Guerra da Cal, galego universal

Para que nos serve Ernesto Guerra Da Cal, a sua trajetória, a sua produção, a análise delas? Talvez constitua umha útil fonte para analisar capitais e possibilidades, individuais e coletivas, para entender o alargamento do espaço dos possíveis, para interpretar aplicações e soluções inovadoras que permitam entender e explicar melhor os fenómenos que se constituem em perguntas ou objetos de estudo em determinados campos. Também para, ao invés, entender dificuldades e entraves de legitimação e internacionalização, internos e externos. Para o caso português, poder exemplarmente ajudar para compreender a construção do cânone e os efeitos simbólicos, culturais e referenciais dele no caso concreto de Eça de Queirós e as interações e dependência daqueles com os campos do poder; para o caso brasileiro, a sistemática falta de um plano de internacionalização da sua política (cultural) com carência que a sua crescente influência económica supre em parte. Ou também para comprender a elaboração, tensões e funcionalidades das redes de pessoas procedentes do lado perdedor da Guerra espanhola de 1936-1939 e os projetos que se movem no balouço do individual e o coletivo. No caso galego, para verificar como as suas elites estão empenhadas em soluções individuais e fracassadas e, noutros planos, pouco abrangentes e inclusivas, cujo resultado é (e será, provavelmente) umha continuada subalternidade e umha incapacidade de auto-afirmação e suficiência sistémicas e globais; provavelmente também (haverá que estudá-lo) porque o projeto sistémico está precisamente sustentado nessa mesma subalternidade.

Elias J. Torres Feijoó, prefácio a Joel R. Gômez, Ernesto Guerra Da Cal, do exílio a galego universal. Santiago de Compostela: Editora Através, 2015, p. 16).

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Os meus Eças (1)

Ao longo da minha vida tenho convivido com vários Eças. Com os meus Eças, desdobramentos e feições distintas de um escritor cuja multiforme diversidade não cessou, até hoje, de me surpreender.

Curiosamente, não me recordo de ter conhecido um Eça escolar. No tempo em que, no Liceu Nacional de Angra do Heroísmo, eu estudava Português, dominava a selecta, vigorava o respeito e Eça era demasiado ousado para a “boa” moral que regia a pedagogia de então. Estava-se nos anos 60, um tempo que só depois vim a perceber quão decisivo e dramático foi na vida pública portuguesa e no destino da Europa e do mundo; para mim, nessa época, bastavam os Beatles para vagamente entender que havia um fenómeno chamado conflito de gerações,  pacatamente  reduzido quase só ao pequeno escândalo de uns cabelos modestamente compridos e de uma empolgante música de duvidosa afinação. De Eça retenho uma primeira e equivocada imagem: a que me foi sugerida por um título, numa montra de livraria, que rezava assim, por debaixo do nome do autor: Os Maias. Para mim, nesse tempo, os Maias eram um povo nativo da América Latina,  talvez porque o dito povo tenha perpassado, diante dos meus olhos, nalguma banda desenhada das que  ilustravam as páginas do Cavaleiro Andante e títulos quejandos. E já que pouco mais  do que isso cabia na minha juvenil ignorância, no “contrato” de leitura que estabeleci com aquela capa, com aquele título e com aquele nome de autor, aquele não era um livro literário, mas (talvez) um livro de História.

Mais tarde, numa adolescência espigada, percebi que Eça de Queirós e os seus livros eram outra coisa. Foi na biblioteca fixa da Gulbenkian, nesse tempo hospedada numa espécie de desvão da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, que uma capa esbranquiçada da Lello me chamou a atenção. O livro intitulava-se singelamente A Capital e erado tal Eça de Queirós. Levei-o para casa, mais por estar o tal livro classificado como desaconselhado a adolescentes (ah! o doce e inocente sabor das transgressões de então!), do que por outra qualquer razão. E li-o de uma ponta à outra, quase sem parar, num êxtase que só muito depois voltaria a experimentar, provocado por um contemporâneo de Eça chamado Machado de Assis.

Ser-me-ia difícil recuperar hoje o que desde logo me fascinou em Eça. Retenho, todavia e de forma muito viva, que naquele estilo corredio e ágil, surpreendente pela graça e pela inventiva das imagens, radicou muito de um fascínio que jamais se desvaneceu em mim. Longe estava eu de imaginar então que, no caso d’A Capital, o tal estilo sedutor provinha também do trabalho do filho de Eça que, como hoje sabemos, desenvoltamente meteu a mão num texto que o pai deixara inacabado; e algo semelhante acontecia, como também muito mais tarde vim a perceber, no texto d’A Cidade e as Serras, o segundo título queirosiano que, de novo por minha iniciativa, mas já não por acaso, entrou na minha vida.

São desse tempo de encontro iniciático com Eça de Queirós dois episódios quase íntimos que quero evocar aqui. Um deles vivi-o no entusiasmo do adolescente que queria “escrever um romance”. Ao projectá-lo, congeminei uma história estranha: a de dois irmãos separados na infância por força de um qualquer incidente, reencontrados na idade adulta sem se conhecerem e ligados por uma paixão amorosa devastadora. Nesse tempo, eu não conhecia a palavra incesto e muito menos conhecia as sinuosas dimensões sociais, morais e psicológicas que ele envolve; talvez por isso, a ideia pareceu-me completamente descabelada e abandonei-a, por absurda e inviável. O resultado desse devaneio foi que, já na universidade, li um romance de Eça (para mim e até hoje o romance) que, entre muitas outras coisas, me revelou que, afinal, pouca coisa resta por inventar no universo das ficções romanescas.

O segundo episódio teve que ver também com um livro exposto numa livraria de Angra: outra revelação. Tinha esse livro por autor

Ernesto Guerra da Cal

Ernesto Guerra da Cal

alguém com o nome para mim estranho de Guerra da Cal e tratava da linguagem e do estilo de Eça de Queirós. Muito bem me lembro de por várias vezes o ter folheado e de sempre me ter demorado a ler nele, aqui e além, abundantes citações de Eça,  citações evidentemente escolhidas por alguém que, soube-o depois, foi e é o mais inteligente e fino  conhecedor da obra queirosiana. De Ernesto Guerra da Cal vim a ser  discípulo, amigo e (como ele generosamente dizia) “príncipe herdeiro”; a Guerra da Cal fiquei a dever esse outro livro que, tal como o outro, não pude escrever porque alguém, com infinito saber e inimitável talento, já o havia escrito. Estava, por isso, consideravelmente facilitado o meu trajecto queirosiano; o incentivo final veio quando, já nos bancos da Faculdade, em 1970 e num anfiteatro pejado de gente, assisti a uma notável conferência do mesmo Guerra da Cal sobre A Relíquia. Não se apagou em mim, até hoje, a forte impressão que nessa altura me causou a palavra convincente, a segura erudição e a elegante figura carismática de quem então começou a ser o meu Mestre.

Carlos Reis

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