Dançar Eça: O Primo Basílio em bailado

1. Num texto escrito para a folha de sala, na estreia absoluta do bailado em dois atos O Primo Basílio (Braga, Theatro Circo, 11 de janeiro), José Sasportes declara, a abrir: “Na arte de compor bailados abrem-se avenidas várias, segundo as escolhas dos coreógrafos, e uma dessas vias é o bailado narrativo, em que a dança se atribui a tarefa de contar histórias partindo de palavras antes escritas. Estrada difícil de calcorrear pois à dança faltam seja a precisão sejam as nuances que as palavras escondem. Vice-versa, o que os corpos dançantes escrevem dificilmente é traduzível em palavras”. E contudo, acrescenta Sasportes, “a história da dança teatral do século XVIII até hoje pode ser contada através dos romances, traduzindo com maior ou menor clareza quanto o texto já transmitia anteriormente”.

A citação é longa, mas representa bem o que penso acerca do potencial narrativo de práticas artísticas que não a literatura de ficção narrativa, neste caso, a dança. Nas palavras que citei nada existe, note-se, que sugira aquilo que hoje está arredado das reflexões sobre a questão da adaptação, enquanto processo de transposição intermediática: o estabelecimento de hierarquias, de prioridades ou de precedências entre discursos artísticos, levando a pensar que uma adaptação de alguma forma “degradaria” o texto adaptado. A adaptação situa-se no âmbito da intermedialidade, da interação entre discursos de media autónomos e das relações funcionais entre diversas linguagens, em diferentes suportes e contextos comunicativos; quando encarada no cenário das linguagens artísticas, a problemática da adaptação liga-se aos estudos interartísticos, aquém de preconceitos quanto à suposta superioridade de certas artes em relação a outras.

2. Dito isto (e isto, note-se, está apoiado em vasto debate e em abundante bibliografia, particularmente no campo dos estudos narrativos), acrescento o que agora mais me interessa sublinhar: a importância e a qualidade da adaptação d’O Primo Basílio, num bailado do grupo “Dança em Diálogos”, com direção artística de Solange Melo e Fernando Duarte. Conforme pode ler-se no website (que vale a pena consultar) de “Dança em Diálogos”, o objetivo primeiro deste projeto é “contribuir para a pluralidade de apresentação de espetáculos de dança em todo o território nacional. Inserida num ambiente que procura responder aos desafios da arte contemporânea, [“Dança em Diálogos”] desenvolve uma plataforma de criação coreográfica que procura uma articulação profunda entre a dança e as diversas expressões artísticas, assim como entre as múltiplas linguagens que a compõem, aprofundando simultaneamente a relação com o público e as diferentes comunidades que o integram” (em https://ddialogos.com/).

O resultado exibido em O Primo Basílio. Bailado em II atos baseado na obra homónima demonstra expressivamente que estes propósitos foram amplamente atingidos. O facto de isto ser afirmado por quem, obviamente, não é especialista em dança nem crítico de bailado não retira significado ao que deixo escrito, antes de certa forma acentua a pertinência da proposta que aqui está em causa: ela reúne atributos capazes de fazerem chegar a dança a um público mais amplo do que aquele que, em registo especializado, se interessa por ela, ao mesmo tempo que amplia e aprofunda o legado cultural da obra queirosiana.

3. A obra de Eça de Queirós é talvez a que, na nossa história literária, mais vezes e em mais linguagens e contextos mediáticos motivou adaptações. No teatro, no cinema, na banda desenhada, na rádio e na televisão, desde o século XIX (e portanto, ainda em vida do escritor) até aos nossos dias, em Portugal e no estrangeiro, os relatos e as personagens de Eça têm sido objeto de transposições que, com resultados desiguais, prolongam o riquíssimo universo literário queirosiano muito para além das páginas dos seus livros. A iconografia acompanha este movimento, de tal modo que hoje é possível (e de certa forma justificável) relermos a descrição, por exemplo, do conselheiro Acácio em diálogo interartístico com as interpretações de Alberto de Sousa, de Bernardo Marques ou de António, entre muitos outros. Tudo isto sem esquecer, é claro, a pintura de Paula Rego e a atenção que tem dado a textos de Eça, com destaque para O Primo Basílio.

Ao escolherem O Primo Basílio como base de referência para um bailado em dois atos, Solange Melo e Fernando Duarte aceitaram um desafio arriscado, mas certamente sedutor. Em primeiro lugar, trata-se de um dos romances mais conhecidos de Eça, tendo dado lugar, desde a sua publicação em 1878, a incontáveis e por vezes desencontradas interpretações. Em segundo lugar, tal como acontece com outros relatos queirosianos, a história d’O Primo Basílio projeta-se sobre um fundo social formado por personagens com escassa intervenção na intriga, mas extremamente sugestivas (Eça sinalizou isso mesmo, na conhecida carta a Teófilo Braga, de 12 de março de 1878); o já mencionado conselheiro Acácio é, por certo, o caso mais flagrante da capacidade de uma figura ficcional para transcender a narrativa que lhe deu vida. Em terceiro lugar, O Primo Basílio encerra não uma, mas duas intrigas que se sucedem no romance: a que está centrada no adultério de Luísa, com coloração bovarista, e a que decorre dela, concretizada na chantagem exercida por Juliana.

Com razão, a versão coreografada por Fernando Duarte fixou-se nestas duas intrigas que surgem, como no romance, em sequência e por aquela razão que Machado de Assis apontou na sua famosa crítica a O Primo Basílio: sem a chantagem, a adúltera ficaria impune. O bailado convoca, então, seis personagens: Luísa (Solange Melo), Basílio (Fernando Duarte), Juliana (Cristina Maciel), Jorge (Filipe Portugal, no espetáculo de estreia), Leopoldina (Carlota Rodrigues) e Sebastião (Pedro António Carvalho). Deixando de lado eventuais limitações de produção, esta opção induz uma concentração narrativa que é, a meu ver, uma das qualidades deste trabalho e um argumento importante para o seu êxito.

4. Importa observar o seguinte: a coreografia composta para O Primo Basílio soube escolher os momentos exatos da intriga (aquilo a que outrora se chamava funções cardinais), para representar, nos movimentos da dança, o drama de Luísa. A partida de Jorge, a chegada de Basílio, a troca e o extravio de cartas, o roubo destas por Juliana e assim por diante, até à morte de Luísa são momentos decisivos de uma intensa ação dramática cujo resultado artístico, nesta adaptação, pode sintetizar-se assim: sem subverter a ação do romance, nem os seus sentidos dominantes (o impulso bovarista de Luísa, o cinismo donjuanesco de Basílio ou a perversidade socialmente motivada de Juliana), o bailado assume uma autonomia que respeita e potencia as lógicas e os protocolos formais da dança teatral.

Para além disso, a sobrevida de Luísa e Basílio, de Juliana e Jorge, de Leopoldina e Sebastião, no bailado que os seus corpos desenham, traduz uma outra e bem legítima leitura Eça de Queirós; uma visão não conservadora da literatura e das adaptações a que ela dá lugar só pode congratular-se com esta proposta artística. E assim, O Primo Basílio, romance que tem conhecido múltiplas e inesgotáveis interpretações, surge-nos como sendo ainda o mesmo e contudo já outro.

Para isso contribuem outros componentes a que os especialistas, melhor do que eu, darão o adequado valor: a música de Luís de Freitas Branco e Fernando Lopes-Graça, os figurinos de José António Tenente (destaco as impressivas configurações de Juliana e de Leopoldina), a iluminação (de VP) e a cenografia de Pedro Crisóstomo. No que a esta última diz respeito, merece realce a admirável (e também sóbria) conceção de uma cena dominada por seis portas moventes: são elas que insinuam os tão relevantes sentidos, no mundo burguês de Luísa e Jorge, do interior e do exterior, do público e do privado, do secreto e do que é revelado, por olhares e por gestos das personagens.

5. Numa entrevista recente a este jornal (nº 1285), Fernando Duarte, referindo-se a esta adaptação, mas também a Murmúrios de Pedro e Inês, afirmou: “A intenção é pegar no imenso potencial da identidade cultural portuguesa e criar qualquer coisa de novo”. Com O Primo Basílio foi isso mesmo que aconteceu; vale a pena, por isso, encontrar condições de exibição que permitam a um público alargado (incluindo, naturalmente, o escolar) assistir a esta notável realização artística.

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