Personagem d’Os Maias introduzida na ação do romance como amigo de juventude de Pedro da Maia, Tomás de Alencar é o poeta ultrarromântico cuja presença marca várias gerações ao longo da ação. Figura alta, magra e pálida, de cabeleira farta e «românticos bigodes» (cap. VI), Alencar apresenta-se invariavelmente vestido de negro; toda a sua pose transmite a atitude do poeta inspirado e melancólico.
Desde a primeira vez em que aparece (cap. I), é esta a imagem dominante de Alencar, definindo-se logo então o tipo de poeta e o estilo de vida que o caracterizam. A sua linguagem sempre rebuscada, efusiva como os seus gestos, é um elemento indicador não só da personalidade em causa mas também de uma atitude literária que deriva até degenerar no ultrarromantismo de que Alencar é o poeta por excelência no universo ficcional em que se encontra. A sua pervivência reflete, assim, a própria pervivência de uma mentalidade e de uma cultura que só nas últimas décadas do século encontram o desafio de uma nova proposta cultural (designada no romance como a Ideia Nova), desafio este que não leva a uma renovação, como o percurso do próprio Alencar o demonstra. Assim, o Alencar da terceira geração romântica empreende uma tentativa de adaptação a temas e a ideias emergentes; o episódio do sarau da Trindade (cap. XVI) evidencia o esforço algo caricato do velho poeta para cultivar uma poesia supostamente revolucionária, sem abandonar a retórica romântica.
Alguns dos sentidos fundamentais projetados nesta personagem: antes de mais, Alencar marca a persistência de uma mentalidade e de uma prática literária exaustas. Mais: a própria construção da personagem exagera até à caricatura as atitudes e convenções desta prática e de quem a cultiva. No final do romance, Alencar e todas as suas características (os longos bigodes, a grenha, a face escaveirada, o discurso empolado) ganham mais uma dimensão, notada por João da Ega; assim, na decadência de uma sociedade onde impera o esvaziamento das ideias e da vontade própria, Alencar destaca-se pelo que ainda há nele de autêntico. Nas palavras de Ega, «no meio desta Lisboa toda postiça, Alencar permanecia o único português genuíno.» (cap. XVIII). Com ele sobrevive, como ao longo de todo o romance, o romantismo que marca a vida pública portuguesa de uma boa parte do século XIX, dando sentido ao subtítulo d’Os Maias: episódios da vida romântica. Não por acaso, Eça foi acusado de na figura de Tomás de Alencar ter esboçado a caricatura de Bulhão Pato.

