Os Maias em entrevista

A entrevista com o Prof. Carlos Reis deu-se na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, em 11 de junho de 2014, no âmbito das atividades realizadas no primeiro semestre, quando atuou como professor-visitante, bolsa Escola de Altos Estudos (CAPES).

Entrevistaram-no alunos da turma de formandos em Português-Literaturas em Língua Portuguesa do turno da manhã, na disciplina Literatura Portuguesa VI, curso monográfico sobre o romance Os Maias (1888). Ao longo das quinze perguntas e respostas, que compõem esta entrevista sobre Os Maias, são abordados assuntos como: a importância do contexto histórico, dos protocolos de descrição e da multiplicidade de perspetivas adotadas pelo narrador; a função dos retratos na construção das personagens; o anticlericalismo de Eça de Queirós; as personagens femininas do romance; a versão para a televisão brasileira; os problemas das edições disponíveis e a necessidade de uma edição crítica (já em curso); os dois modelos de educação, que se contrapõem no romance; a sua longa gestação e a relação com as obras que foram publicadas durante o tempo em que foi escrito; a fratura do sujeito em Carlos da Maia; as semelhanças entre este personagem e outro Carlos queirosiano, o da  Correspondência de  Fradique  Mendes;  e,  por  fim,  os  sentidos  da  exploração  de  aspectos  linguísticos na construção do personagem brasileiro, bem como as contradições resultantes  desse processo.

Ler a entrevista aqui.

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Prova tipográfica d’Os Maias emendada por Eça

 

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Educação literária: Os Maias

O trabalho que agora se publica tem um propósito definido e visa destinatários específicos.  O propósito: motivar e auxiliar a leitura d’Os Maias (e não substituí-la), naqueles aspetos em que isso é possível. Os destinatários: os alunos de Português do 11º ano do Ensino Secundário, em cujo programa aquele grande romance de Eça de Queirós aparece  como uma das obras de leitura integral.

É  sabido que a primeira dificuldade com que nos defrontamos, quando temos de  ler Os Maias, é a sua extensão. Trata-se, de facto, de um relato longo, trazendo até nós muitas personagens, diversos espaços, descrições pormenorizadas, expressões que, nalguns casos, podem não ser muito acessíveis. Para além disso, os costumes e os comportamentos do século XIX em que se passa a ação d’Os Maias estão já distantes de nós, embora não tanto como no caso de outros textos e autores de séculos anteriores, também do programa de Português.

E contudo, vale a pena tentarmos perceber em que medida alguns dos principais sentidos que encontramos n’Os Maias são capazes de nos alertar para temas e para problemas do nosso tempo. Por exemplo: a questão da educação e os seus reflexos na formação da pessoa adulta, a ilusão dos projetos concebidos e a desilusão causada pelo seu falhanço, os limites da nossa capacidade para decidirmos o nosso destino, a passagem do tempo e os seus efeitos, a importância que certos espaços têm nas nossas vidas, etc. A  atualidade de Eça e d’Os Maias percebe-se também quando observamos, no nosso tempo, comportamentos e figuras semelhantes ao que ali se nos depara: a ostentação, a mediocridade mal disfarçada, o culto das aparências, a vaidade, a ambição e as fraquezas do poder político, a ociosidade e os seus efeitos, a prática e os vícios do jornalismo, etc. É sobretudo nas personagens  que aquela atualidade se torna flagrante; por essa  razão,  a galeria dos tipos que povoam o romance pode ser considerada das mais ricas da nossa literatura.  (…)

Por fim, um desafio: mesmo quem acha que Os Maias são um relato não apenas longo, mas também lento e maçador (é mesmo verdade:  a descrição do Ramalhete é extensa…) deve fazer um esforço para ler o romance. Um esforço, repete-se. Como é bem sabido, sem isso não conseguimos resolver problemas difíceis, entender fenómenos históricos complexos ou  movimentos filosóficos de agora e de outras épocas. O mesmo  acontece com a leitura d’Os Maias. O que não parece certo é desistir antes de começar ou dizer que se não gosta daquilo que nem sequer se tentou conhecer, sobretudo quando a obra que aqui está em causa  revela o talento de escrita, a perspicácia crítica, a ironia e por vezes o humor de um grande escritor chamado Eça de Queirós.

