Como uma vela de sebo

Um dos lugares comuns recorrentes a propósito da ficção (e não só dela) de Eça de Queirós é afirmação da sua atualidade. Deduz-se essa atualidade da descoberta de afinidades entre figuras, episódios e comportamentos do universo queirosiano e figuras, episódios e comportamentos do nosso tempo.
Sendo esta uma aproximação relativamente elementar, ela esquece com frequência que a questão da atualidade, num grande escritor, deve ser ponderada sobretudo tendo-se em atenção os sentidos transcendentes e os valores atemporais, mais do que as semelhanças contingentes e pontuais entre tempos históricos para todos efeitos diferentes. Além disso, as ficções não são (ou não devem ser) objeto de valoração crítica em função tão-só daquelas semelhanças e do seu grau de evidência.
Ainda assim, é forte o apelo, em certos momentos da vida de um país, para recordarmos as fragilidades da política, as pequenas frustrações e as mal disfarçadas ambições que ela comporta. Recordo, a este propósito, um passo do cap. XV d’Os Maias:

Selton Melo como João da Ega

Selton Melo como João da Ega

“E então o Gouvarinho, que acendera o charuto, espreitara outra vez o relógio, perguntou se os amigos tinham ouvido alguma coisa do Ministério e da crise.
Foi uma surpresa para ambos, que não tinham lido os jornais… Mas, exclamou logo o Ega, crise porquê, assim em pleno remanso, com as câmaras fechadas, tudo contente, um tão lindo tempo de Outono?
O Gouvarinho encolheu os ombros com reserva. Houvera na véspera, à noitinha, uma reunião de ministros; nessa manhã o presidente do Conselho fora ao Paço, fardado, determinado a «largar o Poder»… Não sabia mais. Não conferenciara com os seus amigos, nem mesmo fora ao seu Centro. Como noutras ocasiões de crise, conservara-se retirado, calado, esperando… Ali estivera toda a manhã, com o seu charuto, e a Revista dos Dois Mundos.
Isto parecia a Carlos uma abstenção pouco patriótica.
– Porque enfim, Gouvarinho, se os seus amigos subirem…
– Exatamente por isso – acudiu o conde com uma cor viva na face – não desejo pôr-me em evidência… Tenho o meu orgulho, talvez motivos para o ter… Se a minha experiência, a minha palavra, o meu nome são necessários, os meus correligionários sabem onde eu estou, venham pedir-mos…
Calou-se, trincando nervosamente o charuto. E Steinbroken, perante estas coisas políticas, começou logo a retrair-se para o fundo da janela, limpando os vidros da luneta, recolhido, já impenetrável, no grande recato neutral que competia à Finlândia. Ega no entanto não saía do seu espanto. Mas porque caía, porque caía assim um governo com maioria nas câmaras, sossego no país, o apoio do exército, a bênção da Igreja, a proteção do Comptoir d’Escompte?
O Gouvarinho correu devagar os dedos pela pêra, e murmurou esta razão:
– O Ministério estava gasto.
– Como uma vela de sebo? – exclamou Ega, rindo.
O conde hesitou. Como uma vela de sebo não diria… Sebo subentendia obtusidade… Ora neste Ministério sobrava o talento. Incontestavelmente havia lá talentos pujantes…
– Essa é outra! gritou Ega atirando os braços ao ar. – É extraordinário! Neste abençoado país todos os políticos têm imenso talento. A oposição confessa sempre que os ministros, que ela cobre de injúrias, têm, à parte os disparates que fazem, um talento de primeira ordem! Por outro lado a maioria admite que a oposição, a quem ela constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de robustíssimos talentos! De resto todo o mundo concorda que o país é uma choldra. E resulta portanto este facto supracómico: um país governado com imenso talento, que é de todos na Europa, segundo o consenso unânime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a ver: que, como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os imbecis!”

Fotografia de Nuno Ferreira Santos

Fotografia de Nuno Ferreira Santos

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