Notas sobre santidade em Eça

Any reader who is unaware of the complexity and diversity of Eça de Queirós’s oeuvre or familiar primarily with the long-established mainstream perspective on his writings will likely be surprised by this story. St. Christopher is a hagiography, a life of a saint, that harbors themes and values apparently incompatible with the dominant meanings ascribed to the canonical Eça, stereotyped as his image has been by much literary history. After all, according to this stereotype, the author of The Crime of Father Amaro was a fierce critic of Roman Catholicism, the Church, religion, and religious sentiment. (…)

The sainthood exemplified by Christopher is thus not merely of a contemplative nature: he is a saint shaped by his devotion to the cause of the weakest, as demonstrated in the episode of the Jacquerie, the fourteenth-century peasant revolt against feudal authority and widespread poverty, which was especially harsh in France in the immediate aftermath of the Black Death pandemic. Joining the Jacques, Christopher has no qualms about resorting to violence in a battle in which his comrades are decimated. In the story, their movement seems to stand for a reaction to God’s silence or strange absence from an unjust world. Theirs is a God who appears alienated from the society of men and leaves up to the rebels the search for justice that is slow in coming. “And who knows?,”  asks a mendicant friar; “Incomprehensible are the ways of Providence! Perhaps, to punish the castles, God might raise up in revolt an army from out of the hovels.” Finally, the rebellion also seems to spell out an answer to another question, formulated by Christopher himself: “Why could there not be the same hearth for everyone, the same bread?”

A saint on earth before ascending to Heaven, Eça’s Christopher represents, ultimately, a coherent culmination of another passage—that of the writer himself, guided by values from which he had never abstained. And although Eça de Queirós left his St. Christopher unpublished, the story contains a great deal of the passion for social justice and human solidarity that he nearly always inscribed on the horizon of his literary labors.

(C. Reis, “Notes on Sainthood in Eça de Queirós”, prefácio a Saint Christopher. Translated by Gregory Rabassa & Earl E. Fitz. Dartmouth, MA: Tagus Press, 2015).

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De Teodorico aos Santos

Teodorico, Topsius e o jucundo Potte, por Rui Campos Matos

Teodorico, Topsius e o jucundo Potte, por Rui Campos Matos

Em certo momento da sua vida, Teodorico Raposo, potencial herdeiro da vasta fortuna de uma tia devota, faz uma viagem àTerra Santa, com o propósito de trazer a Dona Patrocínio das Neves uma impressionante relíquia. A viagem e o projeto de amolecer a rigidez da devota acabam mal: Teodorico é expulso de  casa da tia e confronta-se com as contradições da sua duplicidade moral.  Antes disso, contudo, num sonho que ocupa todo o terceiro capítulo do romance, o devasso Teodorico testemunha os últimos dias de Cristo, numa Jerusalém reconstituída com cuidado arqueológico. Ora a imagem de Cristo e o mistério da ressurreição, episódio fulcral para a fundação do Cristianismo, surgem tocados pela marca de afetos e de vivências humanas, ao mesmo tempo que a religião que nasce ganha uma feição lendária. Para além disso, os termos em que n’A Relíquia  são representados o cenário e o tempo da vida de Cristo remetem para o antigo fascínio que sobre Eça exercia aquele cenário e aquela época de transcendente relevância para o imaginário ocidental. A leitura de  Renan ecoa seguramente naquele fascínio, a par da memória  de  Eça, também ele  viajante pelo Egito e pela Palestina, nos finais de 1869 e, logo então, autor do relato, supostamente inacabado, “A Morte de Jesus” (inserto, por Marie-Hélène Piwnik, no volume Contos I, da Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós).

Por aqui se vê que a relação de Eça com a religião, com o Cristianismo e com o seu legado espiritual, incluindo-se nele  o valor da santidade, vai muito além do anticlericalismo dos anos 70. Se é certo que esse anticlericalismo esteve congenitamente ligado a um programa ideológico reformista, a verdade é que ao longo dos anos ele foi dando lugar  a textos ficcionais e a textos cronísticos  que traduzem  uma atração quase idealista pela palavra cristã e pela santidade de matriz evangélica.

Aquele Eça a que nos habituámos a chamar último Eça tem tudo a ver com os sentidos que mencionei. Refiro-me, a este respeito e sem pretender ser exaustivo, a vários textos queirosianos dos anos 90 do século XIX, em muitos aspetos sintonizados com as Lendas de Santos e, em particular, com o São Cristóvão. A crónica “Um Santo Moderno”, publicada na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, em 1892, quando da morte do Cardeal Manning, aponta numa direção muito clara: é possível encontrar manifestações de uma  santidade essencial no final do século XIX,  fazendo emergir na agitação das grandes cidades o franciscanismo ou o exemplo de Santo Antão. No ano seguinte e também na Gazeta de Notícias,surgem duas crónicas  que reafirmam algumas das preocupações formuladas a respeito do “santo moderno”. Ambas se reportam às dúvidas que, em Eça e noutros mais, iam sendo provocadas pelos excessos da “religião” da ciência, pela doxa do pensamento positivista e pelos desígnios da democracia: em “O Bock ideal” e em “Positivismo e Idealismo” reaparecem, como alternativas àquela doxa, o espírito do Evangelho, a prática de vida que ele inspirava e mesmo a sugestão de um catolicismo social cujo mentor, Melchior de Vogüé (1848-1910), suscitava, contudo, algumas reservas a Eça de Queirós. Parece inquestionável, todavia, que a reação anti-naturalista que em “Positivismo e Idealismo” é descrita acaba por desembocar numa consolação: a de ser possível, livremente e sem censuras, invocar de novo esse “santo incomparável” (palavras de Eça) que foi São Francisco de Assis.

(Excerto de “Notas sobre a santidade em Eça de Queirós”, prefácio a uma tradução em inglês do São Cristóvão, a publicar por Tagus Press, University of Massachusetts Dartmouth)

São Cristóvão, em O Mosquito (1953), ilustrado por E. T. Coelho

São Cristóvão, em O Mosquito (1953), ilustrado por E. T. Coelho

 

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