Eça naturalista

Surgindo normalmente associados, tanto em abordagens teóricas, como em debates doutrinários e em análises críticas, o Realismo e o Naturalismo são, de facto, correntes estéticas que podem ser caracterizadas em separado. Isto, claro está, sem pormos em causa as estreitas relações que entre ambos existem e que hoje, com o distanciamento e com os instrumentos metodológicos de que dispomos, se tornam mais claras do que na época. Certamente por isso, não poucos escritores e críticos oitocentistas designaram muitas vezes como Realismo o que, de facto, era naturalista, sendo a inversa menos frequente. Por outro lado, sabendo-se que, nos alicerces epistemológicos e estéticos do Naturalismo, está uma componente realista, torna-se compreensível que tenham ocorrido (e eventualmente ocorram ainda) deslizamentos conceptuais como os que ficaram referidos.

O responsável por este volume assenta uma parte importante da investigação que levou a cabo no trânsito que, há já alguns anos, empreendeu pelas paragens que nestas páginas revisita, para nosso benefício. Com efeito, António Apolinário Lourenço é autor de um valioso estudo (que foi a sua tese de doutoramento) intitulado Eça de Queirós e o Naturalismo na Península Ibérica, publicado em 2006. Essa circunstanciada e muito aprofundada aproximação à receção e à difusão da literatura naturalista queirosiana e ibérica tem, evidentemente, um alcance mais amplo do que este livro; todavia, o que aqui se encontra completa e documenta, em vários aspetos, o estudo referido, muitas vezes através de textos de difícil acesso.

Para aquilo que neste momento importa realçar, é necessário dizer que a edição dos textos que adiante podemos ler provém de um extenso e competente trabalho de levantamento e contextualização do Naturalismo, da sua implantação em Portugal e ainda dos avanços e dos recuos que essa implantação conheceu. Por isso, a designação da introdução como Naturalismo português: síntese histórica peca por modesta; com efeito, António Apolinário Lourenço alarga-se pela ponderação da já mencionada relação de autonomia entre Realismo e Naturalismo, pelas origens e pelas primeiras manifestações do Naturalismo português, pelo importante contributo francês para a expansão e maturação do romance naturalista e ainda pelo lugar correlativo que em Portugal foi ocupado pelos dois Queirós – Eça e Teixeira de Queirós –, ou seja, por aqueles que de forma mais expressiva interpretaram aquilo que chegou a ser uma literatura com foros de escândalo moral.

(extrato da “Apresentação” a António Apolinário Lourenço, Eça Naturalista. O Crime do Padre Amaro e O Primo Basílio na Imprensa Coeva. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2019).

 

Os Maias na Univ. Federal do Ceará

Há muitos anos, num programa de entrevistas da TV Cultura em São Paulo, foi feita uma enquete algo ociosa entre pessoas na rua: quem teria sido o brasileiro mais inteligente? Um rapaz respondeu sem pestanejar: Eça de Queirós! O equívoco sobre a nacionalidade do escritor, mais do que um erro, talvez revelasse sem querer uma verdade latente, a de que o autor português foi um dos estrangeiros mais brasileiros da história do país.

Diferente de outros ilustres forasteiros adotados, que em geral viveram e até morreram no Brasil, Eça nunca pisou nestas plagas, e todo contato com o público local foi através da escrita. Quando os primeiros exemplares de O primo Basílio aportaram no Rio de Janeiro, em 1878, Eça já era conhecido e admirado aqui por seu jornalismo. Best-seller instantâneo, O primo gerou verdadeira revolução e, em pouco tempo, a história de Luísa foi adaptada em várias versões teatrais, com grande sucesso nos palcos do país; e personagens e passagens do livro passaram a compor o repertório das conversas de todos.

A partir daí Eça já era nosso. Mas o selo de familiaridade veio com a colaboração no mais importante jornal da época, a Gazeta de Notícias. Em suas páginas, desde 1880, o escritor entrava nas casas brasileiras para, entre crônicas, ensaios, contos e romances, dar alguns pitacos na vida nacional, mas principalmente desconstruir a imagem idealizada que porventura poderíamos ter da Europa. Desta forma, a Gazeta de Notícias passou a ser a residência virtual (e oficial) do autor no Brasil. (…)

Em 2018, o Grupo Eça realizou o III Encontro Internacional em Fortaleza, no campus da Universidade Federal do Ceará (UFC), com o apoio da Pró-Reitoria de Relações Internacionais. Na ocasião, membros do GE propuseram ao pró-reitor, prof. José Soares de Andrade Júnior, que a UFC encampasse uma coedição da Coleção dirigida por Carlos Reis. O desafio foi aceito pela UFC, com a entusiasmada aprovação do reitor prof. Henry de Holanda Campos, e a escolha do primeiro título a ser publicado recaiu, como não poderia deixar de ser, no opus magnum de Eça.

Registre-se, então, o agradecimento do Grupo Eça aos gestores da UFC pela generosidade e ousadia de brindar o público brasileiro com uma edição nacional do texto crítico de Os Maias; ao diretor da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, dr. Duarte Azinheira, que viabilizou o convênio para a coedição; ao prof. Carlos Reis que intermediou as negociações e orientou a produção da presente edição crítica; e, por último, mas não menos importante, à equipe da Imprensa Universitária da UFC, na pessoa de seu diretor Joaquim Melo de Albuquerque, que produziu o livro em tempo recorde e com a habitual qualidade.

(José Carlos Siqueira,  extrato da nota prévia à edição crítica d’Os Maias publicada pela Univ. Federal e que será apresentada a 22 de agosto, na XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará)

Imagem da capa por Descartes Gadelha

 

 

Queirosiana, 25/26


Grupo Eça: Novas Leituras Queirosianas

O livro que temos em mãos é fruto do trabalho de dois anos de discussões em torno de O primo Basílio, de Eça de Queirós, promovidas pelo Grupo Eça, registrado no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq. (…) Desde 2003, o Grupo aumentou o número de participantes, primeiro entre os alunos de graduação e pós-graduação da Universidade de São Paulo, por volta de 2010, depois com a participação de professores e pesquisadores de outras universidades brasileiras, em meados de 2013. Nessa altura, organizamos de forma digital (http://ge.fflch.usp.br) o primeiro livro do grupo, publicado em 2015 com o título A obra de Eça de Queirós por leitores brasileiros, reunindo ensaios diversos de autoria de seus integrantes. O ano de 2016 marcou a internacionalização do Grupo, que passou a contar com a colaboração de pesquisadores de outros países.

(Continuar a ler e baixar o livro aqui)

 

III Encontro do Grupo Eça

A grande arte de Eça

Eça renovou a língua portuguesa; ele tem graça, tem agilidade, tem sátira, é cómico, é divertido, sem deixar, ao mesmo tempo, de ser muito sério, sob essa graça que ele tem,   porque é assim que se faz a grande arte.

No Brasil há uma espécie de meio irmão de Eça de Queirós, chamado Machado de Assis, que, sob a capa de uma ironia às vezes uma pouco melancólica, também faz passar, como Eça, mensagens muito importantes sobre a vida, sobre o amor, sobre a morte, sobre a esperança, sobre a decadência, sobre tudo isso de que se fez a arte destes grandes escritores do século XIX.

(entrevista a TV Paranaíba, 3 de agosto de 2018; ver aqui)

 

Eça: expressão da alteridade

23.04 Carlos Reis-page-001

Os Maias: edição crítica (3)

Para além das considerações genéticas e da análise do projeto literário que,  com avanços e recuos,  certezas e vacilações, conduziu ao  texto d’Os Maias, importa notar que ele só se concretizou como romance na sequência de um processo de publicação consideravelmente demorado e atribulado. Incluindo incidentes que chegaram a fazer perigar a sobrevivência  da obra, esse processo de publicação envolve vários componentes e decisões: o dimensionamento e mesmo o redimensionamento de um relato amplo e complexo a que Eça chamou uma “vasta machine” (voltaremos a esta expressão), as reelaborações que, já em plena composição tipográfica, o escritor levou a cabo, os atrasos, as omissões e os desleixos que aquela composição conheceu, as inserções na imprensa, incluindo duas publicações integrais em folhetim, por fim a edição em livro propriamente dita. Como já sabemos, tudo isto arrastou-se por quase uma década, sendo notório que a ausência de Eça no estrangeiro (com exceção de  visitas a Portugal, algumas delas  durante a escrita do romance) era uma dificuldade suplementar, no tocante aos contactos inevitáveis com as gráficas por onde o romance passou, até ver a luz do dia, em 1888.

                Se incluímos o dimensionamento e o eventual  redimensionamento do romance na fase da publicação é porque acreditamos que, em parte, ele terá decorrido quando o trabalho tipográfico já estava em curso, uma vez que, em princípios dos anos 80, o romance se encontrava na tipografia. Com efeito, nessa altura  Eça debatia-se com provas e com tipógrafos;  ao mesmo tempo,  ia completando e talvez reformulando, em regime expansivo, o seu romance.

