Eça e o espaço romanesco

CAPA_ECA DE QUEIROS_3(1)-page-001O livro de Raquel Trentin sobre Eça de Queirós e o espaço romanesco constitui uma ajuda e um incentivo para uma revisão de critérios de leitura que só vem beneficiar a nossa relação exegética com o espaço ficcional e com a sedutora produção literária queirosiana. No que a esta diz respeito, a questão do espaço é, pode dizer-se, estruturante e semanticamente decisiva. Tendo escrito num tempo e sob motivações estético-literárias que davam ao espaço uma importância considerável, Eça foi um grande criador de cenários. Não por acaso, certas cidades portuguesas e mesmo outras fora de Portugal são convocadas para os seus romances, para os seus contos e até para as crónicas e para as cartas que escreveu, em termos que desde muito cedo deixam perceber  a necessidade de incorporação de lugares urbanos nas ações desenvolvidas nos relatos. Lisboa e Leiria, o Cairo e Paris, Coimbra e Jerusalém são, em dimensões e com funções muito distintas, presenças que não podemos ignorar.

Pode dizer-se que a representação do espaço na obra de Eça decorre quase sempre  do conhecimento direto,  suportado por anotações que o escritor em trânsito muitas vezes fazia nos caderninhos que depois retomava, ao compor os seus relatos. A exceção aqui é a China, lugar distante e contudo atrativo, que Eça soube descrever a partir de leituras que empreendeu, de tal forma que chega a parecer que aquele é um espaço apreendido de visu. Lendo O Mandarim, quem diria que Eça nunca foi ao Império do Meio?

Foi por visitas demoradas e atentas na condição de  viajante que  Eça conheceu o Cairo e Jerusalém, deles deixando testemunho em notas de viagem e em relatos ficcionais; e mesmo nalgumas cartas que valem como testemunhos de viagens, a presença do espaço e em particular da cidade é muito forte e muito impressiva: que o diga Ramalho Ortigão, destinatário de uma longa carta (com data de 20 de Julho de 1873) em que Eça  fala ao amigo, com o detalhe de quem via para reter e para aprender,  de Nova York, visitada nesse que era ainda um tempo de aprendizagem de um jovem escritor que olhava o real com a atenção bem atestada pelos  romances  depois escritos.

É desses romances e dos espaços  neles  pormenorizados que trata a análise de Raquel Trentin, uma análise processada em função de cuidados operatórios que vêm valorizar as leituras que aqui encontramos. Por outras palavras: o espaço romanesco é ponderado antes de mais levando-se em linha de conta a  função que ele ocupa na economia do romance; o que vale por dizer que a pesquisa de Raquel Trentin (que começou por ser uma investigação de índole académica) assenta num travejamento teórico que incute solidez ao trajeto crítico que aqui se leva a cabo. Mas isto não é tudo.

Com efeito, este Eça de Queirós e o espaço romanesco disserta sobre o espaço não como uma categoria isolada, mas antes em articulação com outros aspetos e componentes do romance. Isto que parece óbvio nem sempre é salvaguardado: para que seja expressivo e humanamente denso, o espaço deve ser considerado em função de quem nele habita e circula, ou seja, as personagens cuja vida é condicionada e conformada pela feição dos lugares físicos e dos enquadramentos sociais que no trânsito das suas vidas vão aparecendo e de que elas participam. Os efeitos de perspetiva narrativa, num escritor que dela retirou magistrais efeitos estéticos, remetem para espaços que, sob olhares próprios e vivências singulares, ganham contornos que de outra forma não teriam a relevância que neste estudo são apontados.

(Do prefácio a Raquel Trentin, Eça de Queirós e o espaço romanesco. Porto Alegre: EdiPUCRS, 2015). 11150511_906761646012305_3946808943406294310_n

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O interior na ficção

Estela VieiraEm Interiors and Narrative. The Spatial Poetics of Machado de Assis, Eça de Queirós, and Leopoldo Alas, da autoria de Estela Vieira (Indiana University), analisa-se  um componente fundamental da ficção narrativa do século XIX, o espaço. Obras de Eça,   “Clarín” e Machado de Assis permitem à autora valorizar criticamente este importante elemento ficcional, cuja relevância semântica remete também para as personagens que concebem, habitam e de certa forma dialogam com os espaços interiores em que decorrem as ações dos três romances que constituem o corpus deste trabalho: Quincas Borba, Os Maias e La Regenta.

Trata-se de uma abordagem comparatística que deduz uma poética específica a partir da análise do espaço ficcional, num tempo literário em que a sociabilidade, a vida doméstica, os encontros amorosos, os ócios e a relação com a realidade exterior e social se decidiam em cenários às vezes meticulosamente pensados e descritos; nesse sentido,  foi já possível falar, a propósito do processo da representação realista, numa estética do pormenor. Objetos e móveis, quadros e decorações várias preenchem os micro-cenários em que se projeta e com que interagem as personagens, nos seus gestos e também nas suas interioridades.

A uma introdução (“Interiors and Narrative”) seguem-se três partes: sobre a construção ficcional dos ambientes (“Furnishing the Novel”), sobre interiores e interioridade e sobre o discurso dos interiores. Por fim, um epílogo: “From Voltaire’s Garden to Galdós’s Rooms”.

Um passo de Interiors and Narrative, sobre Os Maias (p. 121):

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