O regresso de Fradique Mendes

1. Foi recentemente adquirido pelo Estado e incorporado nos fundos da Biblioteca Nacional um conjunto de manuscritos referentes à obra de Eça de Queirós  A Correspondência de Fradique Mendes. Este é um acontecimento que, no recôndito domínio  das antiguidades bibliográficas e arquivísticas, pode ser considerado dos mais importantes dos últimos anos. No que respeita à obra de Eça e ao seu destino póstumo – um destino que, como é sabido, não está isento de erros, omissões e intervenções abusivas –, um tal acontecimento só tem paralelo nalguns (poucos) episódios similares: a aquisição pelo Estado do espólio queirosiano – o verdadeiro espólio literário, não a designação similar e equívoca que às vezes é atribuída a peças de família, sem relevância histórico-literária –,  permitindo o seu estudo de conjunto, na obra de que sou (com Maria do Rosário Cunha) co-autor, intitulada A Construção da Narrativa Queirosiana. O Espólio de Eça de Queirós (Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1989); a exposição bibliográfica, iconográfica e documental intitulada Eça de Queirós: a Escrita do Mundo, organizada pela Biblioteca Nacional e exibida em Portugal, Brasil e Espanha, quando do centenário da morte do escritor, e que foi a mais ampla e valiosa mostra queirosiana até agora realizada; num outro plano, merece registo também o aparecimento de algumas outras peças,  como é o caso dos manuscritos de S. Frei Gil, da carta de Eça a Camilo e da carta de Fradique Mendes a Eduardo Prado. Não é possível, lamentavelmente, colocar neste nível a publicação, em 1980, d’A Tragédia da Rua das Flores, nãoapenaspeloserros e divergênciasque as diferentesedições acumularam, mastambémpela motivação quaseexclusivamentecomercial de taisedições.

2. Conforme é sabido,  A Correspondência de Fradique Mendes foi publicada em livro em 1900, pouco tempo depois da morte de Eça de Queirós,  a 16 de Agosto desse ano. Trata-se de um dos títulos mais significativos da obra queirosiana, insistentemente valorizado pelos estudiosos, nos últimos anos, como texto decisivo para a exegese desse a que agora usualmente se chama o último Eça; e trata-se também de umtextosingular,  no plano temático-ideológico e no planoformal e macro-compositivo,  cuja publicação estava a serpreparadapor Eça de Queirós, empartecombaseemmateriaisjádados à estampa, desde 1888, na imprensa da época.

De acordocom Ernesto Guerra da Cal, no verbete nº 354 da sua monumental Bibliografía Queirociana,  Eça de Queirós foi surpreendido pela morte antes de concluir a preparação do livro que aqui está em causa. Por esse motivo, A Correspondência de Fradique Mendes tem sido considerada uma obra semi-póstuma, levantando o seu cânone textual, desde logo e por esse facto, dificuldades pertinentes, até por se saber que, a avaliar por aquilo que se encontra na primeira edição, as versões aparecidas na imprensa terão sido amplamente superadas.

Tanto quanto se sabe, a versão em livro de que passou a dispor-se em sucessivas edições, a partir da de 1900, sofreu intervenções editoriais (entenda-se: intervenções não-autorais) de dimensão e consequências ainda mal conhecidas, mas certamente importantes, a avaliar por aquilo que se passou com outros textos, em circunstâncias similares, designadamente comA Cidade e as Serras. Neste último caso, a edição crítica que está em preparação tratará de restaurar, até onde isso for possível, o projecto autoral. Num caso em vários aspectos próximo deste, foi isso que aconteceu já: refiro-me à edição crítica d’A Ilustre Casa de Ramires (Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1999), preparada por Elena Losada Soler.

Ms. Salema Garção; início das Cartas de Fradique Mendes

3. Como parece evidente, o acesso ao manuscrito agora conhecido é tanto mais importante quanto é certo    que uma obra de publicação póstuma não está, por isso mesmo, propriamente autorizada, aumentando assim as probabilidades e os riscos de ingerências espúrias; daí que, tendo aparecido materiais como os que aqui estão em equação, ganhe especial premência uma edição crítica (ou mesmo crítico-genética) que restaure o texto inacabado e cancele aquelas ingerências. Situação diversa é a das obras publicadas em vida, cujo texto impresso constitui, para todos os efeitos, uma versão autorizada, desde que o escritor não conteste essa condição.

Excluindo-se algumas provas tipográficas com emendas autógrafas, existentes nos fundos da Biblioteca Pública Municipal do Porto e os manuscritos do espólio, nada mais se conhecia quanto a materiais destinados à edição em livro d’ A Correspondência de Fradique Mendes, não havendo, por isso e até agora, notícia certa da existência do manuscrito que  acaba de ser adquirido. Ora, pelo que me foi possível concluir a partir de uma  observação sumária dos materiais que  aqui estão em causa, são muito significativas as diferenças entre eles e a edição de 1900; esses materiais (em quantidade e em qualidade muito apreciável) permitirão certamente reconstituir uma parte substancial do trabalho de refundição a que Eça procedeu, bem como neutralizar  intervenções editoriais abusivas. Noutros termos: não está aqui em causa apenas a letra do texto, que é, aliás, um dos aspectos menos problemáticas do trabalho a fazer. Estão em causa também outras questões: por exemplo, a da ordenação das cartas, permitindo reconfigurar o macrotexto d’ A Correspondência de Fradique Mendes, com eventuais implicações semânticas; e está em causa também a relação dos manuscritos e materiais conexos (provas emendadas, provindas de anteriores composições tipográficas) com o texto impresso e publicado em 1900, texto em que muitas coisas permanecem indecisas, no que à vontade autoral respeita, incluindo a opção de deixar fora do epistolário fradiquista as chamadas “cartas inéditas” de Fradique, mais tarde recuperadas.

4. A edição crítica d’A Correspondência de Fradique Mendes, que sempre seria precária e defeituosa se não se tivesse acesso ao conjunto de manuscritos de que agora podemos dispor, poderá assim cumprir, de forma bem mais efectiva, a função de salvaguarda patrimonial que em parte também lhe cabe, contribuindo para restituir à autenticidade possível uma das mais fascinantes obras da nossa literatura. Assim se dará sequência adequada à aquisição, pelo Estado, deste manuscrito de relevantíssima importância cultural, uma aquisição que para mais veio enriquecer mais ainda o Espólio de Eça de Queirós, conservado na BibliotecaNacional, acervo de que este manuscrito passa a ser inquestionavelmente uma das peças mais importantes.

5. Apetece dizer, neste momento: está quase encerrada a viagem e resolvido o dilema. A viagem é a que o texto tem percorrido, da pena (literalmente, neste caso) do autor até ao leitor, uma viagem às vezes acidentada e acrescentada por desvios e por incidentes que no momento  da escrita não era possível prever; o dilema é esse que se esboça quase no final das “Memórias e Notas” que, n’A Correspondência de Fradique Mendes, antecedem o epistolário fradiquista. Solicitada a revelar extractos dos manuscritos de Fradique ou, pelo menos, a sua natureza, a amante de Fradique, Madame Lobrinska, decide-se por “uma recusa, bem determinada, bem deduzida, – mostrando que decerto sob ‘os claros olhos de Juno’ estava uma clara razão de Minerva.” Ambos, o dilema e a recusa, deixaram de fazer sentido, desde que razões de afecto e razões de ciência harmoniosamente se conjugam.

Carlos Reis (Julho de 2004)

Deixe um comentário

1 Comentário

  1. this is perfect, i am looking to do something similar very soon and this article makes perfect sense.

    Responder

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: