Cartas Públicas

A edição das cartas públicas de Eça de Queirós incide sobre um conjunto de textos congraçados por, pelo menos, duas características específicas. Em primeiro lugar, trata-se de textos a que o escritor, por razões que a introdução a este volume  esclarece, atribuiu forma epistolar, o que desde logo condiciona, em termos de configuração discursiva, os procedimentos comunicativos  aqui  encenados; isto  não impede que se reconheça que, não raro, a forma epistolar foi determinada por uma convenção cultural e de época, que naturalmente projectou nos textos marcas discursivas próprias. Em segundo lugar, estes são textos publicados na imprensa, no quadro da vasta intervenção que Eça de Queirós protagonizou, ao longo de toda a sua vida literária, em jornais e em revistas, em Portugal e no estrangeiro. Desse ponto de vista, estas cartas públicas têm o peculiar timbre que lhes foi incutido por um escritor que, além do mais, foi um cidadão do mundo, profundamente interessado na vida pública, nos costumes e nas ideias que atravessarem o seu temo.
Também por isso vários destes textos podem ser considerados doutrinários. Com efeito, em diversas destas cartas públicas pôde Eça de Queirós representar o seu pensamento e o seu ideário estético, com especial pertinência e acuidade quando estavam em causa  grande temas que ilustram um trajecto de incomparável romancista. A pertinência do naturalismo, a retórica do romantismo, a construção da personagem ou o valor social da literatura são alguns desses temas; neles podemos surpreender a extraordinária argúcia e capacidade de reflexão metaliterária de quem, como poucos no seu tempo, soube pensar a literatura e a sua condição institucional. Fê-lo muitas vezes, como também aqui se vê, temperando os textos com uma ironia e com uma graça irrepetíveis na nossa história literária.
A responsável por este volume é detentora de um currículo queirosiano já apreciável. Autora de dois trabalhos académicos sobre Eça – uma dissertação de mestrado sobre os textos das Prosas Bárbaras e uma tese de doutoramento sobre a epistolaridade nos textos de imprensa queirosianos –, Ana Teresa Peixinho colaborou comigo na edição crítica dos textos de imprensa publicados na Gazeta de Portugal (Textos de Imprensa I (da Gazeta de Portugal). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2004). O percurso assim rapidamente esboçado é garantia de uma edição séria e seguramente muito útil para os estudiosos da obra de Eça de Queirós.

Carlos Reis, Nota Prefacial a Cartas Públicas. Edição de Ana Teresa Peixinho. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2009.

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1 Comentário

  1. thanks for the blog, doing well keep posting such stuffs.

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