Eça transmediático

Em Eça de Queirós, a modelação do mundo ficcional implica uma fenomenologia da visualização  conjugada com a estética e com a ideologia do realismo. Mas a referida modelação  vai além disso e envolve as personagens, numa dinâmica de transmedialidade que anuncia os media da imagem que hão de marcar intensamente a cultura do século XX.

Mapa da Palestina desenhado por Eça

Desde a viagem ao Egito e à Palestina,  empreendida nos fins de 1869, Eça de Queirós aprendeu a olhar o mundo em função de perceções sensoriais projetadas na escrita:  o olhar sobretudo, mas também a audição. O registo visual que Eça deixou dessa viagem – impressões de observação em que predominam a luz e a cor, bem como desenhos de mapas  – é, neste aspeto, muito significativo. Depois, a figuração das personagens queirosianas incorpora progressivamente o contributo do olhar como instância representacional, com inevitáveis efeitos  cognitivos e  sugerindo hipóteses de representação que carecem dos media da imagem.

Faz parte destas experiências o “diálogo” visual das personagens com retratos que surgem em momentos decisivos da ação romanesca. Um episódio em que esse “diálogo” suscita uma hipótese transmediática: quando, no regresso ao Ramalhete, Carlos da Maia vê o retrato abandonado da avó, Maria Eduarda Runa, é uma impressão de movimento que resulta do seu olhar:  “E no chão, na tela de Constable, encostada à parede, a condessa de Runa, erguendo o seu vestido escarlate de caçadora inglesa, parecia ir dar um passo, sair do caixilho dourado, para partir também, consumar a dispersão da sua raça…”

Aquele passo que na tela é esboçado só poderia ser plenamente captado pelo cinema;  é neste que, do mesmo modo,  virá a ser muito expressivo o recurso à metalepse  que ali se insinua (“sair do caixilho dourado”). É essa dinâmica transmediática, em que a narrativa cinematográfica parece ser convocada para aprofundar a narrativa literária, que faz da ficção  queirosiana um campo de indagação mediática que vai além dos limites do literário.

C. Reis, “Eça de Queirós e a epistemologia do olhar” (síntese). Conferência no III Encontro do Grupo Eça; Fortaleza, 29 a 31 de outubro de 2018.

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