Personagem d’A Cidade e as Serras que é também narrador homodiegético, desempenhando no romance a dupla função solicitada pela situação narrativa instituída. Assim, por um lado, Zé Fernandes constitui uma presença frequente ao lado de Jacinto, observando a vida deste em Paris, a sua deslocação para Tormes e consequente evolução. Nesse sentido, Zé Fernandes é uma personagem secundária, reiterando esse estatuto de secundariedade pelo modo como constantemente se refere ao amigo e protagonista: “o meu Príncipe”. Por outro lado, o facto de Zé Fernandes ser o narrador que testemunha e relata a vida do protagonista atribui-lhe uma relevância considerável, pois dele dependem as imagens (bem como os juízos afetivos e ideológicos) que de Jacinto e da história narrada se vão formando.
Sendo, em primeira instância, narrador mais do que objeto do relato, Zé Fernandes não faculta de si mesmo uma caracterização minuciosa e sistemática; o que dele conhecemos vai-se constituindo em função das suas reações e das apreciações que enuncia. Assim, sabe-se dele que fora estudante em Coimbra e daí mandado para Paris pelo tio Afonso Fernandes Lorena de Noronha e Sande , “quando aqueles malvados me riscaram da Universidade por eu ter esborrachado, numa tarde de procissão, na Sofia, a cara sórdida do dr. Pais Pita” (cap. I). Depois disso, Zé Fernandes encontra-se em Paris por três vezes: ainda estudante, como colega do jovem Jacinto; em 1887, sete anos depois de ter partido, de novo na companhia do amigo; mais tarde, quando Jacinto se acha já instalado em Tormes, numa visita rápida, no final do romance.
Enquanto personagem e durante as suas estadias em Paris (sobretudo na segunda, que é a mais longamente narrada), Zé Fernandes aparece como uma figura ao mesmo tempo estranha àquele universo e por ele, nalguns momentos, fascinada. Definindo-se a si mesmo repetidamente como “homem das serras”, Zé Fernandes reage quase sempre de forma crítica e em registo irónico às maravilhas e aos excessos da Civilização: muito significativo, a este propósito, é o seu reencontro com Jacinto e com o cenário super-civilizado do 202. Os aparelhos, as luzes elétricas, os elevadores, a imensa biblioteca, o luxo exuberante do 202 surgem, perante os olhos estupefactos de Zé Fernandes chegado das serras, como uma agressiva e incompreensível selva de Civilização, respondendo a necessidades e a exigências requintadas que o homem natural não conhece.
O discurso da personagem ao longo do romance, em diálogos por vezes inflamados com Jacinto, pronunciando-se contra a Civilização, assume a feição de uma interpelação de forte pendor dialógico e argumentativo. Muito significativo, a este propósito, é o episódio em que Zé Fernandes disserta, durante um passeio à Basílica do Sacré Coeur, sobre as ilusões da Cidade, vista à distância do miradouro; o resultado é que Jacinto, interlocutor quase silencioso, acaba por concluir: ” – Sim, com efeito, a Cidade… É talvez uma ilusão perversa!” (cap. VI).
De Zé Fernandes e enquanto personagem pode dizer- se que pouco evolui ao longo da ação. Já enquanto narrador, ele coloca-se numa posição singular, que lhe é consentida e mesmo estimulada pela sua relação com a história e com o protagonista. Cabe-lhe, com efeito, relatar o trajeto de Jacinto, sobretudo a evolução que neste observa, em parte como consequência do pendor argumentativo que ficou referido; daí que Zé Fernandes surja como voz ideológica, atravessada, é certo, por hesitações e mesmo contradições que a sua subjetividade explica, mas, de qualquer forma, como uma voz autonomizada em relação ao protagonista.
Os valores e significados fundamentais que se deduzem do discurso do narrador Zé Fernandes prendem-se, de um modo geral, ao grande sentido da regeneração existencial que em Jacinto se vai patenteando. O ceticismo de Zé Fernandes em relação aos supostos benefícios da Civilização urbana e a desmistificação das tensões e contradições (culturais, sociais, etc.) que ela consigo arrasta remetem para um sentido conclusivo de “perfeito e ditoso equilíbrio”, que é o de Jacinto revitalizado pela vida das serras. Assim, quando em Tormes Jacinto tempera a aridez da vida serrana (e o “fanatismo da Simplicidade”) com alguns objetos resgatados à Civilização, Zé Fernandes conclui: “Então compreendi que, verdadeiramente, na alma de Jacinto se estabelecera o equilíbrio da vida, e com ele a Grã-Ventura, de que tanto fora o Príncipe sem Principado” (cap. XV).

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/ 28 de Março de 2013not so bad!