Edição Crítica

1. O estudo do Espólio de Eça de Queirós (cf. Carlos Reis e Maria do Rosário Milheiro, A Construção da Narrativa Queirosiana. O Espólio de Eça de Queirós. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1989) pode considerar-se o ponto de partida e o motivo de inspiração que sustenta a Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós, em curso de publicação, desde 1992, pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
A edição crítica das obras de Eça de Queirós não persegue objetivos de divulgação literária. Do que se trata é de tentar corrigir desvios em parte favorecidos, reconheça-se, pela extraordinária popularidade de que beneficiou desde sempre Eça de Queirós. Não são, pois, intuitos de ordem comercial os que regem uma edição crítica. O grau de especialização que ela implica, o tempo de dedicação que requer e as exigências de apresentação gráfica que a atingem fazem de uma edição crítica uma tarefa de salvaguarda patrimonial; ela destina-se, assim, a estabilizar textos nalguns casos em acentuado estado de degradação, permitindo depois outras edições, essas sim servindo objetivos de divulgação cultural.

2. Desde os começos da sua história literária, Eça foi um escritor traumatizado pelo tratamento editorial das suas obras: refiram-se, por exemplo, os incidentes que rodearam a publicação da primeira versão d’O Crime do Padre Amaro, envolvendo dois dos mais caros amigos do romancista, Jaime Batalha Reis e Antero de Quental.
A partir d’O Crime do Padre Amaro, pode dizer-se que a história literária de Eça é indissociável do suceder de versões sempre superadas das obras que foi publicando. Os factos não permitem dúvidas: as obras que Eça reeditou foram normalmente objeto de novas versões, diferindo consideravelmente das iniciais. O Mistério da Estrada de Sintra e O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio, O Mandarim e A Ilustre Casa de Ramires reapareceram, de facto, substancialmente reelaborados; a exceção que A Relíquia constitui é por assim dizer “compensada” pela segura existência de versões prévias; e aos longos anos que demorou a redação d’Os Maias (não reeditados em vida do seu autor) não é estranho o árduo trabalho literário que as dimensões da obra permitem adivinhar.
Daqui chega-se a uma conclusão: Eça perfilhava uma atitude não só estética, mas também ética em relação ao seu labor de artista, atitude que não recuava perante a autocrítica, nem se desvanecia uma vez publicado um texto. A isto pode juntar-se a longa e árdua maturação de textos cujo aparecimento distava por vezes muitos anos do momento em que eram concebidos e anunciados, casos d’A Correspondência de Fradique Mendes e d’A Ilustre Casa de Ramires.
Deste modo, podemos inferir que, se Eça deixou não poucos textos inéditos, uns inteiramente, outros inéditos em livro, fê-lo decerto por predominantes razões estético-literárias. E o peso dessas razões parece tanto mais efetivo quanto é certo que este não foi um escritor que se tivesse confrontado com falta de editores ou com o desinteresse do público.

3. Os títulos a seguir indicados e a sua arrumação desenvolvem o plano editorial discutido e aceite pelos membros da equipa do projeto Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós. É o critério de género literário que rege esta arrumação, critério justificado pela sua coerência, pertinência operatória e adequação ao conjunto da produção queirosiana. Sendo certo, no entanto, que uma edição crítica pode pôr em causa não só o que se tem aceite como cânone das obras do autor, mas também a organização dos materiais que as integram, opta-se, de acordo com o referido critério de género, por novas arrumações, em especial no caso dos volumes de dispersos. Por outro lado, sendo muito diversos os problemas levantados por obras inteiramente revistas e publicadas pelo escritor e aqueles que são suscitados pelas obras póstumas e semi-póstumas, serão também diferentes as soluções propostas para o seu tratamento.
A indicação dos títulos que se seguem refere-se, no caso das obras não-póstumas, à última edição que se sabe ter sido revista pelo escritor. Nos restantes casos, são eventualmente propostos novos títulos. No que toca aos póstumos, refere-se a edição que se toma como referência de base, embora muitas vezes suscetível de ser posta em causa, quanto à lição que apresenta.
Estão assinalados com asterisco os títulos já editados e o respetivo editor.

I. Ficção
1. Não-póstumos
O Mistério da Estrada de Sintra
O Crime do Padre Amaro (1ª versão)
O Crime do Padre Amaro (2ª e 3ª vers.) * (Carlos Reis e M. do Rosário Cunha)
O Primo Basílio
O Mandarim * (Beatriz Berrini)
A Relíquia
Os Maias
Contos – I* (Marie-Hélène Piwnik)

2. Semi-póstumos e póstumos
A Correspondência de Fradique Mendes (Carlos Reis, Irene Fialho e Maria João Simões)
A Ilustre Casa de Ramires * (Elena Losada Soler)
A Cidade e as Serras
Contos – II* (Marie-Hélène Piwnik)
Lendas de Santos
A Capital! * (Luiz Fagundes Duarte)
O Conde d’Abranhos
Alves e Cia. * (Luiz Fagundes Duarte e Irene Fialho)
A Tragédia da Rua das Flores

II. Textos de Imprensa
Uma Campanha Alegre. De “As Farpas”
Textos de Imprensa – I * (Carlos Reis e Ana Teresa Peixinho)
Textos de Imprensa – II
Textos de Imprensa – III
Textos de Imprensa – IV * (Elza Miné e Neuma Cavalcante)
Textos de Imprensa – V * (Elena Losada Soler)
Textos de Imprensa – VI * (Maria Helena Santana)

III. Epistolografia
Cartas públicas* (Ana Teresa Peixinho)
Cartas privadas

IV. Narrativas de Viagens
O Egipto e outros relatos

V. Vária
Almanaques e outros dispersos* (Irene Fialho)

VI. Traduções
Philidor
As Minas de Salomão* (Alan Freeland)

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3 comentários

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