Eça entre a pintura e o cinema

Eça de Queirós não esperou por Zola para, em 1871, na conferência do Casino, fundamentar na pintura as suas teses em favor do realismo literário e do romance como seu género maior, contra a estética do romantismo. No caso, terá falado de Courbet contra Jacques-Louis David, reportando-se a quadros que, certamente, não conhecia de visu. Depois disso, num texto apenas esboçado e parcialmente publicado, Eça voltou à pintura para de novo ilustrar a oposição entre romantismo e realismo:  o romancista deveria agir como o pintor realista, fundando-se na observação e no estudo das coisas e das figuras a representar. E assim, quando se trata de descrever a “menina Virgínia que mora ali  defronte”,  o romancista realista faz isto: em vez de a imaginar, vai vê-la: “Vai ver Virgínia, estuda-lhe a figura, os modos, a voz: – examina qual foi a sua educação; estuda o meio em que ela vive, as influências que a envolvem: que livros lê, que gostos tem. E dá-nos enfim uma Virgínia que não é Cordélia, nem Ofélia, nem Sto. Agostinho, nem Clara de Borgonha, – mas que é a burguesa da baixa, em Lisboa, no ano da Graça de 1879.”

Estamos aqui no domínio da doutrina meta-artística, é certo, e não ainda no da prática narrativa e literária. Não custa, todavia, admitir que de uma se transita para a outra, com fundamento intermediático e com potencial interdisciplinar, designadamente quando lemos num romance a função protonarrativa atribuída a imagens pintadas. Apenas um exemplo, de novo queirosiano e na continuidade do que foi a estreita convivência do grande escritor com o mundo das artes plásticas e, em particular, com o da pintura. N’Os Maias, há um retrato que não passa despercebido: o da condessa de Runa, bisavó de Carlos e de Maria Eduarda, atribuído, no romance, a John Constable. Esse quadro aparece na história três vezes e ajuda a contar a tragédia da família.   A sua funcionalidade narrativa fica, contudo, por cumprir, se, na instância da leitura, não o associarmos a indícios que no romance  vão sendo acumulados. Noutros termos: só por si, a pintura não narra, apenas reforça uma narrativa predisposta a colher dela uma difusa sugestão de narratividade.

Vejamos como se dá a última aparição da condessa de Runa, em forma de retrato (o mesmo e de certa forma já outro) e como ele colabora com o relato. É num momento epilogal do romance que isso acontece, quando Carlos e Ega visitam o Ramalhete quase em ruínas; no meio delas, reaparece o retrato: “E no chão, na tela de Constable, encostada à parede, a condessa de Runa, erguendo o seu vestido escarlate de caçadora inglesa, parecia ir dar um passo, sair do caixilho dourado, para partir também, consumar a dispersão da sua raça… “.

Como se sabe, o epílogo da trágica história dos Maias corresponde à extinção da família, sugerida agora pelo movimento da figura pintada que quer partir para “consumar a dispersão da sua raça”. Parece claro que esse movimento é induzido pelos olhares cúmplices de quem vê, ou seja, o de Carlos e o de João da Ega. Como efeito deles, opera-se, intermediaticamente, uma translação que aponta já para outra arte, ainda por aparecer; aquele passo que a figura pintada aparenta querer dar, ao fazer menção de “sair do caixilho dourado”, anuncia uma representação da imagem em que o movimento é decisivo: o cinema que Eça não conhecia, mas que lhe era necessário e, naquele contexto, justificado.

(“Interdisciplinaridade e estudos narrativos”; extrato da conferência de abertura do 13º ENAPP, Leiria, 12 e 13 de abril de 2019; programa aqui)

Portrait of Elisabeth, Lady Croft, por Constable.

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Os Maias: entrevista

Carlos Reis defende o respeito editorial pela edição crítica d’Os Maias, de que foi coautor, mas também a necessidade de dar uma sobrevida às personagens do romance, readaptando-o a novos meios. Eça, o grande sátiro, legou-nos uma obra genial que dispensa abordagens morais, mas exige admiração estética e reconhecimento oficial condigno.

Quando é que leu Os Maias pela primeira vez?

Na minha casa praticamente não havia livros, a não ser os escolares. Pelos meus 14 anos, já tinha lido A Cidade e as Serras e A Capital, escolhidos por instinto na biblioteca da Gulbenkian em Angra do Heroísmo. Aos 15 anos decidi escrever um romance em que dois irmãos, separados por qualquer razão acidental da vida se reencontravam, se apaixonavam e tinham uma relação amorosa. Naquela época, evidentemente, eu não conhecia o conceito de incesto. Então, pensei que aquela história de um amor entre irmãos era absurda, da ordem do fantástico, impossível por qualquer razão divina ou fisiológica. Pelos meus 18 anos, nas férias do Natal de 1968, em casa de uns tios que tinham alguns livros, fui ler Os Maias. Ai pela página cem, já sabia o que ia acontecer. Ora, ali estava o romance que eu quisera escrever. Isto foi uma coisa magnífica: não só porque me deu a noção de uma certa intuição literária, mas também porque me retirou completamente as ilusões de vir a ser romancista.

A componente passional foi o que mais o impressionou no romance?

Sim, por ser trágica: a questão do incesto, do amor impossível, da separação dos amantes. Depois, em sucessivas leituras, fui dando mais atenção a toda a componente social, típica, do estilo, da graça e da caricatura, em que Os Maias são absolutamente geniais. Recentemente, fiz uma releitura para a edição critica que preparei com a minha colega, Maria do Rosário Cunha [IN-CM, 2o17]. Tivemos de ler a terceira prova no lapso de quatro dias; ela ficou com a primeira parte do romance, eu mergulhei na segunda. Li concentradissimamente e, pela enésima vez, comovi-me. E pensei: «Como é possível estar a comover-me com uma coisa que já trabalhei tantas vezes?» Comovi-me pela densidade humana e pela forma superior, elegante, contida, com que o Eça trata uma história tão trágica, que, nas mãos de outro romancista, seria de faca e alguidar.

Por que motivo Eça recorre ao esquema clássico da tragédia?

Temos de pôr isso num contexto já de desgaste da crença positivista e naturalista. Note-se o episódio em que, no Largo do Pelourinho, o Sr. Guimarães diz a João da Ega, antes de subir para ir buscar o cofre com papéis importantes que lhe fora dado pela Monforte: «Eu junto-lhe então um bilhete e V.Ex.ª entrega-o da minha parte ao Carlos da Maia, ou à irmã». Perante o espanto do interlocutor, refere-lhe que vira há dias, por acaso, João da  Ega, Carlos da Maia e Maria Eduarda numa caleche, no Cais do Sodré. Pensara que os dois últimos estavam ali como irmãos, não podia adivinhar que estivessem ali como amantes. Depois, enquanto o Sr. Guimarães corre acima a buscar os papéis, o Ega fica solitário a pensar que, num século onde tudo e tão organizado, não podia ser que duas crianças se desencontrassem na vida e depois se reencontrassem… [«Esses horrores só se produziam na confusão social, no tumulto da Meia-Idade! Mas numa sociedade burguesa, bem policiada, bem escriturada, garantida por tantas leis, documentada por tantos papéis, com tanto registo de batismo, com tanta certidão de casamento, não podia ser»] E este «não podia ser» é, de facto, o que há de mais trágico nesta história. É a posição de um Eça cada vez mais convencido de que a ciência não chega e de que há forças superiores e algo em que eu, pessoalmente, cada vez mais acredito: a intervenção do acaso nas nossas vidas. Carlos é sobretudo um herói que tinha tudo para ser uma figura excecional, mas a quem o destino mostra que ninguém está ao abrigo do trágico. Como se sabe desde a Antiguidade, os deuses têm inveja de quem é feliz ou superior, entendem isso como uma espécie de ousadia que é preciso reprimir.

(Entrevista de Filipa Melo. Fotografia Pedro Loureiro. Ler. Livros & Autores, 151, outono 2018, pp. 54-64. Ler entrevista integral)

Os Maias como nunca os leu

Muito antes da divulgação tecnológica do efeito immersive world, já havia romances que constituem verdadeiros mundos, em que o leitor mergulha e deseja habitar para sempre. A melhor narrativa portuguesa de todos os tempos, Os Maias, obra máxima de Eça de Queirós, é um desses livros.

Romance da Lisboa oitocentista, entre o êxtase amoroso e a sordidez, este livro é perigoso: nunca nos curamos dele. Venenoso e envolvente, é preciso ler Os Maias em toda a sua fidedignidade e doloroso esplendor. A sua recente edição crítica, a cargo de Carlos Reis e Maria do Rosário Cunha (Eça de Queirós, Os Maias. Episódios da Vida Romântica, edição de Carlos Reis e Maria do Rosário Cunha, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2017) enfim restituir-lhe a mais fiável inteireza textual, assim como reconstituir a sua história genética, editorial e genológica.

Dessa história apresenta a “Introdução” uma rigorosa síntese. A gestação conturbada d’Os Maias arrastou-se por dez anos, desde o projeto nebuloso, gizado por Eça em 1877-1878, seguido pelo penoso percurso da sua escrita e composição (agravado por tipógrafos “canalhas” e uma mudança desesperada de editora), até à acidentada publicação dos dois volumes do romance, em 1888. No decurso desse processo, têm os editores o cuidado de renovar os argumentos que, em devido tempo, exararam quanto à publicação do melodramático “protorromance” A Tragédia da Rua das Flores,  obra desequilibrada que integra a história da gestação d’Os Maias, e que o autor abandonou. De facto, o tema fulcral do incesto, assunto de extrema gravidade e comum a ambas as narrativas, é sobriamente tratado n’Os Maias, “com tanta reserva e numa meia-tinta tão severa, que não choca”, tal como Eça desde cedo asseverou.

Ana Luísa Vilela, “Os Maias como nunca os leu”, in Suroeste. Revista de Literaturas Ibéricas, nº 8, Badajoz, 2018, pp. 229-230. (continuar a ler)

Os Maias em entrevista

A entrevista com o Prof. Carlos Reis deu-se na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, em 11 de junho de 2014, no âmbito das atividades realizadas no primeiro semestre, quando atuou como professor-visitante, bolsa Escola de Altos Estudos (CAPES).

Entrevistaram-no alunos da turma de formandos em Português-Literaturas em Língua Portuguesa do turno da manhã, na disciplina Literatura Portuguesa VI, curso monográfico sobre o romance Os Maias (1888). Ao longo das quinze perguntas e respostas, que compõem esta entrevista sobre Os Maias, são abordados assuntos como: a importância do contexto histórico, dos protocolos de descrição e da multiplicidade de perspetivas adotadas pelo narrador; a função dos retratos na construção das personagens; o anticlericalismo de Eça de Queirós; as personagens femininas do romance; a versão para a televisão brasileira; os problemas das edições disponíveis e a necessidade de uma edição crítica (já em curso); os dois modelos de educação, que se contrapõem no romance; a sua longa gestação e a relação com as obras que foram publicadas durante o tempo em que foi escrito; a fratura do sujeito em Carlos da Maia; as semelhanças entre este personagem e outro Carlos queirosiano, o da  Correspondência de  Fradique  Mendes;  e,  por  fim,  os  sentidos  da  exploração  de  aspectos  linguísticos na construção do personagem brasileiro, bem como as contradições resultantes  desse processo.

Ler a entrevista aqui.

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Prova tipográfica d’Os Maias emendada por Eça

 

Educação literária: Os Maias

O trabalho que agora se publica tem um propósito definido e visa destinatários específicos.  O propósito: motivar e auxiliar a leitura d’Os Maias (e não substituí-la), naqueles aspetos em que isso é possível. Os destinatários: os alunos de Português do 11º ano do Ensino Secundário, em cujo programa aquele grande romance de Eça de Queirós aparece  como uma das obras de leitura integral.

É  sabido que a primeira dificuldade com que nos defrontamos, quando temos de  ler Os Maias, é a sua extensão. Trata-se, de facto, de um relato longo, trazendo até nós muitas personagens, diversos espaços, descrições pormenorizadas, expressões que, nalguns casos, podem não ser muito acessíveis. Para além disso, os costumes e os comportamentos do século XIX em que se passa a ação d’Os Maias estão já distantes de nós, embora não tanto como no caso de outros textos e autores de séculos anteriores, também do programa de Português.

E contudo, vale a pena tentarmos perceber em que medida alguns dos principais sentidos que encontramos n’Os Maias são capazes de nos alertar para temas e para problemas do nosso tempo. Por exemplo: a questão da educação e os seus reflexos na formação da pessoa adulta, a ilusão dos projetos concebidos e a desilusão causada pelo seu falhanço, os limites da nossa capacidade para decidirmos o nosso destino, a passagem do tempo e os seus efeitos, a importância que certos espaços têm nas nossas vidas, etc. A  atualidade de Eça e d’Os Maias percebe-se também quando observamos, no nosso tempo, comportamentos e figuras semelhantes ao que ali se nos depara: a ostentação, a mediocridade mal disfarçada, o culto das aparências, a vaidade, a ambição e as fraquezas do poder político, a ociosidade e os seus efeitos, a prática e os vícios do jornalismo, etc. É sobretudo nas personagens  que aquela atualidade se torna flagrante; por essa  razão,  a galeria dos tipos que povoam o romance pode ser considerada das mais ricas da nossa literatura.  (…)

Por fim, um desafio: mesmo quem acha que Os Maias são um relato não apenas longo, mas também lento e maçador (é mesmo verdade:  a descrição do Ramalhete é extensa…) deve fazer um esforço para ler o romance. Um esforço, repete-se. Como é bem sabido, sem isso não conseguimos resolver problemas difíceis, entender fenómenos históricos complexos ou  movimentos filosóficos de agora e de outras épocas. O mesmo  acontece com a leitura d’Os Maias. O que não parece certo é desistir antes de começar ou dizer que se não gosta daquilo que nem sequer se tentou conhecer, sobretudo quando a obra que aqui está em causa  revela o talento de escrita, a perspicácia crítica, a ironia e por vezes o humor de um grande escritor chamado Eça de Queirós.

(Extrato de “Nota Prévia” a Os Maias. Eça de Queirós. Coleção “Educação Literária. Leituras Orientadas”. Porto: Porto Editora, 2016, pp. 6-8).

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Os Maias no cinema

Algum tempo depois de publicar Os Maias, Eça de Queirós tentou escrever uma versão teatral do seu romance. Disso existe o testemunho  deixado por manuscritos  que se encontram no espólio do escritor; neles encontra-se  uma planificação de dois atos, mais o desenvolvimento de uma cena, com diálogos, efeitos musicais e de luzes, elenco de personagens e notações para cenários.

Eça não levou adiante este projeto, por razões que não são conhecidas, mas que podemos conjeturar. Por exemplo: aquele romance tem uma dimensão e uma complexidade que não são compatíveis com as reduções – de tempo, de espaço, de elenco de personagens, etc. – a que a reescrita para palco obrigava.

Há, entre outros, dois aspetos da construção romanesca d’Os Maias que não podem ser ignorados por nenhuma nova versão, noutro medium e para diferente público (entenda-se: um público espectador e não leitor). Assim:

  • O tempo d’Os Maias é extenso e multiforme, por vezes tão “arrastado” como a vida social que no relato se ilustra. Essa temporalidade desenvolve-se  em  diálogos que mimetizam aquela vida social, com as falas, com as pausas e com os gestos próprios de jantares e de serões, de ceias e de saraus. Entre essas “cenas” o tempo não se detém: vai corroendo existências e tecendo destinos. Este outro tempo, tão invisível como insidioso, não pode ser abolido do relato nem do destino de uma família que se vai extinguindo à medida que o século avança. Uma versão outra d’Os Maias, no cinema, na televisão ou no teatro (todas elas foram já tentadas) não pode ignorar este tempo omnipresente.
  • O tempo d’Os Maias é vivido por personagens. As rugas e os cabelos brancos que nelas vão surgindo expressam o devir de existências com uma  dimensão histórica, cultural, familiar e social. Não é indiferente que algumas personagens sobrevivam ao longo de décadas, enquanto outras desaparecem ou aparecem apenas por momentos. Por exemplo: Tomás de Alencar. Ele está na juventude de Pedro da Maia, reaparece no tempo de Carlos da Maia e sobrevive ainda no capítulo epilogal do romance, já em 1887. Retirá-lo de um destes tempos é ignorar que Alencar é, afinal de contas, uma das grandes personagens d’Os Maias; e que nele está emblematizada uma entidade obsessiva e inescapável: chama-se romantismo essa entidade e o subtítulo do romance é muito claro a este propósito: “Episódios da vida romântica”.