A hipótese que neste momento aventamos é a seguinte:  Eça pode ter procedido a intervenções substanciais tanto no texto do romance, como na economia interna da ação e do tempo, quando uma parte importante do original já estava na tipografia e possivelmente em provas; e isso  poderá ter obrigado a reajustamentos e a correções em capítulos e  em episódios  dados por concluídos.  Um indício que aponta no sentido de um desses reajustamentos (e é por isso que ele nos interessa) colhe-se num anacronismo detetado num passo do jantar do Hotel Central;  um lapso que é tanto mais estranho quanto é certo que Eça (e os romancistas coevos, em geral) cuidava ao extremo de todos os pormenores que pudessem pôr em causa a coerência e a verosimilhança interna da narrativa.

(Da “Introdução” a Eça de Queirós, Os Maias. Episódios da Vida Romântica. Edição de Carlos Reis e Maria do Rosário Cunha. Lisboa: Imprensa Nacional, 2017).

(Mais informações aqui)

Os Maias: Lisboa, quarta-feira, dia 21

Os Maias: edição crítica (2)

No final da década de 70, quando eram muito vivos em Eça de Queirós o entusiasmo reformista e a militância literária em prol do realismo e do naturalismo, o escritor delineou um projeto que, como aconteceu com vários outros por ele concebidos, não passou disso mesmo. O episódio é conhecido e, por isso, evocamo-lo aqui apenas por aquilo em que  ele importa para a presente introdução.

Subordinado ao título Cenas da Vida Real  (ou Crónica do Vício; ou  Crónicas da Vida Sentimental;  ou Cenas Portuguesas; ou Cenas da Vida Portuguesa. A designação nunca se estabilizou), esse projeto de matriz balzaquiana incluía vários títulos e, relativamente a cada um deles, diferentes temas com impacto social e moral. Passava-se isto, convém lembrar, num período criativo verdadeiramente frenético para Eça, período em que se inclui a publicação e a republicação d’O Primo Basílio, a escrita da Capital!  e a reescrita d’O Crime do Padre Amaro. Isso não o impediu, todavia, de engendrar outras  iniciativas literárias.

Ernesto Chardron

A correspondência de Eça dos anos de 1877 e 1878 é elucidativa do que foi este projeto e da sua relação com Os Maias. É sobretudo (e como é natural) nas cartas ao editor de então, Ernesto Chardron, que as alusões às Cenas são significativas. Referimo-nos a uma carta de 5 de outubro de 1877, com todo o aspeto de ser a primeira em que Eça descreve o seu projeto: logo então, fala em “pequenos romances não excedendo a[s] 180, 200 páginas”, acrescentando mais adiante que “estas novelas deveriam ser curtas, condensadas”. O plano  contemplava diferentes assuntos, sendo uma das novelas um “drama de incesto doméstico”; era justamente essa que, dizia o romancista, “está pronta – é só copiá-la: chama-se O Desastre da Travessa do Caldas; ou talvez, não sei ainda: O Caso Atroz de Genoveva. Trata-se dum incesto. Dará, creio, 200 páginas, ou mais” (Eça de Queirós, Correspondência. Organização e anotações de A. Campos Matos. Lisboa: Caminho, 2008, vol. I, pp. 149-150).

Alguns comentários a estas palavras. Primeiro, o tema central d’Os Maias –o incesto – está explícito, logo em 1877. Segundo, os títulos aventados lembram claramente A Tragédia da Rua das Flores e não Os Maias. Terceiro, a narrativa ameaça ir além dos limites previstos:  “200 páginas, ou mais”, avisa Eça, confirmando aquela sua conhecida tendência para a expansão de planos narrativos; disso mesmo e por esta mesma época tratavam cartas trocadas com o mesmo editor, a propósito da escrita d’A Capital! – que não parava de crescer…

Novas alusões às Cenas surgem em correspondência para o mesmo destinatário, com datas de 3 de novembro do mesmo ano, de 4 de abril, de 2 de maio, de 28 de junho e de 4 de agosto de 1878. As duas últimas cartas incluem referências interessantes, mostrando que Os Maias estavam a caminho e em processo de autonomização, relativamente às Cenas.

            Assim, na carta de junho, aparece explicitamente, como o número XII, o título Os Maias e já não há rasto da Travessa do Caldas ou de Genoveva. Além disso, reaparece o vezo expansivo: Eça pede ao editor que “diga se lhe é inconveniente que alguns contos tenham 250 páginas”.  Aquelas 250 páginas falam por si: o que está a caminho não são contos (com 250 páginas?!), mas sim romances, com uma dimensão material e temática considerável, à maneira do século XIX. Por alguma razão Eça diz, na carta de 4 de agosto: “Tem-me tomado tempo, pôr em linhas gerais este trabalho que é vasto – e mais importante e interessante que ao princípio pensei” (Correspondência, I, p. 188).

(C. Reis e M. do Rosário Cunha, “Introdução” [extrato] à edição crítica d’Os Maias. Lisboa: Imprensa Nacional, 2017)

 

%d bloggers like this: