Grupo Eça

O Grupo Eça tem por finalidade estudar a obra do escritor português Eça de Queirós, assim como sua fortuna crítica. Privilegiando uma abordagem de fundamentação marxista, mas aberto a outras abordagens, o grupo pretende reler a obra queirosiana, tomando por pressuposto que o autor de Os Maias foi sempre um crítico ferrenho da burguesia e da aristocracia portuguesas, mesmo em seus últimos trabalhos. Além disso, o grupo também pretende discutir as leituras canônicas do escritor, que, a partir de certas fases de sua obra, fizeram dele ora um autor romântico, ora um aristocrata fin-de-siècle, ora um estilista da língua portuguesa, entre outras personas que lhe foram atribuídas (da apresentação do site)

Eça de Queirós, por David

 

 

Natal

Nem eu sei realmente como a ceia faustosa possa saber bem, como o lume do salão chegue a aquecer – quando se considere que lá fora há quem regele, e quem rilhe, a um canto triste, uma côdea de dois dias. É justamente nestas horas de festa íntima, quando pára por um momento o furioso galope do nosso egoísmo, – que a alma se abre a sentimentos melhores de fraternidade e de simpatia universal, e que a consciência da miséria em que se debatem tantos milhares de criaturas, volta com uma amargura maior. Basta então ver uma pobre criança, pasmada diante da vitrine de uma loja, e com os olhos em lágrimas para uma boneca de pataco, que ela nunca poderá apertar nos seus miseráveis braços – para que se chegue à fácil conclusão que isto é um mundo abominável. Deste sentimento nascem algumas caridades de Natal; mas, findas as consoadas, o egoísmo parte à desfilada; ninguém torna a pensar mais nos pobres, a não ser alguns revolucionários endurecidos, dignos do cárcere e a miséria continua a gemer ao seu canto!

Os filósofos afirmam que isto há de ser sempre assim: o mais nobre de entre eles, Jesus, cujo nascimento estamos exatamente celebrando, ameaçou-nos numa palavra imortal «que teríamos sempre pobres entre nós». Tem-se procurado com revoluções sucessivas fazer falhar esta sinistra profecia – mas as revoluções passam e os pobres ficam.

(Eça de Queirós, “O Natal – a «Literatura de Natal» para crianças”, Gazeta de Notícias, 9 de fevereiro de 1881).

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Ilustração de Dean Morrissey, para Um Conto de Natal (1843), de Charles Dickens

 

Amaro Vieira

O universo do padre Amaro, protagonista deste romance, é regulado pela liturgia e pelo Eros. Potenciada pelas suas forças mais eficientes e mais instintivas – as da imaginação, da repressão e do medo –, e articulada através do celibato clerical, a relação entre o sagrado e o erotismo intensifica, aqui, o tabu sobre o sexo. E certifica, também, o poder incoercível da líbido.

Amaro Vieira é, fundamentalmente, uma personagem naturalista e, portanto, uma figura preconcebida e explicada, sujeita a moldes e conclusões pressupostas (Pires: 68): os atavismos genéticos e temperamentais, a modelação pela educação e pelo meio. É típica a sua história, que Eça displicentemente sumariza: “o padre e a beata, a intriga canónica, a província em Portugal”. Pobre, órfão, passivo e sensual, Amaro é impelido, pela sua influente e devota protetora, a fazer-se padre. Colocado na provinciana Leiria, torna-se amante de Amélia, contando com a beata conivência do meio. Quando Amélia engravida e dá secretamente à luz, Amaro entrega o nascituro a uma “tecedeira de anjos”, que o faz desaparecer. Amélia morre e Amaro, abalado mas incólume, rapidamente abandona Leiria. Reaparece em Lisboa em 1871, aparentemente instalado no farisaísmo e na amoralidade.

A figura do padre lúbrico e hipócrita integra um anticlericalismo de tradição liberal, apoiado também nas leituras de Michelet e Proudhon (Reis e Cunha, 2000: 62-64). Sobressai, aliás, a crítica micheletiana à feminização e enjuponnement da fé católica. Junta-se-lhes nesta obra a tematização de questões gratas ao naturalismo: a promiscuidade entre Estado e Igreja, a excessiva autoridade dos padres, a devoção alienante, causa de perversão moral, o poder abusivo detido pela prática da confissão, sobretudo junto das mulheres. Há outros temas, mais profundos: o da labilidade da consciência ética, âncora do caráter individual, de clara inspiração proudhoniana; e o da confusão místico-carnal, comum a Amaro e Amélia (e para ela fatal).

(Ana Luísa Vilela, “Amaro Vieira”, in Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa; continuar a ler) 

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Eça e o motivo do regresso

               Quando aludo ao legado clássico em Eça, não ignoro nem omito que, de um ponto de vista formativo, não é essa a sua matriz dominante, mas antes a francesa, conforme o próprio escritor reconheceu, nos poucos textos autobiográficos que deixou: concretamente, em “0 ‘Francesismo'” (provavelmente de 1886 ou 87) e “Um Génio que era um Santo” (1896). Por outro lado e continuando, por alguns momentos mais, em clave biográfica, parece evidente que os motivos profissionais que fizeram de Eça, por quase toda a vida, um “exilado” por vontade própria concorreram certamente para o destaque que no seu imaginário pessoal ocupam temas e atitudes que importa aqui ter em conta: o tema do exílio (ainda que, repito, por escolha própria), a vivência da saudade e o culto da distância como critério de análise crítica. Tudo isso e ainda o regresso, interpretado como motivo de reencontro com a pátria ausente e, de novo, oportunidade para ponderação crítica, por confronto com o estrangeiro em que Eça viveu quase toda a sua vida adulta.

