Personagens escritores

Artur Corvelo, por António

Esta tese tem por objetivo investigar a relação entre a escrita e classe social na vida de personagens de três livros de Eça de Queirós: A Capital! (começos duma carreira); Os Maias — Episódios da vida romântica e A Ilustre Casa de Ramires. Pretende-se analisar os interesses de classe que perpassam a publicação ou não das obras planejadas por Carlos da Maia, João da Ega, Gonçalo Mendes Ramires e Artur Corvelo. Assim, faz-se necessário conhecer o “campo literário” (Bourdieu, 1996) português da segunda metade do século XIX para melhor entender as influências condicionantes que pesavam sobre o escritor iniciante. Também é importante analisar historicamente a sociedade portuguesa como um todo e qual o papel que os diferentes grupos que a compunham destinavam à leitura e à escrita.

A partir daí, pode-se perceber qual o significado social de se publicar ou não e o efeito de cada tipo de publicação e género textual.  Deste modo, portanto, entende-se melhor alguns fatores que contribuem para o sucesso de Gonçalo, o fracasso de Artur e a desistência de Carlos e Ega, personagens criados dentro de uma proposta de retratar fielmente a realidade. Percebe-se, por fim, que a escrita e mesmo a não escrita podem ser pensadas como partes de uma estratégia, mais ou menos consciente, de busca por poder no âmbito da luta de classes. Isto é evidente no caso de Gonçalo, que escreve por almejar tornar-se deputado, mas também é válido para as demais personagens. Para Carlos e Ega, a não escrita era mais interessante dentro do âmbito da luta de classes que a escrita: por isso sua revista e seus livros tornam-se “impossíveis” socialmente. Para Artur, o sucesso é impossível, já que suas obras e suas estratégias para bem lançá-las são inviáveis e mesmo contraproducentes. Só Gonçalo alcança o que quer, pois só ele realiza a escrita de um modo coerente com sua posição de classe.

             (Rodrigo do Prado Bittencourt, resumo ta tese Sobre livros impossíveis: quatro personagens escritores na obra de Eça de Queirós)

 

 

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A personagem como ficção

Eça de Queirós, por António

Eça de Queirós, por António

Bem conhecidas são as personagens queirosianas. Conhecidas, analisadas, interpretadas, reinterpretadas e discutidas, ora elogiadas, ora abominadas, à luz de paradigmas diversos, complementares ou antagónicos: da história literária à psicanálise e ao estruturalismo, passando pela estilística, pela sociologia literária, pelos estudos femininos, pelos estudos pós-coloniais, pelos estudos comparados ou pelos estudos narrativos, para tudo e para algo mais têm servido as personagens de Eça. Heróis e vilões, misóginos e sexualmente ambíguos, edipianos e, quando calha, anti-edipianos, reflexo do seu tempo e desmentido do que ele foi,  românticos, tardo-românticos e pré-modernistas, assim são os seres humanos que habitam os relatos de Eça. Neste aspeto, a vasta bibliografia queirosiana tem-se alimentado gulosamente da complexidade do mundo ficcional de Eça. E, no caso em apreço, da abundância diversificada de uma ementa de carateres que desafia e às vezes assusta quem dela se aproxima: c’est l’embarras du choix!

Não vou por aí, porque, tal como muitos outros, por esse caminho já fui e por ele voltei. Quando me refiro aqui à personagem como ficção, aludo, em geral, à vocação queirosiana para inscrever a literatura nas suas narrativas e nos discursos das figuras que nelas encontramos; o que, com perdão pela invocação do óbvio, me parece ser uma forma de lançar uma ponte que vai do realismo à modernidade, na passagem do século XIX para o século XX.

De forma mais clara, reporto-me a vários aspetos deste tema tão amplo como, para mim, fascinante. Por exemplo, ao facto de personagens literárias de outros escritores comparecerem nos relatos de Eça, mencionadas pelos seus narradores ou pelas personagens queirosianas propriamente ditas. Num outro plano, o conceito de personagem emerge pontualmente na ficção de Eça, a propósito  das histórias contadas e não raro com intuito argumentativo. Para além disso,  a ficção pode ser  lida não como um “espaço” fechado, mas como um campo sem fronteiras rígidas, campo que  pode ser “invadido” por seres (por personagens) que nele penetram sem grandes restrições. Desponta aqui, naturalmente, a noção que é uma das estrelas mais brilhantes da constelação dos modernos estudos narrativos: a metalepse.

Desenho de João Abel Manta

Desenho de João Abel Manta

 

Crónica e personagem

Retomando as palavras de Eça de Queirós sobre a crónica: “A crónica é como que a conversa íntima, indolente, desleixada, do jornal com os que o leem: conta mil coisas, sem sistema, sem nexo, espalha-se livremente pela natureza, pela vida, pela literatura, pela cidade; fala das festas, dos bailes, dos teatros, dos enfeites, fala em tudo baixinho, como quando se faz um serão ao braseiro, ou como no Verão, no campo, quando o ar está triste. Ela sabe anedotas, segredos, histórias de amor, crimes terríveis; espreita, porque não lhe fica mal espreitar”.

A caracterização que Eça faz da crónica assinala as múltiplas possibilidades de olhar o mundo. Diremos mais: a definição de crónica feita RM18981226_01por Eça inscreve, de forma subtil, a entidade de maior importância em todos os factos, espaços e situações aí referidas: a personagem. Na verdade, é a personagem que fala baixinho, que sente, que anda nos bailes e nos teatros, que vive histórias de amor ou dramas terríveis. Mas antes de ser personagem, antes do autor lhe dar determinados traços que a transformam em ser de papel, ela foi pessoa, resgatada do imediato, do facto circunstancial, da realidade do quotidiano. E esta é, em boa verdade, a razão deste trabalho. A partir de um conjunto de crónicas que Eça escreveu para a Revista Moderna surge a possibilidade de explorar a personagem numa perspetiva ficcional.

A personagem que aparece nas páginas da Revista Moderna não tem o mesmo poder de observação que as personagens de outros textos ficcionais de Eça. Não esqueçamos: estas personagens são extraídas do real, surgem nas páginas de uma revista e, portanto, não foram pensadas, originariamente, como figuras de uma história ou de um enredo. A maioria das personagens dos seus romances, novelas ou contos é fruto de uma aguda reflexão, de um plano (e aqui referimo-nos ao célebre plano de cinco personagens para uma novela), de uma maturação literária, porque ao serviço de uma ideologia ou propósito social. Mesmo as personagens mais discretas têm uma missão nos seus textos, que tanto pode ser o retrato da beatice, como da “literaturinha acéfala”, como do “tédio da profissão” (da carta de Eça a Teófilo Braga, de 12 de março de 1878). Importa sublinhar que, não obstante estas diferenças, as personagens das crónicas da Revista Moderna também apresentam uma visão autoral, na medida em são um testemunho do espírito queirosiano finissecular. Cada uma delas transporta uma mensagem e uma visão subjetiva do mundo. Talvez por isso, estas crónicas apresentem características muito próximas de outras formas literárias de Eça, tal como o conto.

(Dilar Trancas, A figuração da personagem nas crónicas de Eça de Queirós. Textos de imprensa da Revista Moderna)

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