Os Maias: edição crítica (2)

No final da década de 70, quando eram muito vivos em Eça de Queirós o entusiasmo reformista e a militância literária em prol do realismo e do naturalismo, o escritor delineou um projeto que, como aconteceu com vários outros por ele concebidos, não passou disso mesmo. O episódio é conhecido e, por isso, evocamo-lo aqui apenas por aquilo em que  ele importa para a presente introdução.

Subordinado ao título Cenas da Vida Real  (ou Crónica do Vício; ou  Crónicas da Vida Sentimental;  ou Cenas Portuguesas; ou Cenas da Vida Portuguesa. A designação nunca se estabilizou), esse projeto de matriz balzaquiana incluía vários títulos e, relativamente a cada um deles, diferentes temas com impacto social e moral. Passava-se isto, convém lembrar, num período criativo verdadeiramente frenético para Eça, período em que se inclui a publicação e a republicação d’O Primo Basílio, a escrita da Capital!  e a reescrita d’O Crime do Padre Amaro. Isso não o impediu, todavia, de engendrar outras  iniciativas literárias.

Ernesto Chardron

A correspondência de Eça dos anos de 1877 e 1878 é elucidativa do que foi este projeto e da sua relação com Os Maias. É sobretudo (e como é natural) nas cartas ao editor de então, Ernesto Chardron, que as alusões às Cenas são significativas. Referimo-nos a uma carta de 5 de outubro de 1877, com todo o aspeto de ser a primeira em que Eça descreve o seu projeto: logo então, fala em “pequenos romances não excedendo a[s] 180, 200 páginas”, acrescentando mais adiante que “estas novelas deveriam ser curtas, condensadas”. O plano  contemplava diferentes assuntos, sendo uma das novelas um “drama de incesto doméstico”; era justamente essa que, dizia o romancista, “está pronta – é só copiá-la: chama-se O Desastre da Travessa do Caldas; ou talvez, não sei ainda: O Caso Atroz de Genoveva. Trata-se dum incesto. Dará, creio, 200 páginas, ou mais” (Eça de Queirós, Correspondência. Organização e anotações de A. Campos Matos. Lisboa: Caminho, 2008, vol. I, pp. 149-150).

Alguns comentários a estas palavras. Primeiro, o tema central d’Os Maias –o incesto – está explícito, logo em 1877. Segundo, os títulos aventados lembram claramente A Tragédia da Rua das Flores e não Os Maias. Terceiro, a narrativa ameaça ir além dos limites previstos:  “200 páginas, ou mais”, avisa Eça, confirmando aquela sua conhecida tendência para a expansão de planos narrativos; disso mesmo e por esta mesma época tratavam cartas trocadas com o mesmo editor, a propósito da escrita d’A Capital! – que não parava de crescer…

Novas alusões às Cenas surgem em correspondência para o mesmo destinatário, com datas de 3 de novembro do mesmo ano, de 4 de abril, de 2 de maio, de 28 de junho e de 4 de agosto de 1878. As duas últimas cartas incluem referências interessantes, mostrando que Os Maias estavam a caminho e em processo de autonomização, relativamente às Cenas.

            Assim, na carta de junho, aparece explicitamente, como o número XII, o título Os Maias e já não há rasto da Travessa do Caldas ou de Genoveva. Além disso, reaparece o vezo expansivo: Eça pede ao editor que “diga se lhe é inconveniente que alguns contos tenham 250 páginas”.  Aquelas 250 páginas falam por si: o que está a caminho não são contos (com 250 páginas?!), mas sim romances, com uma dimensão material e temática considerável, à maneira do século XIX. Por alguma razão Eça diz, na carta de 4 de agosto: “Tem-me tomado tempo, pôr em linhas gerais este trabalho que é vasto – e mais importante e interessante que ao princípio pensei” (Correspondência, I, p. 188).

(C. Reis e M. do Rosário Cunha, “Introdução” [extrato] à edição crítica d’Os Maias. Lisboa: Imprensa Nacional, 2017)

 

Anúncios

Os Maias: edição crítica (1)

No desenvolvimento da Edição Crítica das Obras de Eça Queirós, chega-se agora ao seu opus magnum, o romance Os Maias. Episódios da Vida Romântica,  publicado pela primeira vez em 1888.  Esta que é inquestionavelmente a obra mais conhecida, celebrada, estudada e imitada de Eça de Queirós constitui o ponto mais alto não só da sua produção literária, mas também da ficção portuguesa em todos os séculos.

Por força da sua dimensão e da sua complexidade narrativa e temática, Os Maias exigiram demorada e trabalhosa escrita. Para além disso, durante cerca de dez anos, a acidentada e intermitente composição d’Os Maias conviveu com outros projetos e publicações.  Por exemplo, com A Relíquia, de 1887, e com A Correspondência de Fradique Mendes, cujos primeiros textos surgiram naquele ano de 1888. Durante esse tempo, com avanços e com  recuos, com dúvidas e com entusiasmos (porventura mais aquelas do que estes…), Eça consagrou-se a uma tarefa  cujo alcance literário e pertinência crítica não cessam de nos surpreender. A bem conhecida expressão que o romancista usou, numa carta de 20 de fevereiro de 1881 a Ramalho Ortigão, quando falou de “um romance em que pusesse tudo o que [tinha] no saco”, não consente muitas interpretações, para além daquela que é reforçada pelo contexto em que aparece: tratava-se de uma empresa extremamente ambiciosa,  expressão culminante e genial de muito daquilo que Eça tinha para dizer aos seus contemporâneos e à posteridade.

E contudo, a escrita, a revisão e a edição d’Os Maias  não estiveram isentas de dificuldades várias e de incidentes que, sendo em parte explicados pelo facto de o escritor viver fora de Portugal, quase levaram ao fracasso da iniciativa. Conforme na introdução a esta edição crítica está relatado de forma circunstanciada, Os Maias podiam simplesmente ter-se perdido, vítimas da desorganização e do desleixo de uma tipografia lisboeta. Felizmente não foi assim, para nosso benefício, como leitores e como admiradores desta “vasta machine”, conforme lhe chamou Eça, em carta de 10 de maio de 1884 a Oliveira Martins.

Importa notar que, um tanto paradoxalmente, Os Maias não foram, no seu tempo, uma obra com grande sucesso comercial, quando comparada com aquelas (e não foram muitas)  que foram dadas à estampa em vida de Eça. Desse conjunto, Os Maias são o único título  que não conheceu uma nova edição, até 1900 (a segunda edição é provavelmente de 1903). Do mesmo modo, a fortuna crítica d’Os Maias, na época em que o romance viu a luz da publicidade, esteve longe de ser unanimemente favorável; isto, é claro, para além de azedas reações provocadas por certas personagens, que alegadamente caricaturavam, com a agudeza do traço estilístico queirosiano, figuras respeitáveis da vida pública portuguesa. (…)

Digamo-lo de forma clara: a edição crítica d’Os Maias não enfrenta os problemas levantados pel’O Crime do Padre Amaro, pel’O Mistério da Estrada de Sintra ou pel’A Correspondência de Fradique Mendes – para só referir alguns dos títulos que foram já editados, no âmbito desta série. Ainda assim, os procedimentos de escrita e as circunstâncias que rodearam a composição tipográfica e a revisão do texto d’Os Maias, ao longo de um lapso temporal muito alargado, determinaram oscilações, vacilações e divergências de vária ordem, que tiveram de ser resolvidos com ponderação verdadeiramente crítica. Junte-se a isto a extensão de um relato que ocupa muitas centenas de páginas e reconhecer-se-á que a tarefa é mais complexa do que aparenta.  As notas ao texto e os critérios editoriais que constam da introdução que adiante pode ler-se confirmam o que se afirmou. (…)

C. Reis, Nota Prefacial a Os Maias. Edição de C. Reis e M. do Rosário Cunha. Lisboa: Imp. Nacional, 2017.

Eça e a personagem como ficção

Acácio por Bernardo Marques

A questão que me proponho abordar não é exatamente aquela que o título, na sua aparência quase simplista, pode sugerir. Para ser mais claro: ao tratar a personagem como ficção em Eça, não pretendo analisar as figuras ficcionais que povoam os romances e os contos queirosianos, com intuito meramente descritivo ou com propósito hermenêutico.

Bem conhecidas são as personagens queirosianas. Conhecidas, analisadas, interpretadas, reinterpretadas e discutidas, uma vezes elogiadas, outras abominadas, à luz de paradigmas diversos, complementares ou antagónicos: da história literária à psicanálise e ao estruturalismo, passando pela estilística, pela sociologia literária, pelos estudos femininos, pelos estudos pós-coloniais, pelos estudos comparados ou pelos estudos narrativos, para tudo e para algo mais têm servido as personagens de Eça. Heróis e vilões, misóginos e sexualmente ambíguos, edipianos e, quando calha, anti-edipianos, reflexo do seu tempo e desmentido do que ele foi,  românticos, tardo-românticos e pré-modernistas, assim são os seres humanos que habitam os relatos de Eça. Neste aspeto, a vasta bibliografia queirosiana tem-se alimentado gulosamente da complexidade do mundo ficcional de Eça. E, no caso em apreço, da abundância de uma ementa de carateres que desafia e às vezes assusta quem dela se aproxima: c’est l’embarras du choix!

Não vou por aí, porque, tal como muitos outros, por esse caminho já fui e por ele voltei. Quando me refiro aqui à personagem como ficção, aludo, em geral, à vocação queirosiana para inscrever e tematizar a literatura nas suas narrativas e nos discursos das figuras que nelas encontramos; o que, com perdão pela invocação do óbvio, me parece ser uma forma de lançar uma ponte que vai do realismo à modernidade, na passagem do século XIX para o século XX.

(extrato de “Eça de Queirós e a personagem como ficção“, in Revista de Estudos Literários, 6, 2016, pp. 29-60; continuar a ler).

 

 

Personagens escritores

Artur Corvelo, por António

Esta tese tem por objetivo investigar a relação entre a escrita e classe social na vida de personagens de três livros de Eça de Queirós: A Capital! (começos duma carreira); Os Maias — Episódios da vida romântica e A Ilustre Casa de Ramires. Pretende-se analisar os interesses de classe que perpassam a publicação ou não das obras planejadas por Carlos da Maia, João da Ega, Gonçalo Mendes Ramires e Artur Corvelo. Assim, faz-se necessário conhecer o “campo literário” (Bourdieu, 1996) português da segunda metade do século XIX para melhor entender as influências condicionantes que pesavam sobre o escritor iniciante. Também é importante analisar historicamente a sociedade portuguesa como um todo e qual o papel que os diferentes grupos que a compunham destinavam à leitura e à escrita.

A partir daí, pode-se perceber qual o significado social de se publicar ou não e o efeito de cada tipo de publicação e género textual.  Deste modo, portanto, entende-se melhor alguns fatores que contribuem para o sucesso de Gonçalo, o fracasso de Artur e a desistência de Carlos e Ega, personagens criados dentro de uma proposta de retratar fielmente a realidade. Percebe-se, por fim, que a escrita e mesmo a não escrita podem ser pensadas como partes de uma estratégia, mais ou menos consciente, de busca por poder no âmbito da luta de classes. Isto é evidente no caso de Gonçalo, que escreve por almejar tornar-se deputado, mas também é válido para as demais personagens. Para Carlos e Ega, a não escrita era mais interessante dentro do âmbito da luta de classes que a escrita: por isso sua revista e seus livros tornam-se “impossíveis” socialmente. Para Artur, o sucesso é impossível, já que suas obras e suas estratégias para bem lançá-las são inviáveis e mesmo contraproducentes. Só Gonçalo alcança o que quer, pois só ele realiza a escrita de um modo coerente com sua posição de classe.

             (Rodrigo do Prado Bittencourt, resumo ta tese Sobre livros impossíveis: quatro personagens escritores na obra de Eça de Queirós)

 

 

Eça e Machado: Revista de Estudos Literários, 6

O presente número da Revista de Estudos Literários é consagrado, na sua secção mais alargada, a Eça de Queirós e Machado de Assis, congraçados por uma designação sugestiva: diálogos transatlânticos.  Resulta esta secção temática de um colóquio internacional que teve lugar,  de 22 a 24 de outubro de 2015, em Indiana University,  com organização de Kathryn Bishop-Sánchez, de Luciana Namorato e de Estela Vieira. O referido colóquio reuniu, no belo campus de Bloomington, um conjunto alargado de especialistas nas obras queirosiana e machadiana, que ali reabriram a questão do diálogo entre os dois grandes escritores. Não, esclareça-se, nos termos  estafados que, durante anos, se fixaram na questão das “influências”, mas antes procurando linhas de afinidade e de divergência, de confluência e de  diferenciação entre os dois maiores romancistas da língua portuguesa.

Carlos Reis, “Nota Prévia”

 

A ficção e a crítica de Eça e Machado estabelece um estreito diálogo com a política, a economia e as relações internacionais de sua época, e põem em questão os conceitos de raça, gênero, classe social e identidade nacional. A sua obra também evidencia o desenvolvimento de importantes discursos científicos, tradições intelectuais e práticas culturais prevalecentes em Portugal e no Brasil do século XIX. Os ensaios aqui publicados tentam mostrar como é que a obra de Machado e Eça explora estes temas e discursos e quais são algumas das implicações dos diálogos criados pelos autores, especialmente, como é que estes são consequenciais para debates contemporâneos e ainda relevantes hoje em dia. As questões estéticas e epistemológicas que a obra destes dois autores levanta vêm-se mostrando mais e mais relevantes para a compreensão do nosso momento atual. Por isso, uma reavaliação comparativa da produção textual de Eça e Machado, assim como de sua receção (tanto na época em que viveram como nos anos posteriores a sua morte), conduz a reflexões relevantes ao campo das relações culturais transatlânticas e das produções pós-coloniais, assim como ao atual questionamento e revisão dos cânones literários nacionais.

Kathryn Bishop-Sánchez, Luciana Namorato e Estela Vieira, “Introdução”

Memórias de Jaime Batalha Reis

Lançamento da obra de Elza Miné, Alguns homens de meu tempo e outras memórias de Jaime Batalha Reis (edição da Imprensa da Universidade de Coimbra), na Biblioteca Nacional, no dia 26 de outubro, pelas 18 horas.
Jaime Batalha Reis (1847-1935) tinha em vista registar recordações de seus amigos, cuja reunião viria a constituir um volume a intitular-se Alguns homens de meu tempo. Não chegou, contudo, a realizar tal projeto que, desde seus primeiros anos como cônsul em Newcastle, até os últimos passados na Quinta da Viscondessa, em Portugal, sempre acalentou e referiu.
O presente livro tem por objetivo apresentar, nas partes I e II, a gestação e uma (possível) concretização desse mesmo projeto, alinhavando-o Elza Miné em nome de Batalha Reis. Seguem-se “Outras memórias” de Batalha Reis, como anunciadas no título deste volume.

 

Eça no Brasil

A produção escrita do autor português Eça de Queirós (1845-1900) sempre foi acompanhada por estudiosos de diversas áreas de atuação. No Brasil, a obra queirosiana recebeu – e continua recebendo – um número  significativo de leituras críticas guiadas sob prismas diferentes. (…).

O presente livro procura apresentar 0 papel da crítica literária  sobre Eça no Brasil, tendo em vista as perspectivas críticas e o processo de  construção da imagem do autor, a qual sofreu mudanças durante 0 século XX. Para desenvolver este estudo, 0 corpus e constituído por publicações em formato de livro, uma vez que ele exerce, na sociedade, um poder maior de legitimidade da produção intelectual. Além disso, em vista de sua extensão, propicia a análise crítica mais detalhada do que um artigo ou ensaio, colocando-se mais facilmente como referência para a reflexão acerca de um escritor.

Por conseguinte, busca-se, por meio dos estudos queirosianos publicados em volume durante 0 século XX, visualizar como a crítica, enquanto mediadora entre os produtos de bens simbólicos e 0 público, teve 0 poder de legitimar a obra de Eça no âmbito da cultura designada erudita, além de atuar como instância significativa na consagração desse autor juntamente ao público. Como nota Bourdieu (1974), é por intermédio da atuação da crítica que muitas obras entram para 0 cânone literário e Eça, apesar de ter caído no gosto popular, não fora exceção à regra e teve na crítica os mais árduos defensores de seu valor literário.

(Cristiane Navarrete Tolomei, A Recepção de Eça de Queirós no Brasil. Leituras críticas do século XX. São Paulo: Scortecci, 2014, pp. 23-25).

Scan

Grupo Eça

O Grupo Eça tem por finalidade estudar a obra do escritor português Eça de Queirós, assim como sua fortuna crítica. Privilegiando uma abordagem de fundamentação marxista, mas aberto a outras abordagens, o grupo pretende reler a obra queirosiana, tomando por pressuposto que o autor de Os Maias foi sempre um crítico ferrenho da burguesia e da aristocracia portuguesas, mesmo em seus últimos trabalhos. Além disso, o grupo também pretende discutir as leituras canônicas do escritor, que, a partir de certas fases de sua obra, fizeram dele ora um autor romântico, ora um aristocrata fin-de-siècle, ora um estilista da língua portuguesa, entre outras personas que lhe foram atribuídas (da apresentação do site)

Eça de Queirós, por David

 

 

Jacinto

Descendente de uma família aristocrática lusitana de grande fortuna patrimonial, Jacinto, o protagonista formal do romance semipóstumo de Eça de Queirós A Cidade e as Serras, publicado em 1901, habita em Paris um luxuoso palacete, localizado no n.º 202 da Avenida dos Campos Elísios. O seu avô, conhecido em Lisboa por D. Galeão, miguelista convicto, tinha-se exilado voluntariamente em Paris depois do triunfo da Revolução Liberal; o derradeiro sobrevivente da estirpe não conhecia sequer Portugal, no momento em que o narrador homodiegético, o seu amigo Zé Fernandes, começa a relatar a sua história.

Casual ou estrategicamente, a narrativa de Zé Fernandes coloca imediatamente em destaque a fortuna do protagonista, colocando esse elemento acima de qualquer outro que, numa relação de amizade, poderia ter maior relevância. “O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival” (Queirós, 2008: 11). Segue-se a enumeração do património imobiliário, que cobre todo o país, e a descrição dos antecedentes familiares imediatos de Jacinto, passando pelo encontro do seu avô com o então infante D. Miguel, que o ajudou a levantar-se quando aquele escorregou numa casca de laranja. Depois da morte de Jacinto “Galeão”, a esposa, D. Angelina Fafes, recordando a tormentosa viagem de ida, nunca quis voltar a Portugal. O filho de ambos, o Cintinho, de saúde débil, faleceria ainda antes de a sua esposa, filha de outro exilado absolutista, ter dado à luz “o Príncipe da Grã-Ventura”, como Zé Fernandes chama ao seu amigo Jacinto.

Chegado a Paris para realizar estudos universitários, depois de ter sido expulso da Universidade de Coimbra, Zé Fernandes rapidamente se torna no maior amigo de Jacinto e no seu cronista. Há, no entanto, alguma ambiguidade (ou ironia) no discurso encomiástico com que o narrador caracteriza a personalidade e as ações do seu amigo, dando-se sempre destaque à fortuna pessoal, ao relevo social que esta lhe permite atingir, e à sua propensão para captar, no burburinho emanado pelas disputas científicas e filosóficas que caraterizavam o final do século XIX, sobretudo as Ideias Gerais.

(Continuar a ler)

(António Apolinário LourençoDicionário de Personagens da Ficção Portuguesa)

Figurações acacianas

Acácio por Bernardo Marques

Acácio por Bernardo Marques

Numa crónica publicada no jornal carioca O Globo, a 13 de novembro de 2015, Paulo  Nogueira Batista Júnior intitulava  “Conselheiro Acácio” uma prosa em que, a certa altura, escrevia:  “Uma homenagem ao Conselheiro Acácio (não sei se o leitor sabe quem é), aquele personagem do Eça de Queirós que proclamava o óbvio ululante com categoria impressionante” . Suponho que muitos leitores brasileiros saberão quem é o digno Acácio, tal como aceitarão, sem constrangimento, que ele salte da ficção onde o conhecemos para a realidade política brasileira (a personagem era invocada  a propósito dela); nesse salto para o nosso mundo, Acácio traz consigo atributos comportamentais que o cronista assinalou (o hábito de dizer “o óbvio ululante com categoria impressionante”) e talvez outros ainda que agora não importa referir.