São estas algumas das questões suscitadas pela versão cinematográfica d’Os Maias, realizada por João Botelho. Depois de se ver o filme (quem isto escreve acaba de assistir à ante-estreia) entra-se inevitavelmente num desafio de “confrontação” que envolve a leitura prévia do romance e os componentes que ficaram mencionados; um desafio que  convida também a dialogar com tentativas similares, como é o caso da versão para televisão, por Maria Adelaide Amaral e Luís Fernando Carvalho, produzida pela Globo há alguns anos.

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No vão do arco…

No vão do arco, como dentro de uma pesada moldura de pedra, brilhava, à luz rica da tarde, um quadro maravilhoso, de uma composição quase fantástica, como a ilustração de uma bela lenda de cavalaria e de amor. Era no primeiro plano o terreiro, deserto e verdejando, todo salpicado de botões amarelos; ao fundo, o renque cerrado de antigas árvores, com hera nos troncos, fazendo ao longo da grade uma muralha de folhagem reluzente; e emergindo abruptamente dessa copada linha de bosque assoalhado, subia no pleno resplendor do dia, destacando vigorosamente num relevo nítido sobre o fundo do céu azul-claro, o cume airoso da serra, toda cor de violeta-escura, coroada pelo Palácio da Pena, romântico e solitário no alto, com o seu parque sombrio aos pés, a torre esbelta perdida no ar, e as cúpulas brilhando ao Sol como se fossem feitas de ouro…

Eça de Queirós, Os Maias, cap. VIII

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Introdução à leitura d’Os Maias

 Introdução à leitura d'Os Maias         A publicação da Introdução à leitura d’Os Maias, com o propósito que agora a suscita, permite levar até a um público consideravelmente alargado uma monografia cuja primeira motivação foi de ordem pedagógica. Escrito há mais de trinta anos – e, por isso mesmo, não podendo isentar-se das marcas de estilo e do ambiente escolar de então –, este livro conheceu, por parte do público, um acolhimento  que, na época, tinha a sua razão de ser. Estudantes e professores de Português que liam Os Maias como texto “obrigatório” (expressão que sempre me causou algum desconforto) careciam de instrumentos  que apoiassem o estudo de um romance tão genial como complexo e extenso. Foi isso que este livro quis ser e não mais do que isso: um auxiliar de estudo.

            A reedição que agora se leva a cabo não anda longe desse intuito. Com efeito, a leitura ou a releitura d’Os Maias, mesmo que  fora do ambiente escolar, pelo puro gosto do encontro ou do reencontro com uma obra-prima, pode ser favorecida  por análises  como as que aqui se encontram. De modo algum elas substituem, contudo, o encantamento e a sedução que a presença real (para usar uma expressão famosa) d’Os Maias constitui, na vida dos que amam a literatura, fazem da leitura uma sempre renovada  descoberta  e reconhecem em Eça de Queirós o extraordinário escritor  que ele foi e é. E também o arguto conhecedor da sociedade portuguesa, dos seus defeitos e das suas ilusões, num estilo que ninguém, antes ou depois dele, foi capaz de imitar.

Muito tempo depois da sua redação original, este livro foi agora revisto. Tratou-se, antes de mais, de o ajustar ao projeto editorial em que ele se integra; mas tratou-se também de aligeirar o seu aparato académico e, tanto quanto possível, de adequar o seu texto, do ponto de vista estilístico, ao que serão as expectativas do leitor de agora. Tudo isto com a crença de que, quaisquer que sejam os roteiros de análise propostos, nunca se esgotará o potencial de surpresa e de novidade que um grande romance como Os Maias nos oferece.

(Nota Prévia)

“Os Maias” na televisão

os maias Globo            O projeto da minissérie Os Maias teve início em 1997, quando a Rede Globo convidou a novelista Glória Perez para assinar o roteiro, e Wolf Maya, a direção. A minissérie teria dezesseis capítulos, seria toda gravada em Portugal, teria Paulo Autran como Afonso da Maia e estava prevista para ser exibida a partir de janeiro de 2000. No entanto, em março de 1999, depois de trabalhar no remake da novela Pecado Capital, Glória Perez não pôde participar do projeto de Os Maias.