(Extrato de “Nota Prévia” a Os Maias. Eça de Queirós. Coleção “Educação Literária. Leituras Orientadas”. Porto: Porto Editora, 2016, pp. 6-8).

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Os Maias no cinema

Algum tempo depois de publicar Os Maias, Eça de Queirós tentou escrever uma versão teatral do seu romance. Disso existe o testemunho  deixado por manuscritos  que se encontram no espólio do escritor; neles encontra-se  uma planificação de dois atos, mais o desenvolvimento de uma cena, com diálogos, efeitos musicais e de luzes, elenco de personagens e notações para cenários.

Eça não levou adiante este projeto, por razões que não são conhecidas, mas que podemos conjeturar. Por exemplo: aquele romance tem uma dimensão e uma complexidade que não são compatíveis com as reduções – de tempo, de espaço, de elenco de personagens, etc. – a que a reescrita para palco obrigava.

Há, entre outros, dois aspetos da construção romanesca d’Os Maias que não podem ser ignorados por nenhuma nova versão, noutro medium e para diferente público (entenda-se: um público espectador e não leitor). Assim:

  • O tempo d’Os Maias é extenso e multiforme, por vezes tão “arrastado” como a vida social que no relato se ilustra. Essa temporalidade desenvolve-se  em  diálogos que mimetizam aquela vida social, com as falas, com as pausas e com os gestos próprios de jantares e de serões, de ceias e de saraus. Entre essas “cenas” o tempo não se detém: vai corroendo existências e tecendo destinos. Este outro tempo, tão invisível como insidioso, não pode ser abolido do relato nem do destino de uma família que se vai extinguindo à medida que o século avança. Uma versão outra d’Os Maias, no cinema, na televisão ou no teatro (todas elas foram já tentadas) não pode ignorar este tempo omnipresente.
  • O tempo d’Os Maias é vivido por personagens. As rugas e os cabelos brancos que nelas vão surgindo expressam o devir de existências com uma  dimensão histórica, cultural, familiar e social. Não é indiferente que algumas personagens sobrevivam ao longo de décadas, enquanto outras desaparecem ou aparecem apenas por momentos. Por exemplo: Tomás de Alencar. Ele está na juventude de Pedro da Maia, reaparece no tempo de Carlos da Maia e sobrevive ainda no capítulo epilogal do romance, já em 1887. Retirá-lo de um destes tempos é ignorar que Alencar é, afinal de contas, uma das grandes personagens d’Os Maias; e que nele está emblematizada uma entidade obsessiva e inescapável: chama-se romantismo essa entidade e o subtítulo do romance é muito claro a este propósito: “Episódios da vida romântica”.

São estas algumas das questões suscitadas pela versão cinematográfica d’Os Maias, realizada por João Botelho. Depois de se ver o filme (quem isto escreve acaba de assistir à ante-estreia) entra-se inevitavelmente num desafio de “confrontação” que envolve a leitura prévia do romance e os componentes que ficaram mencionados; um desafio que  convida também a dialogar com tentativas similares, como é o caso da versão para televisão, por Maria Adelaide Amaral e Luís Fernando Carvalho, produzida pela Globo há alguns anos.

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No vão do arco…

No vão do arco, como dentro de uma pesada moldura de pedra, brilhava, à luz rica da tarde, um quadro maravilhoso, de uma composição quase fantástica, como a ilustração de uma bela lenda de cavalaria e de amor. Era no primeiro plano o terreiro, deserto e verdejando, todo salpicado de botões amarelos; ao fundo, o renque cerrado de antigas árvores, com hera nos troncos, fazendo ao longo da grade uma muralha de folhagem reluzente; e emergindo abruptamente dessa copada linha de bosque assoalhado, subia no pleno resplendor do dia, destacando vigorosamente num relevo nítido sobre o fundo do céu azul-claro, o cume airoso da serra, toda cor de violeta-escura, coroada pelo Palácio da Pena, romântico e solitário no alto, com o seu parque sombrio aos pés, a torre esbelta perdida no ar, e as cúpulas brilhando ao Sol como se fossem feitas de ouro…