arnaldo-ressano-1945

Por Arnaldo Ressano

Contribui para a agilidade com que o conselheiro dá aquele salto transficcional a sua reconhecida condição de tipo e o seu potencial de representação temática, segundo a expressão de James Phelan (em Reading People, Reading Plots. Character, Progression, and the Interpretation of Narrative. Chicago/London: The Univ. of Chicago Press, 1989, pp. 2-3), bem como o lugar estratégico que ele ocupa, na economia descritiva das personagens d’O Primo Basílio. O retrato que dele se elabora adota, com método impecável, os protocolos da doutrina realista: à descrição física (“Era alto, magro, vestido todo de preto…”) seguem-se aspetos do trajeto profissional (“Fora, outrora, diretor-geral do Ministério do Reino…”) e indicações sobre o seu perfil social, cultural e moral: “Os seus gestos eram medidos, mesmo a tomar rapé (…). Citava muito. Era autor. E sem família, num terceiro andar da rua do Ferregial, amancebado com a criada, ocupava-se de economia política.”

A facilidade com que reconhecemos o conselheiro Acácio e a naturalidade com que o convocamos para o nosso mundo e para o nosso tempo são favorecidas por testemunhos do próprio Eça, a começar pela conhecida carta que escreveu a Teófilo Braga, a 12 de março de 1878: o conselheiro é o “formalismo oficial” e  funciona transparentemente como epítome de uma mentalidade que transpõe as sempre porosas fronteiras da ficção. Esse impulso preserva nele uma nitidez de traços que faz de Acácio a personagem mais consensual, em termos iconográficos, de toda a galeria queirosiana: são incontáveis os artistas plásticos, com maior ou menor projeção, que fixaram, em diversas épocas, suportes e enquadramentos, a figura de Acácio. Alguns deles: Saavedra Machado, Alberto de Sousa, Lima Belém, Arnaldo Ressano, Fernandes da Silva, Leonel Cardoso, João Valério, Bernardo Marques, Rocha Vieira,  Santana e António.

Por Fernandes da Silva

Por Fernandes da Silva

Posto isto, pergunte-se desde já: aconteceu o mesmo com Carlos Fradique Mendes? Deixo a resposta para mais tarde. Prefiro agora insistir nisto: o conselheiro Acácio está connosco também através do cinema e da televisão: n’O Primo Basílio, filme mudo de G. Pallu, de 1922 (ator: António Pinheiro),  na versão de  António Lopes Ribeiro, de 1959, com Virgílio Macieira, e em outras ainda. Registo-as: El Primo Basílio (1934), de Carlos de Nájera (produção  mexicana); El deseo (1944), título sintomático, com realização de Carlos Schlieper (produção argentina, com César Fiaschi como Acácio, mas designado como “el juez”). E também na TV: uma versão da Globo, em 1988, com direção de Daniel Filho e Sérgio Viotti no papel de Acácio .

Muito tem, então, viajado o conselheiro, rasgando horizontes que estão para além do seu austero terceiro andar da lisboeta Rua do Ferregial. E pela língua também: o nome da personagem  entrou no nosso idioma e está dicionarizado: veja-se o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, o Vocabulário Ortográfico do Português  e o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, entre outros. O adjetivo acaciano (mais divulgado do que  o conselheiral que Eça usou) reporta-se precisamente aos atributos exibidos por quantos se assemelham a Acácio, derivando dele outros ainda, também registados: acacianismo, acacianista,  acacismo, acacismo, etc. Todos estes e também, no Dicionário Houaiss, o vocábulo acácio, como nome comum.

(Figurações queirosianas: a personagem n’A Correspondência de Fradique Mendes; conferência apresentada “II Encontro do Grupo Eça – O primo Basílio; São Paulo, 14 a 16 de set. de 2016; a publicar).

O Primo Basílio, real. de Georges Pallu (1922)

                                                  O Primo Basílio, real. de G. Pallu (1922)

 

%d bloggers like this: