As Minas de Salomão

A vida literária de Eça de Queirós não decorreu isenta de dificuldades de vária ordem, dentre as quais as de caráter económico. Para além das relações nem sempre amenas com os seus editores,  em parte dominadas pela discussão de proventos autorais, o grande escritor viveu apertos financeiros significativos, sobretudo a partir dos anos 80 do século XIX. Depois de ser ter casado e de ter visto as suas responsabilidades familiares aumentarem, Eça teve que dilatar os seus rendimentos, por forma a fazer frente àquelas responsabilidades, agravadas pelo elevado custo de vida em Paris, cidade em que se fixou a partir de 1888. Alguns dos projetos literários queirosianos têm que ver com este aspeto da biografia de Eça: colaboração na imprensa e organização de almanaques foram algumas das soluções encontradas pelo escritor para incrementar o seu orçamento pessoal; a par disso (mas também em sintonia com isso), a criação da Revista de Portugal assegurava ao romancista uma intervenção cultural regular junto de um público leitor em crescimento.
A publicação, na Revista de Portugal, a partir de Outubro de 1889, de uma tradução portuguesa do romance As Minas de Salomão, da autoria de Rider Haggard (King Solomon’s Mines, no título original, em primeira edição de 1885), cumpria um propósito de aculturação que não excluía o apelo económico. A Revista de Portugal não procurava atrair apenas leitores interessados por temas económicos, políticos ou sociais; juntamente com esses, interessava cativar um público mais amplo (e já mesmo  feminino) que fizesse subir as vendas e as assinaturas da revista. O romance de Haggard correspondia muito bem a esse propósito: a África estava então na moda (e em discussão), não se havia esbatido ainda o fascínio por um exotismo de matriz remotamente romântica e uma ação narrativa em que mistério e aventura se caldeavam ajudava a interessar e (como hoje diríamos) a fidelizar os leitores.
A presente edição crítica d’As Minas de Salomão, por Alan Freeland, retoma várias das questões que ao longo dos anos têm interessado os estudiosos (em número relativamente escasso, diga-se de passagem) desta tradução e do papel que nela terá tido Eça de Queirós. Seja qual for esse papel, parece inegável que o texto português, apresentado na edição em livro de 1891 como revisto por Eça, constitui uma espécie de versão livre do original inglês, versão de onde não está evidentemente ausente o inconfundível timbre estilístico queirosiano.
A circunstanciada introdução que Alan Freeland preparou para esta edição trata desta e de muitas outras questões, não deixando de colocar as Minas “em contexto”. É este um procedimento absolutamente indispensável, para entendermos as motivações de Eça, enquanto editor e sobretudo tradutor-revisor deste romance um tanto sofrível, se comparado com as magistrais criações saídas da sua pena. E a edição em simultâneo dos dois textos – o original inglês e a versão portuguesa – constitui uma adequada opção editorial  para que se possa fazer uma ideia clara das diferenças entre ambos. Também por isso, esta edição crítica passa a constituir um elemento de trabalho fundamental para melhor compreendermos um âmbito do trabalho literário queirosiano que merece ser valorizado. O currículo queirosiano de Alan Freeland, aliado à sua condição de falante nativo da língua inglesa são argumentos decisivos para confirmarem a seriedade do trabalho que aqui fica.

 Carlos Reis, “Nota Prefacial” a As Minas de Salomão. Edição de Alan Freeland. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2008.

Deixe um comentário

3 comentários

  1. i agreed, this is a fantastic article for all the newbie too…

    Responder
  2. everything here is absolutely awesome, posts, style, all!

    Responder

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: