Teodoro

Personagem central e narrador autodiegético da novela O Mandarim, Teodoro é um modesto burocrata, amanuense do Ministério do Reino, que vive uma existência apagada e medíocre na casa de hóspedes da D. Augusta. Uma noite, durante a leitura de um livro bizarro, aparece num capítulo intitulado “Brecha das Almas”  uma figura estranha e misteriosa (certamente o Diabo vestido de burguês), que o estimula a responder ao desafio formulado no livro que está a ser lido: trata-se de tocar uma campainha  e, com esse gesto simples, provocar a morte, na China, de um Mandarim riquíssimo que legará ao seu longínquo assassino uma imensa fortuna.

         Ao corresponder ao desafio, Teodoro desencadeia eventos em que desempenha o papel de vítima, mais do que o de herói: a fortuna do Mandarim traz consigo, afinal, o remorso que a morte de um inocente naturalmente acarreta; o resultado é que Teodoro não mais deixa de ser atormentado, durante a sua vida de luxo e opulência, pela  imagem do Mandarim morto. E nem uma viagem à China, para tentar compensar a família do morto, anula essa presença obsidiante.

O trajeto de Teodoro ao longo da história não é apenas o da evolução da sua vida, da modéstia inicial  à riqueza em que depois mergulha; também não se esgota esse trajeto na viagem à remota China, por entre cenários e figuras exóticas que, à época, fascinavam ainda a Europa. Esses são aspetos subsidiários da grande questão que Teodoro ilustra: a questão da responsabilidade moral do indivíduo, responsabilidade que se acentua quando estão em causa comportamentos à primeira vista inócuos, mas, afinal, carregados de consequências aparentemente vantajosas para quem os protagoniza. O que significa que, n’O Mandarim e através de Teodoro, problematiza-se também o papel da consciência moral, como instância de referência decisiva em todos os atos do indivíduo, tal como era postulado por  outra personagem queirosiana: o Dr. Gouveia d’O Crime do Padre Amaro. No caso de Teodoro,  a mensagem final que é enunciada afirma uma radical descrença no escrúpulo moral da pessoa humana: ao morrer, o narrador e protagonista conclui que «nenhum mandarim ficaria vivo, se tu, tão facilmente como eu, o pudesses suprimir e herdar-lhe os milhões, ó leitor, criatura improvisada por Deus, obra má de má argila, meu semelhante e meu irmão!» (cap. VIII).

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