(“Eça de Queirós e o motivo do regresso”; artigo integral)

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O Mistério da Estrada de Sintra: apresentação

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Fradique Mendes e Bernardo Soares (2)

Bernardo Soares e Carlos Fradique Mendes – ou melhor, Jerónimo Pizarro e Carlos Reis –  encontraram-se para uma conversa na Biblioteca Joanina, para o encerramento dos 725 anos da Universidade de Coimbra (UC). Com um saco de pano vermelho que comprou numa livraria de Madrid que se chama “Tipos Infames”, o especialista em Fernando Pessoa Jerónimo Pizarro apresentou o que se ia passar a seguir. “Somos dois tipos infames a falar de outros dois tipos infames que poderiam ser o Bernardo Soares e o Fradique Mendes ou semi-infames por serem semi-heterónimos e pensemos que esta é uma conversa a dois sobre duas personagens que estamos a tentar aproximar.” [continuar a ler e ver vídeo]

Isabel Coutinho, Vera Moutinho e Frederico Batista, Público [online], 7 de dezembro de 2015.

 

 

Fradique Mendes e Bernardo Soares

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Realismo e modernidade em Eça e Machado

Transatlantic Dialogues: Indiana University

Transatlantic Dialogues” is an international symposium that aims to reexamine research on nineteenth-century Portugal and Brazil from a transatlantic and interdisciplinary perspective focusing on the two major intellectual figures of the period, Machado de Assis (1839-1908) and Eça de Queirós (1845-1900). The symposium will bring together some of the most innovative scholars and recognized experts to present new perspectives and insights on Machado’s and Eça’s work and its relation to realism, modernity, gender, race, visual culture, digital humanities, and postcolonial studies. Eça and Machado are not only two of the greatest novelists ever to have written in Portuguese, but they also engaged in dynamic debates that reached far outside literary circles and their geographic area.

 

Eça de Queirós na Livraria Cultura

A Livraria Cultura do Shopping Iguatemi é um dos espaços urbanos mais bonitos que eu conheço. E no meio do salão amplo e colorido há possibilidades de encontros públicos perfeitamente integrados ao silêncio de quem só passeia folheando livros. As pessoas sentam-se nas cadeiras ou nas escadas, falam, e tudo bem.

Ontem fui ao primeiro dia do ciclo “minha língua, minha pátria”, em que o professor Carlos Reis, da Universidade de Coimbra, conversou com a jornalista Simone Duarte, do Jornal Público, sobre Eça de Queirós. A conversa não foi só sobre o Eça. Foi muito além. Falou-se de Machado de Assis, de Eça de Queirós e Machado de Assis, das cartas que trocaram, de Flaubert, do tema do adultério na literatura na segunda metade do século XIX, de como as edições críticas são importantes para a atualização das obras literárias, de romantismo, naturalismo, de influências literárias. A palavra depois foi aberta ao público e as perguntas enriqueceram o diálogo.

Paula Bajer Fernandes, “Eça de Queirós por Carlos Reis na Livraria Cultura: ‘minha língua, minha pátria'”, blogue Lolita. (continuar a ler)

 

Eça de Queirós ou a língua como pátria ausente

Minha Língua, Minha Pátria é o segundo projeto entre a Livraria Cultura e o jornal Público que desde novembro publica uma versão mensal do seu suplemento de cultura, o Ípsilon,  no Brasil distribuído juntamente com a Revista da Cultura nas 19 lojas da Livraria Cultural. A edição de Abril do Ípsilon trará especial destaque à literatura e à nova geração de autores portugueses.

Programa:

  • “Eça de Queirós ou a língua como pátria ausente”, com Carlos Reis e Simone Duarte/Público — sexta-feira, 10 de Abril, 19h30.
  •  “A Viagem do Senhor Tavares”, com Gonçalo M. Tavares e Samuel Titan Jr/IMS — sábado, 11 de Abril, 19h30
  •  “Fernando Pessoa: A língua é onde não estou”, com Jerônimo Pizarro e Adriana Calcanhotto — domingo, 12 de Abril, 16h00.
  •  “O novíssimo de uma velha tradição”, com Afonso Reis Cabral e Gustavo Ranieri/Revista da Cultura — domingo, 12 de Abril, 18h00.
  •  “Literatura em trânsito”, com Alexandra Lucas Coelho e Paulo Werneck/FLIP — segunda-feira, 13 de Abril, 19h30.
  •  “Mosaico de histórias, os dois lados do atlântico”, com Norberto Morais, Emilio Fraia e Karina Buhr/Revista da Cultura — terça-feira, 14 de Abril, 19h30.
  •  “Duelo/Dueto de poesia”, com Gregorio Duvivier, Matilde Campilho e moderação de Simone Duarte/Público — quarta-feira, 15 de Abril, 19h30.

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