Eça de Queirós, Os Maias, cap. VIII

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Introdução à leitura d’Os Maias

 Introdução à leitura d'Os Maias         A publicação da Introdução à leitura d’Os Maias, com o propósito que agora a suscita, permite levar até a um público consideravelmente alargado uma monografia cuja primeira motivação foi de ordem pedagógica. Escrito há mais de trinta anos – e, por isso mesmo, não podendo isentar-se das marcas de estilo e do ambiente escolar de então –, este livro conheceu, por parte do público, um acolhimento  que, na época, tinha a sua razão de ser. Estudantes e professores de Português que liam Os Maias como texto “obrigatório” (expressão que sempre me causou algum desconforto) careciam de instrumentos  que apoiassem o estudo de um romance tão genial como complexo e extenso. Foi isso que este livro quis ser e não mais do que isso: um auxiliar de estudo.

            A reedição que agora se leva a cabo não anda longe desse intuito. Com efeito, a leitura ou a releitura d’Os Maias, mesmo que  fora do ambiente escolar, pelo puro gosto do encontro ou do reencontro com uma obra-prima, pode ser favorecida  por análises  como as que aqui se encontram. De modo algum elas substituem, contudo, o encantamento e a sedução que a presença real (para usar uma expressão famosa) d’Os Maias constitui, na vida dos que amam a literatura, fazem da leitura uma sempre renovada  descoberta  e reconhecem em Eça de Queirós o extraordinário escritor  que ele foi e é. E também o arguto conhecedor da sociedade portuguesa, dos seus defeitos e das suas ilusões, num estilo que ninguém, antes ou depois dele, foi capaz de imitar.

Muito tempo depois da sua redação original, este livro foi agora revisto. Tratou-se, antes de mais, de o ajustar ao projeto editorial em que ele se integra; mas tratou-se também de aligeirar o seu aparato académico e, tanto quanto possível, de adequar o seu texto, do ponto de vista estilístico, ao que serão as expectativas do leitor de agora. Tudo isto com a crença de que, quaisquer que sejam os roteiros de análise propostos, nunca se esgotará o potencial de surpresa e de novidade que um grande romance como Os Maias nos oferece.

(Nota Prévia)

“Os Maias” na televisão

os maias Globo            O projeto da minissérie Os Maias teve início em 1997, quando a Rede Globo convidou a novelista Glória Perez para assinar o roteiro, e Wolf Maya, a direção. A minissérie teria dezesseis capítulos, seria toda gravada em Portugal, teria Paulo Autran como Afonso da Maia e estava prevista para ser exibida a partir de janeiro de 2000. No entanto, em março de 1999, depois de trabalhar no remake da novela Pecado Capital, Glória Perez não pôde participar do projeto de Os Maias.

Então, em 2000, após o sucesso de A Muralha, a emissora escolhe Maria Adelaide Amaral para elaborar o roteiro e Daniel Filho para a direção, que posteriormente foi substituído por Luiz Fernando Carvalho. E, para colaborar com Maria Adelaide Amaral nesta elaboração do roteiro, foram convidados Vincent Villari e João Emanuel Carneiro, a mesma equipe do sucesso A Muralha. Após análise do romance, a equipe decidiu construir a minissérie a partir de três romances de Eça de Queirós: Os Maias, A Relíquia e A Capital, já que a minissérie deveria ter 44 capítulos. Nesse caso, a equipe buscou na obra de Eça de Queirós subsídios para ampliação dos capítulos.

A pesquisa para a elaboração do roteiro contou com o exame e a consulta da obra ficcional do autor de Os Maias, as correspondências, ensaios, artigos publicados em jornais, projetos de textos inéditos fornecidos pelo professor Carlos Reis e também fotografias do escritor. Dessa forma é que os roteiristas chegaram à construção de cenas e diálogos que apresentassem o mesmo tom da literatura de Eça de Queirós. As escolhas dos romances do escritor português, as inserções de textos não narrativos e não verbais, bem como de outras fontes, para que a minissérie fosse elaborada, culminaram em um complexo processo de construção do roteiro da minissérie.

No trabalho de composição, os roteiristas sentiram a necessidade de aproximar o texto queirosiano ao espectador brasileiro. Com isso, as adaptações foram conduzidas para que houvesse a compreensão da narrativa e que pudessem ser atendidos os influxos da mídia televisiva.

A roteirista-autora esteve atenta aos cuidados com a realização deste trabalho, conduzindo-se de forma respeitosa com o texto do escritor português e as estratégias utilizadas para atender aos anseios da teledramaturgia. O embate entre o “fazer dramaturgia” e a preocupação com a aproximação ao texto literário, além da preocupação em imprimir suas marcas no texto, causaram reação diversa na crítica, que antevia a reação de queirosianos acerca da inserção de outros textos do autor e dos recursos melodramáticos utilizados na versão para a TV.

Em 2004, o DVD Os Maias (versão do diretor) foi lançado pela Globo Vídeo, com a edição de Luiz Fernando Carvalho, que suprimiu os trechos da narrativa audiovisual que fazem referência aos romances A Relíquia e A Capital!.

O lançamento do DVD também possibilitou a abertura de espaços para a discussão de outras obras dos realizadores de Os Maias e comparações entre os seus trabalhos, além da discussão acerca da obra de Eça de Queirós. Nas redes sociais e blogues, a discussão acerca da afinidade entre o texto literário e o texto televisivo continua ocorrendo, especialmente no que diz respeito ao material do DVD. De março a maio de 2012, o Canal Viva (da Rede Globo) reapresentou a minissérie, o que trouxe à agenda brasileira de fãs, o retorno das participações nos grupos de discussão.

A análise da minissérie Os Maias nos faz crer que essa produção constitui-se em um cuidadoso trabalho de adaptação. O atendimento aos “influxos televisivos” de que fala Maria Adelaide Amaral não impede que a minissérie seja um dos melhores produtos da televisão brasileira.

 Excerto de «“Os Maias” na televisão brasileira», por Kyldes Batista Vicente, em Jornal de Letras, Artes e Ideias, 1117, 23.7.2013

Selton Melo como João da Ega

Selton Melo como João da Ega

 

Reler “Os Maias”