Então, em 2000, após o sucesso de A Muralha, a emissora escolhe Maria Adelaide Amaral para elaborar o roteiro e Daniel Filho para a direção, que posteriormente foi substituído por Luiz Fernando Carvalho. E, para colaborar com Maria Adelaide Amaral nesta elaboração do roteiro, foram convidados Vincent Villari e João Emanuel Carneiro, a mesma equipe do sucesso A Muralha. Após análise do romance, a equipe decidiu construir a minissérie a partir de três romances de Eça de Queirós: Os Maias, A Relíquia e A Capital, já que a minissérie deveria ter 44 capítulos. Nesse caso, a equipe buscou na obra de Eça de Queirós subsídios para ampliação dos capítulos.

A pesquisa para a elaboração do roteiro contou com o exame e a consulta da obra ficcional do autor de Os Maias, as correspondências, ensaios, artigos publicados em jornais, projetos de textos inéditos fornecidos pelo professor Carlos Reis e também fotografias do escritor. Dessa forma é que os roteiristas chegaram à construção de cenas e diálogos que apresentassem o mesmo tom da literatura de Eça de Queirós. As escolhas dos romances do escritor português, as inserções de textos não narrativos e não verbais, bem como de outras fontes, para que a minissérie fosse elaborada, culminaram em um complexo processo de construção do roteiro da minissérie.

No trabalho de composição, os roteiristas sentiram a necessidade de aproximar o texto queirosiano ao espectador brasileiro. Com isso, as adaptações foram conduzidas para que houvesse a compreensão da narrativa e que pudessem ser atendidos os influxos da mídia televisiva.

A roteirista-autora esteve atenta aos cuidados com a realização deste trabalho, conduzindo-se de forma respeitosa com o texto do escritor português e as estratégias utilizadas para atender aos anseios da teledramaturgia. O embate entre o “fazer dramaturgia” e a preocupação com a aproximação ao texto literário, além da preocupação em imprimir suas marcas no texto, causaram reação diversa na crítica, que antevia a reação de queirosianos acerca da inserção de outros textos do autor e dos recursos melodramáticos utilizados na versão para a TV.

Em 2004, o DVD Os Maias (versão do diretor) foi lançado pela Globo Vídeo, com a edição de Luiz Fernando Carvalho, que suprimiu os trechos da narrativa audiovisual que fazem referência aos romances A Relíquia e A Capital!.

O lançamento do DVD também possibilitou a abertura de espaços para a discussão de outras obras dos realizadores de Os Maias e comparações entre os seus trabalhos, além da discussão acerca da obra de Eça de Queirós. Nas redes sociais e blogues, a discussão acerca da afinidade entre o texto literário e o texto televisivo continua ocorrendo, especialmente no que diz respeito ao material do DVD. De março a maio de 2012, o Canal Viva (da Rede Globo) reapresentou a minissérie, o que trouxe à agenda brasileira de fãs, o retorno das participações nos grupos de discussão.

A análise da minissérie Os Maias nos faz crer que essa produção constitui-se em um cuidadoso trabalho de adaptação. O atendimento aos “influxos televisivos” de que fala Maria Adelaide Amaral não impede que a minissérie seja um dos melhores produtos da televisão brasileira.

 Excerto de «“Os Maias” na televisão brasileira», por Kyldes Batista Vicente, em Jornal de Letras, Artes e Ideias, 1117, 23.7.2013

Selton Melo como João da Ega

Selton Melo como João da Ega

 

Reler “Os Maias”

