Fradique Mendes e Lisboa

Nalguns aspetos que vale a pena realçar, A Correspondência de Fradique Mendes remete para o domínio das relações entre a literatura e a cidade. Penso aqui naquela literatura  que, sobretudo no século XIX, testemunhou e incorporou o desenvolvimento de grandes urbes, em especial na Europa, com todas as contradições e excessos a que aquele desenvolvimento deu lugar.
Numa obra já clássica sobre esta questão (The City in Literature. An Intellectual and Cultural History. Berkeley: Univ. of California Press, 1998) e tendo em atenção a história do urbanismo, Richard Lehan analisou a forma como grandes romances se articularam com a entidade não raro opressiva e tentacular que é a cidade. Segundo Lehan, nos últimos 300 anos a cidade não só respondeu a estímulos sociais, económicos e culturais que têm as suas raízes no Iluminismo, como motivou respostas literárias traduzidas em movimentos e em géneros indissociáveis dos grandes cenários urbanos que na Europa foram crescendo, no decurso daquele lapso temporal. O realismo e o naturalismo, a par do romance e mesmo do ciclo de romances são algumas dessas respostas; e em escritores que cultivaram uma bem caracterizada literatura da cidade (Dickens, Balzac, Zola, Eça, Machado de Assis) desenvolvem-se universos ficcionais cujas personagens bem se acomodam às feições daquela literatura. Por exemplo: o provinciano (aquele que quer triunfar na cidade), o jornalista, o escritor, o operário, o político, a prostituta, etc.
A chamada Lisboa queirosiana não é, por isso, um espaço neutro ou despido de sentidos. Ela constitui um elemento estruturante dos relatos em que podemos ler a sua presença (O Primo Basílio, A Capital!, partes d’O Crime do Padre Amaro e d’O Mandarim, A Relíquia, Os Maias, etc.), com as marcas de uma renovação arquitectónica e urbanística provinda da segunda metade do século XVIII. Mais: em Eça como noutros grandes escritores da cidade, a sua representação é a de um espaço em mudança, uma mudança que se projeta sobre as personagens, em termos que a propensão metonímica e a dinâmica temporal da narrativa adequadamente modelam. Os finais d’O Crime do Padre Amaro e sobretudo d’Os Maias são, deste ponto de vista, muito expressivos: Carlos da Maia, consabidamente uma espécie de Fradique em traje de personagem de romance, vem rever Lisboa, visitar as “maravilhas da Avenida” e refletir sobre ele mesmo na sua relação com a cidade, com o país e com a sua gente – para finalmente perceber que a única mudança que lhe interessava, naquele espaço social abúlico, era, desse seu ponto de vista já fradiquista, um regresso ao passado.
Neste contexto epocal e literário Fradique Mendes é um caso especial. Essa sua condição diferencial é desde já induzida por três propriedades que lhe são inerentes. Primeira: a figura de Fradique Mendes constitui-se em função de uma deriva processual, a partir da estrutura e da lógica convencionais do romance oitocentista (em suma: Fradique não é uma personagem de romance). Segunda propriedade: a configuração literária e ontológica de quem não é uma mera personagem de romance institui um registo de alteridade ideológica e discursiva (relativamente a Eça, pois então), para o que contribuem os protocolos de veridicção (ou seja, os dispositivos retóricos de um convincente dizer verdade) que suportam uma tal constituição. Terceira: a paisagem de Lisboa é, para Fradique, outra paisagem, em confronto tácito ou expresso com aquelas paisagens que este impenitente viajante (condição que é aqui fundamental) carrega na sua memória de vida.  
Certamente não por acaso é a Fradique como viajante que se refere o incipit d’A Correspondência de Fradique Mendes: “A minha intimidade com Fradique Mendes começou em 1880, em Paris pela Páscoa, – justamente na semana em que ele regressara da sua viagem à África Austral”.  Mas logo depois o narrador relaciona Fradique com Lisboa: “O meu conhecimento porém com este homem admirável datava de Lisboa, do ano remoto de 1867.” (A Correspondência de Fradique Mendes, Lisboa: Livros do Brasil, s.d., p. 7).

Fradique Mendes por António

Fixemos, então, duas coordenadas de referência que afloram neste início. Uma: a ligação de Fradique com Lisboa é, por natureza, passageira (no sentido mais próprio do termo) e processa-se em conexão com outros dois pontos de referência: Paris, “seu centro e seu lar” (ibidem, p. 18), e o resto do mundo, ou seja, o vasto espaço por onde Fradique Mendes frequentemente deambula, na condição de touriste que era, na segunda metade do século XIX, restrita a uma minoria de homens de gosto e fortuna. Outra coordenada: as referências fradiquistas (ou em função de Fradique) a Lisboa são filtradas pelo discurso do biógrafo anónimo, em regime de diálogo implícito não muito distinto do que Zé Fernandes mantém com Jacinto e com a vivência parisiense protagonizada pelo amigo na primeira parte d’A Cidade e as Serras. Para além disso, as passagens de Fradique por Lisboa parecem transcorrer sob o signo do regresso, numa lógica de reencontro não isenta de tonalidades mítico-simbólicas como as que podemos ler no episódio final d’Os Maias.
Do convívio lisboeta de Fradique ficam diálogos e juízos que  testemunham a ambígua relação Eça-Fradique. É essa uma relação feita de sintonias relativas, de proximidades e de afastamentos, mas nunca de rigorosa identificação, sendo claro para mim que uma tal identificação perturbaria irremediavelmente o estatuto alteronímico de Fradique  e o potencial de autonomização irónica e paródica que ele encerra.

Carlos Reis (de “Lisboa como paisagem: a cidade segundo Fradique Mendes”, in Colóquio/Letras, 179, janeiro/abril de 2012, com reajustamentos).

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A Lisboa de Eça

Jardim de S. Pedro de Alcântara

Os termos em que me acerco de Lisboa enquanto componente da ficção queirosiana não se confundem com abordagens que seguem aquilo a que chamo a lógica do roteiro. Com uma legitimidade que se não põe em causa, aquelas abordagens fixam-se sobretudo nos aspetos materiais do espaço urbano, de um ponto de vista meramente descritivo e obedecendo a intuitos de localização que escassamente se reportam aos grandes sentidos da ficção queirosiana. Uma ficção que, reconheça-se, é por natureza convidativa a este tipo de trabalho, por força da presença de cenários e de marcos urbanos em textos em que o espaço com frequência tem um valor estruturante; um espaço que, para mais, está relativamente próximo de nós e como que disponível, por isso, para aquela lógica do roteiro, enquanto processo “reconstrutivo” e descritivo, baseado no imediato vaivém entre a ficção e o real.
Num outro tipo de tratamento (a meu ver ainda mais rudimentar do que aquele), procura-se cruzar a biografia do escritor com a cidade em que ele viveu ou por onde passou, com a intenção expressa ou velada de “explicar” a ficção. E assim, a atenção do estudioso fixa-se na rua que Eça percorreu, na casa onde viveu, no café que frequentou, etc. No final das contas, esta relação estreitamente biografista entre o escritor e a sua obra enleia-se em explanações falaciosas que ignoram as instâncias modelizadoras do discurso ficcional, os procedimentos de figuração (dizendo respeito, em particular, ao desenho e à caracterização das personagens e dos seus movimentos em espaço urbano), os filtros de perspetivação ou os dispositivos de enunciação narrativa, todos desaconselhando leituras à clef, cujo alcance hermenêutico é inevitavelmente escasso ou até nulo.
A minha Lisboa queirosiana não é esta, nem é toda ela. Digo toda ela porque, de facto, Lisboa constitui, na obra de Eça (e em especial nos romances) uma presença reiterada e alargada, decorrendo essa presença dos termos em que o escritor concebeu e procurou desenvolver um projeto literário de reforma de mentalidades e de crítica de costumes. Um tal projeto tem o seu epítome na atenção que, para Eça, o romance realista deveria dar à “burguesa da baixa, em Lisboa, no Ano da Graça de 1879” (cf. Almanaques e outros dispersos. Edição de Irene Fialho. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2011, p. 357). A mulher, a burguesia, o centro de Lisboa e o presente vivido pelo escritor-observador são os limites do mundo social e urbano que havia que reformar. 
A capital deveria ser, sob todos os pontos de vista, o alvo por excelência dessa reforma, com os seus lugares de circulação e de sociabilidade, tanto pública como privada (ruas e praças, hotéis e teatros, monumentos e jardins, casas de família, etc.); e a existência de um romance, ainda que inacabado, que  menciona em título  A Capital(conforme foi restabelecido pela edição crítica de Luiz Fagundes Duarte), revela bem a proeminência de Lisboa em Eça, uma proeminência que naquele romance se articulava com experiências humanas às vezes dramáticas: é a personagem Artur Corvelo e o motivo da sua vinda para Lisboa que são sugeridos no subtítulo “Começos duma carreira”, igualmente recuperado pela edição crítica. 
Em certos passos da ficção queirosiana, sugere-se uma apropriação do país por Lisboa, espécie de metonímia expedita que autoriza uma personagem com vocação provocatória (João da Ega) a proferir afirmações tão redutoras como esta: “– Lisboa é Portugal (…). – Fora de Lisboa não há nada. O país está todo entre a Arcada e S. Bento!…” (Os Maias. Lisboa: Livros do Brasil, s. d., p. 170). De forma não menos redutora, uma outra personagem, Gonçalo Mendes Ramires, explica assim a organização de Portugal e a macrocefalia de Lisboa: “Portugal é uma fazenda, uma bela fazenda, possuída por uma parceria. Como vocês sabem há parcerias comerciais e parcerias rurais. Esta de Lisboa é uma parceria política, que governa a herdade chamada Portugal… Nós os Portugueses pertencemos todos a duas classes: uns cinco a seis milhões que trabalham na fazenda, ou vivem nela a olhar, como o Barrolo, e que pagam; e uns trinta sujeitos em cima, em Lisboa, que formam a parceria, que recebem e que governam.” (A Ilustre Casa de Ramires. Edição de Elena Losada Soler. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda,1999, p. 180).

 Carlos Reis (de “Lisboa como paisagem: a cidade segundo Fradique Mendes”, in Colóquio/Letras, 179, janeiro/abril de 2012, com reajustamentos).

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