capa-7516Das minhas releituras d’Os Maias retive algumas revelações curiosas. Como quem diz: fui reajustando imagens, refigurando personagens, descobrindo minudências aparentemente irrelevantes, dessas que me permitiram, há alguns anos, falar numa estética do pormenor que n’Os Maias se ilustra. Por exemplo: aquele “bando de pardais [que] veio gralhar um momento nos ramos de uma alta árvore que roçava a varanda”, no amargo episódio em que Afonso da Maia se acha na solidão decorrente da rutura com Pedro. A presença de Vilaça pai é ali meramente funcional (é ele quem traz a notícia do casamento de Pedro); não assim com aquele bando de pardais, que, por contraste, tornam mais denso e sombrio o episódio de que falo. E sobretudo dão o testemunho de um outro realismo, aquele que não prescinde de pormenores que dão do real representado uma imagem multímoda e plural, refugindo ao esquematismo de um programa estético pré-determinado. Ou seja: num texto de Eça nada está por acaso.
Dentre todas as revelações de que falei não esqueço nem esquecerei aquela a que fui conduzido por uma certa releitura d’Os Maias. Refiro-me à imagem reelaborada da grande personagem que é Afonso da Maia – porque, além do mais, Eça foi também um grande autor de personagens. Durante algum tempo, Afonso foi, para mim, uma figura imponente e fisicamente impressiva; e “lembrava, como dizia Carlos, um varão esforçado das idades heroicas, um D. Duarte de Meneses ou um Afonso de Albuquerque” (cap. I). Só que um pouco antes e a abrir este parágrafo, pode ler-se: “Afonso era um pouco baixo, maciço, de ombros quadrados e fortes.” Repito: “um pouco baixo”. De onde vinha, então, a imagem de grandeza que me estava gravada? Nem mais nem menos do que da derradeira aparição de Afonso, no capítulo XVII, naquele arrepiante encontro com o neto, quando ambos sabiam já da tragédia do incesto. É de madrugada, Carlos regressa de casa de Maria Eduarda, torturado pela culpa e pelo horror da desgraça que se abateu sobre a família; e quando reentra no Ramalhete, surge Afonso da Maia: “O clarão chegava, crescendo; passos lentos, pesados, pisavam surdamente o tapete; a luz surgiu – e com ela o avô em mangas de camisa, lívido, mudo, grande, espetral.”
Para se entender a aparente divergência desta figura (agora) “grande”, relativamente a quem antes era “um pouco baixo”, é preciso estar atento a duas coisas, dessas que podem escapar a uma primeira leitura. Primeira: ambas as imagens são filtradas e mesmo distorcidas pelo olhar e pelas emoções de Carlos da Maia. Segunda: a grandeza de Afonso, naquele momento decisivo em que mudamente interpela o neto – “e os dois olhos do velho, vermelhos, esgazeados, cheios de horror, caíram sobre ele, ficaram sobre ele, varando-o até às profundidades da alma, lendo lá o seu segredo” –, não é física, mas moral. É essa sua dimensão moral, aliás, que o impõe ao longo do romance como referência de valores e de comportamentos, perante a fauna de amigos e conhecidos que circulam pelo Ramalhete – incluindo quem, como Carlos, descuida o exemplo do “varão heroico” que o avô representa.
Mas as releituras d’Os Maias não são apenas (o que já seria muito) atos de reencontro e processos de reajustamento semântico de um texto longo, complexo e tecnicamente muito elaborado. São também oportunidades para lermos o eco de outras aventuras artísticas que o génio queirosiano antecipou.
Recordo que Eça trabalhou este romance durante cerca de oito anos, com avanços e recuos, desânimos e entusiasmos, num tempo que, para o escritor, foi de busca de novos rumos estéticos. Às vezes penso que nunca faremos uma ideia precisa do que era, naquela época, o esforço exigido para se levar até ao fim a redação, a cópia, o árduo trabalho de emenda (em sucessivas campanhas de escrita) e a correção de provas tipográficas de romances com esta dimensão, sejam eles Os Maias, La Regenta ou Guerra e Paz. Mais: esse exigente labor (até do ponto de vista físico: pense-se no que eram os instrumentos de escrita da época) foi acompanhado, por parte de Eça, por uma reflexão doutrinária muito lúcida e consequente. Vivendo fora de Portugal, Eça estava em boas condições para acompanhar o evoluir da vida cultural e literária europeia e para perceber, como poucos no seu tempo, os rumos e os desafios que essa vida cultural colocava.
Lembro que foi durante a composição d’Os Maias que Eça escreveu alguns dos seus mais significativos textos doutrinários: por exemplo, em 1884, a carta-prefácio d’O Mandarim, destinada a uma edição francesa da novela mas só publicada em edições póstumas; o prefácio d’O Brasileiro Soares, de Luís de Magalhães, em 1886; e sobretudo, no mesmo ano, o admirável prólogo dos Azulejos do Conde de Arnoso, texto de arguta e elegante reflexão acerca da pertinência estética do naturalismo, da sua receção portuguesa, do alargamento do mercado de bens culturais (assim mesmo, como um Bourdieu avant la lettre), das mutações técnicas que alteraram a relação entre o escritor e o público e do potencial de transcendência e de sobrevivência das grandes obras artísticas.

(Excerto de “Reler Os Maias: alguns tópicos”, em Jornal de Letras, Artes e Ideias, 1117, 23 de julho de 2013)

“Os Maias” depois de Eça

Os Maias depois de Eça

Centro-me num romance, Os Maias de Eça de Queirós, e num recente prolongamento da sua vida enquanto obra literária escrita e publicada em 1888. A questão prévia é esta: com essa publicação ficou o genial romance de Eça definitivamente “fechado” nas páginas daquela edição em dois volumes? Noutros termos: o que (e porquê) contribuiu para que Os Maias tivessem permanecido, até hoje e por muito tempo mais, como relato ativo e presente na nossa vida cultural? Como ganhou o romance a vida que tem e terá? Estas interrogações acham-se sintetizadas numa pergunta que parafraseia um título de Saramago, a partir de uma fala atribuída a Camões (também ele autor de um livro que, perdoe-se a expressão, tinha muito futuro…). A pergunta: que temos feito com este livro?
O que temos feito com Os Maias é bem sabido: edições e reedições, leituras críticas, estudos de história e de sociologia literária, ensino nas escolas e nas universidades, interpretações iconográficas, versões televisivas, adaptações teatrais, etc. De tudo isso e por tudo isso Os Maias ganharam uma intensa sobrevida, muitas vezes trivializada quando, em termos redutores, falamos da atualidade do romance. Digo trivializada para me reportar a leituras de fôlego curto, aquelas que têm da atualidade da obra uma noção meramente projetiva, traduzida na tentativa de encontrar semelhanças comportamentais e mentais entre figuras e eventos de um grande romance e figuras e eventos da nossa realidade atual. Não é essa a atualidade que contribui para que uma obra literária transcenda o seu tempo, na aceção mais exigente do termo, mas não é disso que me ocupo agora.
A continuação d’Os Maias por seis escritores que aceitaram o repto de prolongar no século XX personagens e ações saídas do romance – merece ponderação. E merece-a, antes de mais, a partir de uma bem forte convicção que há muito tempo assumi: Os Maias parecem ter sido escritos para serem continuados.
Eça deu sinais discretos de que haveria alternativas para o desenrolar da ação. Um exemplo: no segundo capítulo, conta-se um acidente de caça em que Pedro da Maia fere Tancredo, exilado italiano que virá a fugir com Maria Monforte; é perante esta que Pedro, em momento de grande consternação, desabafa: “Isto só a mim, Senhor! E então o Alencar, que ia mesmo ao pé dele… Podia antes ter ferido o Alencar, um rapaz íntimo, de confiança! Até a gente se ria. Mas não, zás, logo o outro, o de cerimónia…” Deixo de lado o que Alencar pensaria da “amigável” hipótese assim aventada e digo: expressamente, coloca-se a hipótese de um outro curso dos acontecimentos (e não comento também o que há de simbólico na má pontaria de Pedro…): se o ferido fosse Alencar, haveria adultério, fuga e incesto? Nunca o saberemos, até que alguém, com talento e ousadia, decida retomar Os Maias a partir daquele tiro desajeitado, corrigindo duas trajetórias, a da bala e a da história.
Seria isto uma ofensa ao grande romance de Eça? Certamente, mas só para quem confundir canonização (e Os Maias são, de facto, uma obra do cânone) com sacralização. Continuar Os Maias, num outro tempo e com autoria determinada, não é ofender a memória de Eça, nem desrespeitar o seu legado, mas antes uma forma de o homenagear, sempre que se trate não de uma mera imitação, mas de uma resposta a desafios e a interrogações que o romance encerra. De resto, foi isso que o próprio Eça tratou de fazer, ainda que em registos próprios – que eram os do seu tempo, um tempo que não conhecia as derrogações pós-modernistas que vieram mais tarde… Explico-me: depois do regresso a Lisboa, em 1887 e já no final do relato, Carlos da Maia ganhou uma sobrevida, consubstanciada num outro Carlos, o Fradique Mendes que, sem ser exatamente uma personagem de romance, acentua os traços que o protagonista d’Os Maias exibe no seu passeio por Lisboa (foi António José Saraiva quem há muito o notou).
De modo que, como dizia uma personagem d’O Crime do Padre Amaro, nada de sustos. A vida d’Os Maias não é, restritivamente, a das figuras que atravessam a sua história, que nela nascem, vivem, amam e um dia morrem (se é que morrem: não acontece assim com Carlos, Ega ou Maria Eduarda); a vida d’Os Maias é a que soubermos incutir a um extraordinário romance, em diferentes modos e discursos eventualmente derivados dele, conscientes como devemos estar de que uma grande obra literária nunca está acabada.

