A Correspondência de Fradique Mendes

10296848_10201704981497012_1398968032216744231_nA edição crítica d’A Correspondência de Fradique Mendes que agora se publica pretende facultar aos especialistas em estudos queirosianos um texto em muitos aspetos consolidado, relativamente ao que eram as edições de que até agora dispúnhamos. Para justificar esta asserção – e também para sublinhar as dificuldades deste trabalho – torna-se necessário recordar brevemente as circunstâncias que rodearam as primeiras publicações destas cartas e da biografia que as antecede. A presente edição crítica incidiu sobre um daqueles títulos que  Eça de Queirós não chegou a publicar em vida, facto que arrasta consideráveis  problemas e inseguranças. Tendo aparecido pouco depois da morte do grande escritor,  A Correspondência de Fradique Mendes é verdadeiramente e como já foi dito um semipóstumo:  projetada e em boa parte preparada ainda por Eça, a edição do epistolário fradiquista contou seguramente com outras intervenções, logo depois do desaparecimento do seu autor, em agosto de 1900. Não se sabe, porém, com exatidão que nome ou nomes estão por detrás dessas intervenções e sobretudo que dimensão tiveram. Deste ponto de vista e até que apareçam documentos que lancem luz sobre o que não se sabe,  qualquer edição crítica d’A Correspondência de Fradique Mendes será sempre marcada por uma certa margem de indecisão. Ainda assim, há que dizer que nos últimos anos surgiram vários manuscritos e conjuntos de manuscritos que, sem serem um componente central e estruturante desta edição crítica, constituem elementos de grande relevância, para se ter uma ideia mais nítida da história deste macrotexto e dos avanços e recuos que ele conheceu. Refiro-me sobretudo ao chamado manuscrito  Salema Garção (que compreende provas tipográficas emendadas por Eça), há alguns anos adquirido pela Biblioteca Nacional e presentemente integrado no Espólio de Eça de Queirós. Tais materiais estão agora disponíveis para um estudo genético que se antecipa muito fecundo, sob vários pontos de vista. Conforme está explanado na extensa introdução que aqui se encontra, a escrita e a publicação original destes textos foi algo acidentada e sobretudo dispersa, no espaço e no tempo. Em várias publicações, em Portugal e no Brasil, surgiram, ao longo dos anos, as cartas fradiquistas e a biografia que apresenta o seu autor, esse Carlos Fradique Mendes concebido, por iniciativa coletiva e algo provocatória, no fim dos anos 60 do século XIX, mais tarde recuperado e amadurecido por Eça de Queirós. Uma tal dispersão explica as reescritas, as emendas e até as oscilações de critério editorial que a história dos textos evidencia. Para além disso, Eça deixou inéditas várias cartas fradiquistas, só publicadas bem depois da sua morte; e entre elas estão seguramente algumas das mais ilustrativas do pensamento  de quem foi poeta e viajante, suposto autor de obra desconhecida e observador arguto dos homens e das coisas do seu tempo. É tudo isso e o mais que adiante pode ler-se que se encontra neste livro. Para o preparar, tive  a preciosa colaboração de Irene Fialho e de Maria João Simões; conforme pode ler-se nas respetivas notas biobibliográficas, no final deste volume, trata-se de duas estudiosas com importantes trabalhos já publicados (e outros em curso de preparação) sobre Eça de Queirós, o que só por si é garantia daquilo que  testemunho com gratidão: competência e empenhamento para levar a bom termo  uma tarefa que nem sempre tem o reconhecimento devido à sua complexidade e significado patrimonial. Por fim, quero registar e agradecer o facto de este projeto (integrado também nas atividades do Centro de Literatura Portuguesa/FCT da Universidade de Coimbra) continuar a contar com o acolhimento da Imprensa Nacional-Casa da Moeda e com o exemplar profissionalismo  dos seus serviços editoriais.

 (Extrato da “Nota Prévia”)

 

 

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