita a Portugal, em 1872, insertas em algumas d’As Farpas desse ano.E assim, quando em fevereiro de 1878 aparece O Primo Basílio, logo Machado se debruça sobre ele, numa extensa  crítica publicada n’O Cruzeiro,  a 16 e a 30 de abril.
O que  se encontra naquela análise tem muito da consabida rejeição machadiana de certos  aspetos do naturalismo, sobretudo pela sua  “viva pintura dos fatos viciosos” (Machado dixit), uma rejeição que aflorava  na citada “Notícia da Literatura Brasileira” e que se confirma em “A Nova Geração” (1879). Foi a isso que Eça quis reagir, não tendo esse intuito ido além, como o mostra o manuscrito inserto em Almanaques e outros dispersos, de uma tentativa abortada.
Por que razão Eça não levou adiante a sua resposta é coisa que provavelmente nunca saberemos. Conjeturo, porém, que Eça se terá apercebido, quando já dominava a doutrina do naturalismo, de que aquele não era o seu caminho e que, por conseguinte, Machado tinha razão. Outro mistério: por que motivo ficou sem sequência o quase-diálogo entre os dois grandes romancistas e isto apesar de Eça ter estendido a mão a um debate que, tanto quanto se sabe, não chegou a existir. Por arrogância, por displicente descaso ou por tímido recato do autor de Dom Casmurro? Rejeito as primeiras hipóteses, aposto na última. Antes de a justificar, noto o seguinte: se Eça ficou a dever a Machado uma mudança de rumo que fez dele discípulo do colega brasileiro, talvez Machado tenha confirmado, com a leitura  d’O Primo Basílio,  que a matriz formal daquele romance  tinha de ser superada. E assim, depois de Iaiá Garcia (de 1878, como O Primo Basílio), Machado dá à estampa, em 1881, o genial Memórias Póstumas de Brás Cubas.
Em 16 de agosto de 1900, quando Eça morre em Paris, o seu prestígio brasileiro era inequívoco. Esse foi o momento para que Machado de Assis expressasse uma generosa e irrestrita admiração por Eça; fê-lo numa carta escrita a 23 de agosto de 1900 e endereçada a Henrique Chaves, a carta em que  Machado diz: “Para os romancistas é como se perdêssemos o melhor da família, o mais esbelto e o mais valido”. E logo depois: “Tal que começou pela estranheza acabou pela admiração”. O que é uma forma bem elegante de realçar o que foi, em Eça, a autossuperação potenciada pela crítica de Machado. Caso para dizer: para Eça, a carta chegou tarde de mais;  para a justa ponderação do seu talento de escritor, feita pelo mais destacado dos seus pares brasileiros, ela é um documento ainda oportuno e tocado por um nobre sentimento de justiça.

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