(Excerto de texto publicado em Expresso/Atual, 27 de julho de 2013, pp. 34-35)

Eça dramaturgo falhado

Ms. 233 do Espólio de Eça

Ms. 233 do Espólio de Eça

Numa entrevista concedida em 1945, a propósito da adaptação teatral d’Os Maias, José Bruno Carreiro referiu-se às dificuldades que teve que superar para levar a cabo a dita adaptação (cf. J. Bruno Carreiro, Os Maias. Adaptação teatral do original de Eça de Queirós, edição de 1984 pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda). Por exemplo: a eliminação de “muitas cenas, com grande interesse” e a necessidade de o trabalho dramatúrgico se concentrar no “drama Carlos-Maria Eduarda” e no “indispensável para criar o ambiente em que se desencadeia esse drama” (pp. 25-27).
Bruno Carreiro certamente ignorava que Eça passara por constrangimentos semelhantes, uma vez que, tendo tentado uma adaptação do seu romance, acabou por desistir da empresa. Sabemo-lo porque no espólio queirosiano que se guarda na Biblioteca Nacional existe um manuscrito (Esp. E1/233) que resultou dessa tentativa abortada. Trata-se da planificação de dois atos, esboçada pelo escritor supostamente antes de avançar para a escrita do texto dramático propriamente dito e não chegando a contemplar eventos e figuras cruciais da ação d’Os Maias. Anunciado no elenco de personagens, Afonso da Maia não reaparece no manuscrito; por outro lado, a intriga do incesto encontra-se longe do seu desenlace, quando se atinge o final do segundo dos dois atos planificados..
Parece claro, quando lemos este manuscrito, que Eça se preocupou sobretudo em fixar nele os elementos fundamentais que a escrita dramática deveria trabalhar: o elenco de personagens, a matéria dos atos, os cenários, com pormenores como a iluminação e a música. Tudo isto escrito aparentemente de um jato e já depois de publicados Os Maias: há no manuscrito frequentes remissões para as páginas do romance – sintomaticamente, aquelas em que abunda o diálogo –, o que sugere que a dramatização seguiria de perto o desenvolvimento do relato.
Com exceção de um fragmento de cena já composta e que na arrumação do espólio foi integrada neste manuscrito 233, nada mais se conhece deste impulso queirosiano para a escrita destinada ao teatro, em adaptação do que fora concebido como narrativa. Mas são bem evidentes as potencialidades dramáticas dos relatos queirosianos, com destaque precisamente para Os Maias. Para só dar um exemplo, lembre-se a cena de revelação do incesto, no capítulo XVII, envolvendo Carlos da Maia, João da Ega e Vilaça – que no momento mais tenso do diálogo procura o chapéu que se sumira… Num outro plano, é conhecida uma carta de Eça a Augusto Fábregas (autor da adaptação teatral d’O Crime do Padre Amaro) em que expressamente é dito: “O único dos meus livros que sempre se me afigurou próprio a dar um drama patético, de fortes carateres, de situações morais altamente comoventes, é o meu romance «Os Maias»” (carta de 6 de maio de 1890).
Pelo que toca à escrita queirosiana, o romance Os Maias ficou como era: um grande e admirável romance. Aparentemente, Eça não foi capaz de concentrar, numa ação dramática inevitavelmente redutora, vastíssimos cenários e lapsos temporais alargados, forçando-se a supressões difíceis de aceitar. O nível de exigência artística do grande romancista era, como ele disse em carta de 20 de fevereiro de 1881 a Ramalho Ortigão, o de quem, em modo narrativo e não dramático, originalmente desejara uma obra “em que (…) pusesse tudo o que [tinha] no saco”.