capa-7516Das minhas releituras d’Os Maias retive algumas revelações curiosas. Como quem diz: fui reajustando imagens, refigurando personagens, descobrindo minudências aparentemente irrelevantes, dessas que me permitiram, há alguns anos, falar numa estética do pormenor que n’Os Maias se ilustra. Por exemplo: aquele “bando de pardais [que] veio gralhar um momento nos ramos de uma alta árvore que roçava a varanda”, no amargo episódio em que Afonso da Maia se acha na solidão decorrente da rutura com Pedro. A presença de Vilaça pai é ali meramente funcional (é ele quem traz a notícia do casamento de Pedro); não assim com aquele bando de pardais, que, por contraste, tornam mais denso e sombrio o episódio de que falo. E sobretudo dão o testemunho de um outro realismo, aquele que não prescinde de pormenores que dão do real representado uma imagem multímoda e plural, refugindo ao esquematismo de um programa estético pré-determinado. Ou seja: num texto de Eça nada está por acaso.
Dentre todas as revelações de que falei não esqueço nem esquecerei aquela a que fui conduzido por uma certa releitura d’Os Maias. Refiro-me à imagem reelaborada da grande personagem que é Afonso da Maia – porque, além do mais, Eça foi também um grande autor de personagens. Durante algum tempo, Afonso foi, para mim, uma figura imponente e fisicamente impressiva; e “lembrava, como dizia Carlos, um varão esforçado das idades heroicas, um D. Duarte de Meneses ou um Afonso de Albuquerque” (cap. I). Só que um pouco antes e a abrir este parágrafo, pode ler-se: “Afonso era um pouco baixo, maciço, de ombros quadrados e fortes.” Repito: “um pouco baixo”. De onde vinha, então, a imagem de grandeza que me estava gravada? Nem mais nem menos do que da derradeira aparição de Afonso, no capítulo XVII, naquele arrepiante encontro com o neto, quando ambos sabiam já da tragédia do incesto. É de madrugada, Carlos regressa de casa de Maria Eduarda, torturado pela culpa e pelo horror da desgraça que se abateu sobre a família; e quando reentra no Ramalhete, surge Afonso da Maia: “O clarão chegava, crescendo; passos lentos, pesados, pisavam surdamente o tapete; a luz surgiu – e com ela o avô em mangas de camisa, lívido, mudo, grande, espetral.”
Para se entender a aparente divergência desta figura (agora) “grande”, relativamente a quem antes era “um pouco baixo”, é preciso estar atento a duas coisas, dessas que podem escapar a uma primeira leitura. Primeira: ambas as imagens são filtradas e mesmo distorcidas pelo olhar e pelas emoções de Carlos da Maia. Segunda: a grandeza de Afonso, naquele momento decisivo em que mudamente interpela o neto – “e os dois olhos do velho, vermelhos, esgazeados, cheios de horror, caíram sobre ele, ficaram sobre ele, varando-o até às profundidades da alma, lendo lá o seu segredo” –, não é física, mas moral. É essa sua dimensão moral, aliás, que o impõe ao longo do romance como referência de valores e de comportamentos, perante a fauna de amigos e conhecidos que circulam pelo Ramalhete – incluindo quem, como Carlos, descuida o exemplo do “varão heroico” que o avô representa.
Mas as releituras d’Os Maias não são apenas (o que já seria muito) atos de reencontro e processos de reajustamento semântico de um texto longo, complexo e tecnicamente muito elaborado. São também oportunidades para lermos o eco de outras aventuras artísticas que o génio queirosiano antecipou.
Recordo que Eça trabalhou este romance durante cerca de oito anos, com avanços e recuos, desânimos e entusiasmos, num tempo que, para o escritor, foi de busca de novos rumos estéticos. Às vezes penso que nunca faremos uma ideia precisa do que era, naquela época, o esforço exigido para se levar até ao fim a redação, a cópia, o árduo trabalho de emenda (em sucessivas campanhas de escrita) e a correção de provas tipográficas de romances com esta dimensão, sejam eles Os Maias, La Regenta ou Guerra e Paz. Mais: esse exigente labor (até do ponto de vista físico: pense-se no que eram os instrumentos de escrita da época) foi acompanhado, por parte de Eça, por uma reflexão doutrinária muito lúcida e consequente. Vivendo fora de Portugal, Eça estava em boas condições para acompanhar o evoluir da vida cultural e literária europeia e para perceber, como poucos no seu tempo, os rumos e os desafios que essa vida cultural colocava.
Lembro que foi durante a composição d’Os Maias que Eça escreveu alguns dos seus mais significativos textos doutrinários: por exemplo, em 1884, a carta-prefácio d’O Mandarim, destinada a uma edição francesa da novela mas só publicada em edições póstumas; o prefácio d’O Brasileiro Soares, de Luís de Magalhães, em 1886; e sobretudo, no mesmo ano, o admirável prólogo dos Azulejos do Conde de Arnoso, texto de arguta e elegante reflexão acerca da pertinência estética do naturalismo, da sua receção portuguesa, do alargamento do mercado de bens culturais (assim mesmo, como um Bourdieu avant la lettre), das mutações técnicas que alteraram a relação entre o escritor e o público e do potencial de transcendência e de sobrevivência das grandes obras artísticas.

(Excerto de “Reler Os Maias: alguns tópicos”, em Jornal de Letras, Artes e Ideias, 1117, 23 de julho de 2013)

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