A crónica como discurso de passagem

A crónica queirosiana é um discurso de passagem, num sentido que não aprofundo agora, mas que tem que ver com a condição paraliterária e paraficcional de certos textos e registos discursivos. Acontece assim com a biografia, com a autobiografia, com o diário, com a carta e também, como ficou dito, com a crónica.

Dois casos concretos, suscetíveis de desenvolvimento: a  crónica “Padre Salgueiro” (mais um, na galeria dos padres queirosianos), publicada na Gazeta de Notícias a 13 de junho de 1892 e depois rearticulada em carta de Fradique Mendes (a carta XIV, “A Madame de Jouarre”) e a  crónica  “No mesmo hotel”, inserta na Revista Moderna, a 5 de setembro de 1897. É este um texto absolutamente admirável, texto que, contudo, não conheceu a projeção que lhe seria dada por outro idioma, que não  a língua escusa (Machado de Assis dixit) em que foi escrito.

Seja como for, em “No mesmo hotel” conta-se o assassinato de Cánovas del Castillo, mas sobretudo valoriza-se nesse episódio ecamarcos82histórico um aspeto estranhíssimo: o assassino conviveu com quem ia assassinar durante cinco dias, como se, observando metodicamente a vítima, esperasse o momento perfeito para o seu ato. Para além disso, a crónica-quase-conto trata de  uma questão mais ampla e mais complexa, que é a de saber como procedemos à gradação qualitativa e axiológica dos acontecimentos do real, em função do trabalho da memória e das valorações que nela investimos.

Vale a pena recordar o início dessa crónica-relato, para nesse início observarmos a consciência queirosiana do perverso trabalho do tempo e da forma como ele vai condicionando o que fica e o que passa. Assim:

“ Já Alfred de Musset, em versos medíocres mas imortais, nos ensinou que quinze dias, quinze curtos e ligeiros dias,

Font d’une mort récente une vieille nouvelle!

Duma morte recente uma velha notícia… Com efeito! E não só a notícia envelhece, desbota, engelha, desce ao lixo como o jornal em que primeiramente rebrilhou e ressoou – mas  também com cada Sol que se afunda no mar, o morto mais morre, mais se afunda na terra. Há pouco era uma Personalidade que revolvia, atravancava todo um reino; agora é uma forma inerte, embrulhada num pano, que cabe num caixão esguio: dois meses rolam, como duas gotas numa vaga, e já nem mesmo se lhe distingue o vulto na vasta impersonalidade do pó! Assim, vinte curtos dias correram desde que D. António Cánovas caiu morto, com um tiro, no hotel de Santa Águeda: –  e  eis que já a ardente, esvoaçante, estridente notícia da sua morte caducou, regelou, se alinhou, seca e rígida, entre os parágrafos mortos da história, e já D. António Cánovas, o homem forte que enchia a Espanha de oceano a oceano, desde Cuba até às Filipinas, se esvai, recua diluidamente para o passado, sombra ténue confundida a outras sombras ténues, um incerto Cánovas, que se perde entre os vagos Metternichs e os esfumados Cavours…

Mas o que não caduca, o que permanecerá, dando sempre um arrepio novo, é a história tão simples e trágica daqueles cinco dias de Verão em que o assassino viveu, quietamente e cortesmente, no mesmo hotel, com o homem que vinha assassinar!”

Sublinho: o que permanecerá só fica na nossa memória porque somos capazes de valorizar nisso que parece momentâneo um certo potencial de eternidade  e a dimensão transhistórica que   surpreendemos num momento isolado. Para tal, carecemos do poder de conformação memorial da narrativa e da personagem. Outra coisa e já diferente é lermos (ou relermos) a crónica-conto “No mesmo hotel” como antecipação de Alfred Hitchcock; parece estranho, mas o texto de Eça mostra que não é bem assim.

Assassinato de C. del Castillo por M. Angiolillo (gravura de V. Ginés)

Assassinato de Cánovas del Castillo por Michele Angiolillo (gravura de V. Ginés)

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Crónica e personagem

Retomando as palavras de Eça de Queirós sobre a crónica: “A crónica é como que a conversa íntima, indolente, desleixada, do jornal com os que o leem: conta mil coisas, sem sistema, sem nexo, espalha-se livremente pela natureza, pela vida, pela literatura, pela cidade; fala das festas, dos bailes, dos teatros, dos enfeites, fala em tudo baixinho, como quando se faz um serão ao braseiro, ou como no Verão, no campo, quando o ar está triste. Ela sabe anedotas, segredos, histórias de amor, crimes terríveis; espreita, porque não lhe fica mal espreitar”.

A caracterização que Eça faz da crónica assinala as múltiplas possibilidades de olhar o mundo. Diremos mais: a definição de crónica feita RM18981226_01por Eça inscreve, de forma subtil, a entidade de maior importância em todos os factos, espaços e situações aí referidas: a personagem. Na verdade, é a personagem que fala baixinho, que sente, que anda nos bailes e nos teatros, que vive histórias de amor ou dramas terríveis. Mas antes de ser personagem, antes do autor lhe dar determinados traços que a transformam em ser de papel, ela foi pessoa, resgatada do imediato, do facto circunstancial, da realidade do quotidiano. E esta é, em boa verdade, a razão deste trabalho. A partir de um conjunto de crónicas que Eça escreveu para a Revista Moderna surge a possibilidade de explorar a personagem numa perspetiva ficcional.

A personagem que aparece nas páginas da Revista Moderna não tem o mesmo poder de observação que as personagens de outros textos ficcionais de Eça. Não esqueçamos: estas personagens são extraídas do real, surgem nas páginas de uma revista e, portanto, não foram pensadas, originariamente, como figuras de uma história ou de um enredo. A maioria das personagens dos seus romances, novelas ou contos é fruto de uma aguda reflexão, de um plano (e aqui referimo-nos ao célebre plano de cinco personagens para uma novela), de uma maturação literária, porque ao serviço de uma ideologia ou propósito social. Mesmo as personagens mais discretas têm uma missão nos seus textos, que tanto pode ser o retrato da beatice, como da “literaturinha acéfala”, como do “tédio da profissão” (da carta de Eça a Teófilo Braga, de 12 de março de 1878). Importa sublinhar que, não obstante estas diferenças, as personagens das crónicas da Revista Moderna também apresentam uma visão autoral, na medida em são um testemunho do espírito queirosiano finissecular. Cada uma delas transporta uma mensagem e uma visão subjetiva do mundo. Talvez por isso, estas crónicas apresentem características muito próximas de outras formas literárias de Eça, tal como o conto.

(Dilar Trancas, A figuração da personagem nas crónicas de Eça de Queirós. Textos de imprensa da Revista Moderna)

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