O insólito n’Os Maias

João da Ega por Wladimiro A. de Souza

João da Ega por Wladimiro A. de Souza

Num passo d’Os Maias de Eça de Queirós, quando a ação do romance se vai aproximando do seu desenlace trágico, uma das personagens mais próximas do protagonista (de facto, o seu amigo e confidente) formula uma reflexão que bem introduz o tema que me interessa analisar, em conexão direta com a personagem, com as suas perceções e com os seus juízos. Trata-se de João da Ega, inopinadamente confrontado com uma verdade terrível: Carlos da Maia é irmão de Maria Eduarda, a mulher por quem se apaixonou e com quem mantém uma ligação amorosa. Tal como na tragédia antiga, a notícia do incesto foi trazida por um mensageiro de circunstância, que, no caso, nem se apercebeu da catástrofe familiar que estava a desencadear, com essa notícia anunciada com singeleza e sem propósito doloso.

É então que João da Ega, imerso em comoção e perplexidade, reflete sobre o absurdo de uma tal situação: “Era acaso verosímil que tal se passasse, com um amigo seu, numa rua de Lisboa, numa casa alugada à mãe Cruges?… Não podia ser! Esses horrores só se produziam na confusão social, no tumulto da Meia Idade! Mas numa sociedade burguesa, bem policiada, bem escriturada, garantida por tantas leis, documentada por tantos papéis, com tanto registo de batismo, com tanta certidão de casamento, não podia ser! Não! não estava no feitio da vida contemporânea que duas crianças, separadas por uma loucura da mãe, depois de dormirem um instante no mesmo berço, cresçam em terras distantes, se eduquem, descrevam as parábolas remotas dos seus destinos – para quê? Para virem tornar a dormir juntas no mesmo ponto, num leito de concubinagem! Não era possível.” (Os Maias, cap. XVI).

Aquilo que deixa João da Ega confuso e revoltado tem, como já se percebeu, a feição do insólito. Ou seja: trata-se de algo que vem corroer uma “normalidade” e uma verosimilhança que nada parecia capaz de abalar: o “feitio da vida contemporânea” e a “sociedade burguesa, bem policiada, bem escriturada, garantida por tantas leis” são incompatíveis com a subversão de uma ordem que o tempo do racionalismo positivista reforçava, como crença e como filosofia de vida aparentemente inatacáveis.

É isto que quero desde já sublinhar: há um insólito modelado pela ficção a que chamamos realista e de base verosímil, insólito que se manifesta como tal não em si mesmo ou só por si mas contra uma lógica que nada parece capaz de abalar. Nessa lógica ressoa uma certa historicidade e o timbre de um contexto particular, em função dos quais se decide o insólito e se ponderam os seus efeitos; como se, naquele tempo de “normalidade” socialmente controlada, não houvesse para o insólito outro lugar que não fosse o das ficções ousadas. Diz-se no texto, logo depois: “Tais coisas pertencem só aos livros, onde vêm, como invenções subtis da arte, para dar à alma humana um terror novo…” Recordo que quem isto sugere é João da Ega, uma personagem de ficção que, com inocente naturalidade, ignora que é, ele também, parte de uma invenção da arte.

Alargo o âmbito destas considerações e acentuo a questão da historicidade, apontando para a dimensão contextual das Vertentes do Insólitorepresentações do insólito. De forma mais explícita e um tanto redutora: não há, nos textos literários, um insólito em absoluto ou em abstrato, ou seja, fora de contexto; há um insólito (ou até vários insólitos) que os românticos elaboram no quadro mental e cultural do romantismo, como há um insólito barroco, um insólito realista, um insólito surrealista, um insólito pós-modernista e assim por diante. O que, evidentemente, conta com a aceitação dos princípios da periodização literária, entendida como resultado de “reconstrucciones experimentadas del pasado [que] son «ficciones de verdad» gramaticales y textuales”, diz George Steiner em Presencias reales (1991, pp. 202-203), enquadrando e organizando discursivamente o nosso “diálogo com o passado e o de uns com os outros acerca do passado”, palavras de David Perkins (Is Literary History Possible?, 1992, p. 14).

        (C. Reis, “Figurações do insólito em contexto ficcional”, in Flavio García e M. Cristina Batalha (orgs.), Vertentes teóricas e ficcionais do Insólito. Rio de Janeiro: Caetés, 2012; (ler texto integral).

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