A falência da palavra realista

As datas com que usualmente balizamos os acontecimentos da historia literária revestem-se da convencionalidade relativa que é bem conhecida. E contudo, não parece excessivo tentarmos surpreender nelas algum significado, tanto do ponto de vista heurístico, como no que toca à configuração de uma história literária dinâmica. Comecemos, então, por aquilo que está à vista.

Uma das obras de referência para o estudo do modernismo europeu é consabidamente o livro de M. Bradbury e J. McFarlane (eds.), Modernism. A Guide to European Literature: 1890-1930 (London: Penguin Books, 1991); logo no seu título pode observar-se a indicação de 1890 como ano de referência, quando está em causa a determinação fundacional do modernismo europeu, ressalvando-se aqui, como é evidente e importa fazer, o que há de convencional naquela data. A necessidade de relativizarmos a marcação temporal estabelecida pela data confirma-se, por comparação, porque, diferentemente da obra mencionada, 0 livro de F.R. Karl, Modern and Modernism. The Sovereignty of the Artist 1885-1925 (New York: Atheneum, 1988) recua um lustro, quando trata de assinalar os termos de partida e de chegada do modernismo.

Atentemos, pois, nas datas, sem hipertrofia do que valem, mas também sem receio de lermos nelas sinais e tendências daquilo que a cronologia pura e dura só por si não revela e sempre tendo em atenção o ano adotado como marco inicial das relações literárias e artísticas entre Portugal e Espanha que aqui estão em causa. Aquele ano de 1890 foi traumático, sabemo-lo bem, na história portuguesa, quando a crise da monarquia se acentuou por força do Ultimato britânico que tanta indignação desatou em Portugal; indignação e também alguma lúcida reflexão, por exemplo pela pena de um Eça já quase plenamente curado de alguns excessos realistas e capaz de reconhecer, lá do seu «exílio» parisiense, que aquele intolerável ato de violência politica não tinha justificação, mas sim explicações que apontavam para a triste e finissecular decadência portuguesa. Muitas coisas iam mudar e Eça bem o suspeitava.

(in “A falência da palavra realista: antes do modernismo”, in Suroeste 1 . Relaciones literárias y artísticas entre Portugal y España (1890-1936). Badajoz: MEIAC, 2010, pp. 95-105. Versão integral aqui)

scan

Anúncios

Realismo

O realismo foi para Eça, com frequência, um tema de reflexão doutrinária, até se transformar, sob o signo de Carlos Fradique Mendes, numa vexata quaestio.  Um projeto (aliás falhado, coisa sintomática) designado “Cenas Portuguesas” ou “Cenas da Vida Portuguesa” concentra muito dos propósitos e também das vacilações do grande escritor em torno do realismo; é esta uma matéria mais do que estudada e que se ilustra com indagações queirosianas sobre a relevância e a funcionalidade da personagem, sobre o potencial de transcendência que nela deveria ser valorizado, sobre a importância operativa da observação, sobre as cumplicidades entre pintura e literatura e assim por diante. A isto acrescento que, quando aqui falo de realismo queirosiano, não trato de destrinçar o que nesse realismo (assim chamado pelo próprio escritor, de forma não isenta de equívocos) se aprofunda no cumprimento do programa ideológico e literário do naturalismo, em ligação com a fisiologia experimental.

Cenas da Vida PortuguesaPrefiro notar que o realismo que Eça perseguiu corresponde àquilo que Darío Villanueva designou como realismo genético, ou seja, aquele que, fundando-se na crença e na elaboração de uma linguagem supostamente “transparente”, privilegia um referente que lhe é pré-existente. O caráter falacioso da representação de um real que emerge sem deformação, mediado por uma linguagem “translúcida”, foi várias vezes intuído por Eça e lamentosamente confidenciado em cartas (sobretudo a Ramalho Ortigão), nos anos mais árduos de escrita realista; foi preciso, todavia, que Carlos Fradique Mendes fosse confrontado com a sugestão de narrar uma viagem a África e de descrever o que lá vira, para que aquela falácia se declarasse, sob a forma de impossibilidade da representação através da palavra: “Porque o verbo humano, tal como o falamos, é ainda impotente para encarnar a menor impressão intelectual ou reproduzir a simples forma dum arbusto…”, declara Fradique, antes de postular uma linguagem  por inventar, “que só por si, plasticamente, realizasse uma absoluta beleza – e que expressionalmente, como verbo, tudo pudesse traduzir desde os mais fugidios tons de luz até os mais subtis estados de alma…”

Repare-se: Fradique não chega a pôr em causa a condição heterónoma e supostamente exterior do objeto a representar; basta-lhe afirmar a falência da linguagem como  semiose do mundo empírico para que a sua doutrina implícita da representação o coloque na linha do que Flaubert chegou a desejar: “um livro sem referência, que se sustentaria por si mesmo, pela força interior do seu estilo”.  Antes mesmo de chegar a este ponto, Fradique Mendes  desqualifica o que fora um crucial instrumento de análise do realismo mais vigorosamente genético: a observação. “Não vi nada na África, que os outros não tivessem já visto”, confessa, naquele mesmo passo.

(texto integral: Figurações da personagem realista: os bigodes e os rasgos de Tomás de Alencar, in A. Apolinário Lourenço, M. Helena Santana e M. João Simões (coord.), O Século do Romance. Realismo e Naturalismo na Ficção Oitocentista. Coimbra: Centro de Literatura Portuguesa, 2013, pp. 91-110).

%d bloggers like this: