Amaro, Padre

Personagem principal  do romance O Crime do Padre Amaro, Amaro Vieira é um jovem padre de origem humilde que, tendo  ficado órfão de pai e mãe muito cedo, foi educado e protegido nos primeiros anos de vida pela Marquesa de Alegros.  Após a morte desta, fica sob a tutela do padre Liset, incumbido de o enviar para o seminário aos quinze anos, a fim de ser ordenado.  Entretanto viveu em casa de um tio, conhecendo então alguns dos piores momentos da sua vida, uma vez que aí não usufruía do doce conforto e do carinho feminino a que estava habituado em casa da Marquesa de Alegros: “Desejava o Seminário como um libertamento” (cap. III). Como não lhe desagradava a ideia de ser padre,   Amaro   não  contraria as disposições do testamento da Marquesa de Alegros e faz-se sacerdote sem vocação.

Gael García Bernal em O Crime do Padre Amaro (2002) de Carlos Carrera

Gael García Bernal em O Crime do Padre Amaro (2002) de Carlos Carrera

São três os fatores essenciais que  condicionam a atuação de    Amaro  ao longo da narrativa: a hereditariedade, o meio e a educação.  Envolto, desde criança, por uma ambiência de saias e de sotainas, idealiza sensualmente a religião, chegando mesmo a idolatrar a imagem de Maria enquanto mulher, e compactuando, desde muito jovem, com este meio marcado pela beatice e pelos desvios religiosos.  Paralelamente e segundo a conceção naturalista, a educação indicia o seu comportamento desviante do futuro, na medida em que  se misturam em  Amaro  a sensualidade e a devoção religiosa.

O seu percurso como pároco está marcado pela sua permanência, durante um ano, em Feirão, onde conhece, pela primeira vez, a consumação da  sensualidade recalcada durante anos.  Cansado do desterro, recorre a D. Luísa (filha da Marquesa de Alegros), para que ela, por influências políticas, consiga a sua transferência para um local mais agradável.  A partir daqui os eventos sucedem-se, até culminarem na relação amorosa com Amélia.  Entretanto, perdem-se, no desenrolar dos acontecimentos,  valores e princípios fundamentais que deveriam reger o código moral do pároco: de início defensor  dos valores que lhe tinham sido, aparentemente, incutidos e ensinados durante a sua preparação teológica,  Amaro desvia-se deles e junta-se aos clérigos para quem apenas o conforto e oproveito próprios interessavam.  Deste modo   Amaro  tipifica  a decadência  que afeta a Igreja, na medida em que compactua com o abuso do seu poder institucional, até pela forma como  estabelece e mantém a sua relação com Amélia.

Ao longo de todo o romance,  Amaro  é visto como uma figura que constantemente peca, mas que vem a ser poupado no desenlace da intriga, na medida em que a “ira de Deus”  recai sobre  Amélia. O episódio final (cap. XXV) e a conversa que nele mantém com o cónego Dias e com o conde de Ribamar são, a este propósito, muito significativos.

 

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