Carta de Fradique Mendes

Ao Senhor Diretor do Diário de Notícias

Califórnia, fins de janeiro

Senhor Diretor,

Respondo tardiamente ao seu pedido, recebido quando já me aprestava a partir dessas saudosas terras lusitanas que a distância torna mais doces e mais amenas. Tarefas urgentes têm-me desviado do dever de corresponder ao seu amável desafio, dever que agora gostosamente cumpro, sempre certo da sua bondosa tolerância. Pedia-me o meu amigo que lhe mandasse notícias desta América que, desde há dois séculos, tem atraído vagas de pioneiros e de imigrantes,  que fizeram sua  esta  Terra de Promissão. Como eles, boa e farta razão têm quantos olham ainda o Novo Mundo, como lugar fértil em sucessos de que se espanta o Velho Mundo, e não sem um frémito de inveja que bem se entende.

Mais ainda por estes dias, quando um novo presidente tomou as rédeas da mais poderosa nação do Universo, para regozijo de quantos nele veem o restaurador de uma Ordem e de um Poder perdidos. Das terras húmidas da Louisiana às planícies geladas do Minnesota e às faldas agrestes das Montanhas Rochosas, não são poucos aqueles que se deleitam a escutar a palavra fácil desse presidente que, de uma penada, resolveu varrer da vista dos seus fellow americans o estendal de desmazelos e de lascívias que têm debilitado estas terras outrora vigorosas.

Sobre estes e outros casos não preciso de entrar em detalhes. O Senhor Diretor e os seus fiéis leitores tomá-los-iam, muito justamente, por excessivos e até presunçosos. A agilidade com que as notícias hoje galopam pelo mundo, mais céleres do que boato em rumoroso bazar de Istambul ou do Cairo,  dispensa-me de falar com minúcia dos acontecimentos estupendos que esta grande nação tem vivido nas últimas semanas. Uma coisa tenho por certa: está a chegar a Hora, quero dizer, vem aí, e a largas passadas, o tempo de Redenção por que ansiavam muitos daqueles patriotas para quem o chapéu de aba retorcida, a bota de bico recurvo e, quiçá, o revólver expedito pendurado à cinta são emblemas de uma cultura, mais do que  atavios de circunstância. Porque essa América também existe  e sabe Deus com que energia!

Na distraída Europa estamos habituados a pensar que a América toda se espelha, com exatidão cristalina, na endinheirada Nova York, na Chicago espraiada à beira do grande lago ou na Califórnia do sol, das praias e da mundanidade de Beverly Hills. Erro e bem grosseiro! Há uma outra América, mais calada, menos vistosa e também menos amigável, uma América que também conta e que, se o meu Amigo permite o calembourg atrevido, faz a conta. Justamente: faz a conta aos impostos que paga, aos estrangeiros que chegam e aos empregos que saem – esses sacrossantos jobs que os americanos veneram.

Essa América profunda é exímia e pontual em fazer a barbecue no quintal, em  pendurar, com indisfarçado orgulho, a bandeira na varanda e, ao domingo, nunca deixa de cantar, com voz galharda e bem timbrada,  os salmos que o seu Pastor rege. É a América da tríade mágica God, my family and my country, a mesma que junta o rebanho familiar  em quinta-feira de Thanksgiving e adora aquela saudável comida a que nós, por maldosa ignorância, chamamos junk food – comida lixo! Essa é a América que se deleita na constante, às vezes cansativa invocação da family and friends, uma expressão que por aqui muito se ouve também, quem sabe se para espanejar o ranço  clerical daquela tríade, presente na memória de muitos dos nossos patrícios.  Não é  verdade que “o nosso Salazar” – como lhe chamava um meu saudoso tio açoriano – sempre proclamou, com uma suavidade cheia de sibilantes, a bondade da fórmula Deus, Pátria, Família?

Ora essa América profunda falou, quando foi “chamada às urnas”, como dizem os senhores amanuenses do ministério do Reino. Falou e o presidente eleito, de ouvido atento e sagaz, escutou. E o que escutou ele? Muito do que disse  à ansiosa nação americana e ao mundo boquiaberto, naquela sua arenga de 20 deste mês de janeiro, data que parece já pré-histórica, tantas e tão vivazes têm sido as novidades destes dias.

Nesse seu arrazoado, o presidente não mandou recados por ninguém: disse ele mesmo ao que vinha – e  ao que vem. Porque o senhor Diretor aprecia uma  síntese que  poupe a sua gazeta a maçadores circunlóquios, resumirei a sábia mensagem que nos foi arremessada com esta expressão textual: “America first!” E para que dúvidas não ficassem, a respeitável figura espetou o dedo e insistiu: “América first!” Quem não apreciará neste bondoso homem a virtude da clareza? Eu que muitas vezes me amofino quando o nosso pessoal político gagueja argumentos, sem decidir o que lhe vai na mente,  louvo a nitidez daquela mensagem tão transparente como  “as doces águas do Minho”, expressão que gulosamente colho do mavioso poeta Vidal. “America first!” Duas palavras singelas, mas quanta  profundidade e quanta verdade nelas se escondem! E também generosidade, Deus seja louvado! Porque, ao contrário do que disseram comentadores apressados, naquela frase não se esgrime nacionalismo, mas sim  abertura ao mundo. Abertura cuidadosa – mas abertura.

Responda o meu Amigo e, ao mesmo tempo, ajude-me a avançar nos semideiros do pensamento presidencial: o que se ensinava no compêndio de Geografia que no velho convento de S. Francisco acompanhou a minha adolescência estudiosa? Que por América se entende aquela alentada porção do mundo que vai da gelada Gronelância até ao traiçoeiro cabo Horn, por onde navegou o nosso valente Magalhães. Pois nesse continente de tão garridas gentes, todos cabem: o simpático canadiano e o descendente dos Navajos, o diligente agricultor de Wisconsin e o plácido mexicano  que esconde  a siesta debaixo do seu vasto sombrero, o peruano que habita os refegos dos Andes e o colombiano regalado com a fresca folha da coca, o nosso irmão brasileiro, sempre tão afetuoso,  e o orgulhoso argentino que cavalga pelos pampas. Esses todos e outros mais, que a bondade do Criador espalhou por aquelas terras pródigas. Como não entender naquela altaneira “America first!” o desejo ecuménico de todos envolver, com um abraço bem forte e bem caloroso, e de todos chamar para o abrigo da grande Casa Americana?

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É verdade que a mesma figura que isto proclama quer agora construir um muro, um grande e maciço muro, que demarque, com o rigor de uma linha traçada a lápis grosso, a fronteira com o vizinho México. Não poucos plumitivos, nesta América em que me encontro e por todo o mundo, têm verberado o projeto, pensando talvez que a grossa parede será defesa contra as investidas de um qualquer Pancho Villa renascido das cinzas. Puro engano! Depois de revolver na mente a ideia do muro, nela vejo só  vantagem e benefício que a todos encherão de gáudio, quando  a poeira assentar. A poeira que os trabalhos de construção hão de provocar, é claro, e mais aquela que a discussão, metaforicamente, sempre levanta.

Ajude-me o meu Amigo a argumentar. O que é um muro? Uma obstáculo que protege, mas também um empreendimento que fica, pelos séculos dos séculos, exibindo ao olhar incrédulo dos vindouros um testemunho  bem sólido  do engenho humano. Se o meu Amigo já viajou por essa China que tanto intriga o europeu, certamente recordará a impressão que lhe terá causado a Grande Muralha que corre do Mar Amarelo às paragens inóspitas da Mongólia. Para que ela pudesse existir, muitos séculos tiveram de passar e muita força de braços nela empenharam  milhares de chins, que assim puderam dar uma prova definitiva, se necessária era ela, da sua imensa paciência e da sua imensa capacidade de sacrifício.

Pois bem: impediu a Grande Muralha alguma conquista ou rechaçou alguma invasão? Não! Como ela, o muro – ou talvez já o Grande Muro – será não uma  empresa agreste e intolerante (como teimam em declarar algumas vozes que a baba do azedume inspira) mas o eco retumbante  do génio de um homem.  E assim, de uma assentada, o Supremo Arquiteto comete duas proezas:  cria incontáveis empregos (os tais jobs for the american boys) e lega ao futuro  uma obra sem igual. Tal como a sua  irmã chinesa, será ela admirada, com espanto incontido, pelos selenitas, esse simpático  povo que, das melancólicas paragens lunares, verá não apenas uma, mas duas construções  que glorificam o esforço humano. Isto para já não falar na sombra, bem fresca e bem acolhedora, que, de um lado e do outro, o muro há de oferecer ao texano encalorado ou ao indolente mexicano, ambos regaladamente defendidos do sol inclemente por esta que será maravilha sem par dos nossos tempos.

Parece-lhe isto, bom Amigo, pouca coisa? A mim não. Digo até que bem gratos devemos estar a estas eras e a estes homens que nos maravilham com tais falas e   com tais coisas! Passa-se isto numa América em que está viva ainda a lembrança  daquele outro aviso que, no seu tempo, um outro presidente soltou: a América para os americanos! Governava então os destinos da Europa a piedosa Santa  Aliança, com o severo Metternich à cabeça. Quando  suspeitou que o nariz inquieto do chanceler da Áustria se virava para estas paragens,  o atento James Monroe não hesitou e disse, bem alto e bem claro, que na América estavam acabados os tempos da colonização europeia. Na América e em todo o continente americano, entenda-se!

Depois disso, temos tido guerras e rebeliões, revoltas e insubmissões, mas a América manteve-se disciplinadamente fiel àquela doutrina. Será o “America first!” uma nova e atualizada versão do que disse Monroe, com a autoridade do founding father que também era? E até: será o brado “America first!” uma doutrina, com ponderado ideário e com pensamento elaborado? Não sei. Os tempos que correm vão pouco propícios para tais adivinhações, tão imprevisíveis e tão bruscos são os humores de quem agora governa a América. Mas sei (e isso me basta) que estamos protegidos. No discurso presidencial não faltaram, como é de uso nestas paragens, repetidos chamamentos ao bom Deus. “We will be protected by God”, disse o presidente. Muito precisamos dessa proteção – e precisamos dela até mesmo para nos protegermos dos protetores!

Que ela nos não falte, com a bondade que sempre acompanha a Providência divina, eis o voto que formulo, meu distinto Amigo, quando me despeço, com a cordialidade que lhe vota este seu

Carlos Fradique Mendes

 

 

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Carta ao Ministro da Educação

Ao Senhor Ministro Tiago Brandão Rodrigues

 Paris, rue de Varennes, fins de maio

Perdoará, Senhor Ministro, que eu lhe escreva esta carta tão urgente como inesperada, uma vez que nos não  conhecemos e certamente nunca nos cruzaremos na vida breve a que estamos condenados. Faço-o, contudo, a instâncias de um amigo que, de passagem por Portugal, teve notícia de factos  que a imprensa internacional tem noticiado, com justificado espanto e preocupação.

O caso é que este meu amigo, sempre zeloso do Bem Público e do sossego das famílias, se Retrato_oficial_Tiago_Brandão_Rodriguesapercebeu de que medidas que o Senhor Ministro ultimamente tem tomado fazem perigar a serenidade de jovens estudantes que, até agora, confiavam na sensatez e sobretudo na magnanimidade dos poderes públicos do meu distante país.  Aqui onde me encontro, tenho dificuldade em perceber exatamente o que se passa, quanto à arrastada querela do financiamento público do ensino privado; por isso, peço-lhe desde já, Senhor Ministro, que releve aquilo que nesta bem intencionada carta não aderir à “realidade real das coisas” de que falava a saudosa figura cujo nome me dispenso de mencionar,  tão conhecida é ela.

Segundo aquele meu amigo, o ministério em cuja cadeira o Senhor Ministro tem o assento mais confortável está a condenar à negra miséria dos proscritos alguns milhares (garante-me o meu confidente) de crianças e de adolescentes dessa terra portuguesa que ambos desveladamente amamos. E porquê? Porque os dinheiros públicos que têm alimentado algum do ensino privado português  são agora avaramente regateados pelo poder político. Ao que parece, até agora esses dinheiros  estavam seguros e engavetados, como dádiva  generosa de governantes que, precedendo o Senhor Ministro, haviam entendido que o Estado deveria  encaminhar para o ensino privado uma parte importante dos cabedais que os contribuintes lhe confiam.  Na opinião de alguns dos meus compatriotas, certa e avisada era essa drenagem dos nossos dinheiros, pois que no ensino público campeavam (e campeiam!) um tal desmazelo e uma tal imoralidade, que só mesmo com medidas extremas seria possível resguardar o tal sossego que a todos preocupa, mas a que só alguns têm acesso.

Carlos Fradique Mendes por António

C. Fradique Mendes, por António

Talvez o Senhor Ministro pense que, ao falar em proscritos da Educação, estou a exagerar. É possível. A verdade, porém, é que as imagens que aquele meu amigo me transmitiu são inquietantes, reforçadas como estão por testemunhos de progenitores cuja aflição não invejo, mas respeito. Segundo esses testemunhos, por causa da azeda maldade do Senhor Ministro muitas crianças serão obrigadas a abandonar o ninho escolar onde têm sido acarinhadas e ficarão, enfrentando chuvas inclementes e ventos gélidos, desprovidas de ensino, para todo o sempre. Remetidos ao mais cruel abandono, estes inocentes rebentos serão, ao que parece, privados da aprendizagem de elementares operações de aritmética, da leitura dos nossos mais maviosos poetas, do conhecimento das leis da Física e do exercício mental a que os sinuosos raciocínios da Lógica nos convidam.

Dirá o Senhor Ministro que não é bem assim e que a muitos desses deserdados bastará atravessarem a rua ou percorrerem algumas centenas de metros para que tais mutilações sejam resolvidas. Ora isto é um engano e bem falaz! É que (e lamento ter de o lembrar) há diferenças flagrantes entre o colégio deste lado da rua e a escola pública que, do outro lado do asfalto, negreja. Nesta, há aulas, professores, alunos de várias etnias, diferentes condições sociais, variados níveis de desenvolvimento económico e até mesmo, quando calha, crianças a necessitarem de apoio especial. Uma série de maçadas, em suma! Pelo contrário, do lado de cá da rua há outra coisa: há projetos educativos.

E o que é um projeto educativo, perguntará o Senhor Ministro? Não sei bem, confesso-o com um embaraço que me envergonha. Suponho, contudo, que um projeto educativo corresponderá  ao propósito de ensinar bem, de formar jovens para a vida, de dedicar a atividade docente à nobre missão de fazer crescer os alunos que cada professor tem como seus. É isso exclusivo das tais escolas privadas?  Ignoro. Necessitam elas, para bem o realizarem, dos nossos preciosos dinheiros? Se assim for, que mal tem isso, Senhor Ministro?! Dir-se-á que na escola em frente se procura fazer o  mesmo, com alunos que não são escolhidos “a dedo” (com perdão pelo plebeísmo) e em condições de trabalho que os  dinheiros públicos pouco têm ajudado. Mas isso, Senhor Ministro, são pormenores a que só  espíritos malevolamente críticos dão atenção, sobretudo por ignorarem aquilo que uma sábia tia minha sempre dizia: que toda a vida haverá ricos e pobres! Máxima que, naturalmente, não me atrevo a transferir para esta penosa questão – mas que de vez em quando me faz pensar…

Os protestos a que esta disputa tem dado lugar não têm sido edificantes, mas não deixam de ser (passe a ironia) muito educativos. De tudo se tem visto, diz-me o tal  amigo que me dá conta destes sucessos – e com imagens! Nessas imagens predomina o amarelo, cor bem gritante e expressiva. Cor, todavia, cujo significado oculto tenho dificuldade em alcançar, quando a vejo associada àquelas instituições de ensino  que em Portugal se desenvolveram nos últimos anos como cogumelos em húmida terra  adubada pelo erário público. Diz-me um velho dicionário de símbolos que o amarelo é cor expansiva e quente, evocativa dos raios do sol e do poder das divindades do Além. Cor do ouro, também, e por isso lembrando episódios  como o da chuva dourada de que o engenhoso Zeus tomou a forma, quando quis fecundar a esquiva Danae. Terá sido nisso que pensaram os prosélitos da causa, quando escolheram o amarelo como  emblema para o seu combate? Não posso afirmá-lo com absoluta certeza.  Temo, contudo, que, na pressa com que os tais prosélitos escolheram as suas vestimentas, não tenham sido cogitadas variantes menos nobres do dourado ardil usado pelo pai dos deuses. Honni soit qui mal y pense!

Por fim – e sempre guiando-me pelos comentários do meu amigo e confidente –, parece que algumas mentes mesquinhas têm criticado o apoio que a Igreja Católica vem dando à cruzada em favor do ensino privado. Em vez de dar ouvidos a essas vozes roufenhas de azedume, o Senhor Ministro deveria pôr os olhos, com atenta concentração, em tal apoio. E indagar as suas causas. Tão natural é ele que, por não desejar  ofender  a sua cultura,  me dispenso, Senhor Ministro, de explicar a sua razão de ser. Lembrarei apenas isto:  como a História de sobra nos ensina (tanto em escolas públicas como em escolas privadas, suponho), sempre a Igreja Católica tem estado do “lado certo da vida”, expressão que há alguns anos aprendi, em conversa inesquecível com uma figura de impecável formação moral. Sabemo-lo pelo menos desde o século XVI, quando  começaram a ser justa e metodicamente perseguidos quantos se atreviam a dissentir de coisas tão óbvias como o movimento do Sol em torno da Terra.  Vimo-lo depois quando, mais tarde, um obscuro historiador ousou pôr em causa a verdade do milagre de Ourique. E fico-me por aqui, porque me escasseia o espaço e a ao Senhor Ministro, por certo, a paciência.

Não será o caso agora, mas isso não torna menos eloquente nem menos expressiva a palavra da nossa digna Conferência Episcopal. Foi ela que, ainda recentemente, veio lembrar o “direito constitucional da liberdade de ensino”, a isto acrescentando o seu severo apoio a iniciativas que “defendam a liberdade dos pais escolherem a escola e projetos educativos que desejam oferecer aos seus filhos”.

Permita-me que insista, Senhor Ministro: atente nestas ponderosas palavras e, apesar da juventude que para alguns é um seu defeito, perceberá qual o tal “lado certo da vida”. Um curto texto em que por duas vezes se fala em liberdade é certamente lúcido e avisado, vindo de quem vem. Mais: a preocupação com a lei constitucional que nele aflora não é menos, digamos, instrutiva, até por ser bem sabido que, nos últimos e difíceis anos que os portugueses têm vivido, sempre a Igreja Católica teve a dita lei debaixo de olho. Já a utilização do verbo “oferecer” pode levantar algumas dúvidas, pois que nem todos temos a argúcia exegética que é apanágio de qualquer eclesiástico encartado. E assim, uma leitura literal daquela traiçoeira palavra pode deitar a perder boas intenções que, acredito, até no Paraíso existem.

Certo de que estes sinceros e sentidos apelos não cairão no saco roto de uma indiferença jacobina, apresento-lhe, Senhor Ministro, os meus respeitosos e solidários cumprimentos.

 Carlos Fradique Mendes

 

 

 

Fradique e Eça

Afinal de contas, quando nasceu Fradique Mendes? E, numa expressão  deliberadamente ambígua, como foi ele concebido?

Anos depois do affaire antropófago, ressurge Carlos Fradique Mendes. O mesmo? Vamos por partes, porque a “ressurreição” de Fradique tem várias facetas. As  cartas a Oliveira Martins vêm a ser os lugares privilegiados para o anúncio do renascimento de uma figura agora, apesar de tudo, mais séria. Digo desde já: o segundo Fradique Mendes, chamemos-lhe assim, está no caminho que leva aos heterónimos pessoanos e, antes deles, por coincidências apreciáveis, ao semi-heterónimo Bernardo Soares. Não são irmãos,  mas são da mesma família.

Vejamos os factos: em meados de 1885, Eça de Queirós propõe a Oliveira Martins a publicação de “uma série de cartas sobre toda a sorte de assuntos, desde a imortalidade da alma até ao preço do carvão, escritas por um certo grande homem que viveu aqui há tempos, depois do cerco de Troia e antes do de Paris, e que se chamava Fradique Mendes!” E acrescenta: “Não te lembras dele? Pergunta ao Antero. Ele conheceu-o”. Claro que sim:  foram cúmplices e  ambos eram açorianos. Ora este Fradique Mendes, “homem distinto, poeta, viajante, filósofo nas horas vagas, diletante, e voluptuoso (…) morreu”. Nada melhor, diz Eça a Oliveira Martins, para celebrar esta personalidade do que publicar-lhe a correspondência.

Em 1888, ano em que publica Os Maias, Eça de Queirós volta a escrever a Oliveira Martins, mas agora vai mais longe: não é possível “editar a correspondência de Fradique, sem a preceder de um estudo sobre esta singular personalidade”. Assim mesmo, “um estudo”. Aparentemente, Oliveira Martins não percebeu  o que aqui estava em causa e Eça teve de se explicar. Assim:  “A introdução a «Cartas que nunca foram escritas por um homem que nunca existiu, não podia deixar de ser uma composição em que se tentasse dar a esse homem, primeiramente, realidade, corpo, movimento, vida”. Repito: dar “realidade, corpo, movimento, vida” a um “homem que nunca existiu”.

É esta a certidão de nascimento literário de Carlos Fradique Mendes, datada de 12 de junho de 1888, como está na carta de Eça a Oliveira Martins. Exatamente: 12 de junho, véspera daquele 13 de junho do mesmo ano de 1888 em que nasceu uma criança depois batizada como Fernando António Nogueira Pessoa. E assim, por 24 horas apenas, Fradique antecipou-se a  Pessoa.

Fradique Mendes tem uma biografia, uma formação, uma poética e um pensamento próprios e  autónomos em relação a  quem o concebeu. Pelo tal “estudo”, sabemos que Fradique  nasceu na ilha Terceira, que “pertencia a uma velha e rica família dos Açores” e que ali foi criado por uma avó  extravagante. Dessa D. Angelina Fradique diz-se  que era uma “velha estouvada, erudita e exótica que colecionava aves empalhadas, traduzia Klopstock, e perpetuamente sofria dos «dardos de amor»”.  Depois de frequentar uma escola  chamada Terceirense e de receber uma “primeira educação (…) singularmente emaranhada”, aos dezasseis Carlos Fradique Mendes é despachado para Coimbra. Pelo critério de Dona Angelina, a Universidade de Coimbra era  “um nobre centro de estudos clássicos e o derradeiro refúgio das humanidades.” A verdade, segundo constava na ilha, era outra: “apesar dos sessenta anos que lhe revestiam a face de um pelo mais denso que a hera de uma ruína, [D. Angelina] decidira afastar o neto – para casar com o boleeiro.”

Em Coimbra, Carlos Fradique pouco estudou. “Tocou guitarra pelo Penedo da Saudade, encharcou-se de carrascão na tasca das Camelas, publicou na «Ideia» sonetos ascéticos, e amou desesperadamente a filha de um ferrador de Lorvão.” A seguir,  “foi para Paris estudar Direito nas cervejarias que cercam a Sorbona, à espera da maioridade que lhe devia trazer as heranças acumuladas do pai e da avó”.

O resto é mais ou menos conhecido: lançado no mundo, Fradique foi viajante e esteta, dândi e poeta reservado, aventureiro e putativo autor de prosas inéditas, companheiro de Garibaldi e confidente de Victor Hugo. Tudo isso e também amante de mulheres magníficas: da “gloriosa Ana de Léon, a mais culta e bela cortesã (Vidigal [o amigo e patrício de Fradique] dizia «o melhor bocado») do Segundo Império”; da misteriosa Madame Lobrinska,  legatária  dos seus papéis;  e, acima de todas elas, de Clara,  dona de uns  “olhos finos e lânguidos”, que a  Carlos Fradique Mendes mereceram a mais  admirável carta de amor que a língua portuguesa já conheceu.

Tudo isto sabemo-lo pela  introdução d’A Correspondência de Fradique Mendes, o tal “estudo” que é mais do que isso:  trata-se de uma biografia, bem documentada e bem atestada, para que dúvidas não fiquem acerca da existência (“realidade, corpo, movimento, vida”) desta figura. Quem nessa biografia nos fala é uma voz não identificada, que  só por distração poderíamos confundir Eça de Queirós. Trata-se, isso sim, de  alguém que muito bem conheceu Fradique Mendes  e que  o revela aos seus concidadãos,  pela publicação das cartas. “Nos tempos incertos e amargos que vão”, diz o biógrafo, “portugueses destes não podem ficar para sempre esquecidos, longe, sob a mudez de um mármore.” Assim é, de forma que bem podemos dizer que está nestas “Memórias e Notas” a substância de que se faz a recordação de um mestre. Como Alberto Caeiro o foi para Álvaro de Campos.

(“Conversa entre heterónimos”. “Tudo Língua”, Coimbra, 4.12.2015. Por ocasião do Congresso Internacional “Língua Portuguesa: uma Língua de Futuro”).

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 Foto de Frederico Batista, cedida pelo jornal Público

Dois Fradiques

Quem é este Carlos Fradique Mendes de quem  falamos a propósito da língua portuguesa? Cito palavras de Eça de Queirós, numa carta a Oliveira Martins: Fradique foi um “verdadeiro grande homem, pensador original, temperamento inclinado às ações fortes, alma requintada e sensível… Enfim, o diabo!” Chega isto para conhecermos esta espécie de heterónimo que depois reaparece noutra carta, escrita, como aquela, no ano mágico de 1888? Talvez não, até porque,  duas linhas antes, Eça dissera: “Fradique, no nosso tempo, era um pouco cómico”. Afinal, havia outro.

Para encontrar esse outro, recuo uns vinte anos e leio o que vem na Revolução de Setembro (jornal influente, já se sabe) de 29 de agosto de 1869: “Habitando Paris durante muitos anos, conheceu o Sr. Fradique Mendes pessoalmente a Carlos Beaudelaire [sic], Leconte de Lisle, Banville e a todos os poetas da nova geração francesa”. Um Fradique bem relacionado, como se vê e, aparentemente, afrancesado (mas quem o não era, nesses tempos?). Só que este Fradique ia mais longe. De novo a Revolução: “O seu espírito em parte cultivado por esta escola é entre nós o representante dos satanistas do norte, de Coppert, Van Hole,  Kitziz, e principalmente de Ulurus, o fantástico autor das Auroras do Mal”.

Eram  quase risíveis  alguns dos títulos que a Revolução de Setembro anunciava: A Guitarra de Satã, Boleros de Pã e Ideias Selvagens, “três vastas epopeias” garantidamente já prontas a ler; e nelas, poemas bizarramente intitulados “Os beijos no Calvário” e “O testamento do abutre”. Apetece dizer aquilo que  mais tarde será escrito: “Éramos assim absurdos em 1867!” O ano, já se disse, não era 1867, mas 1869 e a diferença não é inocente. Pouco importa, contudo, porque o espírito do absurdo e da paródia  estava lá e bem vivo. Quem o alimentava eram o jovem Eça, mais Antero de Quental e Jaime Batalha Reis. E  a mistificação deu frutos:  houve quem procurasse  os livros dos tais “satanistas do norte”. Debalde:  Coppert, Van Hole,  Kitziz e Ulurus apenas existiam na bem fértil imaginação  dos três amigos.

Não direi que este é um “Fradique em botão”, mas é claramente um “primeiro Fradique Mendes” e já quase um heterónimo coletivo. Mas não nos apressemos: falta andar algum caminho na estrada que conduz ao heteronimismo pessoano, um caminho feito também de trabalho sobre a língua literária. Se Eça de Queirós parece tentado a ir por aí,  não o faz logo nesses anos 60 e já em vésperas de  uma outra provocação: O Mistério da Estrada de Sintra, romance epistolar (mas isso  só depois se soube)  composto em 1870  com o amigo Ramalho Ortigão.

É  no Mistério que reencontramos Fradique Mendes,  mencionado numa carta da misteriosa condessa W. Numa reunião mundana  Fradique Mendes  faz-se contador de proezas bizarras e  repulsivas. “Sentado num sofá com um abandono asiático, estava um homem verdadeiramente original e superior, um nome conhecido – Carlos Fradique Mendes”, diz a  condessa do Mistério. E acrescenta: “Fora amigo de Carlos Baudelaire e tinha como ele o olhar frio, felino, magnético, inquisitorial.”

De novo, Baudelaire. Mas agora há mais:  Fradique (diz ainda a  a condessa) “tocava admiravelmente violoncelo, era um terrível jogador de armas, tinha viajado no Oriente, estivera em Meca, e contava que fora corsário grego.” Sublinho: “contava que fora corsário grego”. Fradique já não é só poeta de versos por conhecer; ele é também contador de histórias. Uma dessas histórias é a de uma amante antropófaga que, no ardor da paixão, lhe ia levando um braço.  Palavras de Fradique, perante um auditório estupefacto: “A pobre criatura (…) untava os cabelos com um óleo ascoroso. Eu seguia-a pelo cheiro. Um dia, exaltado de amor, aproximei-me dela, arregacei a manga e apresentei-lhe o braço nu. Queria fazer-lhe aquele mimo! Ela cheirou, deu uma dentada, levou um pedaço longo de carne, mastigou, lambeu os beiços e pediu mais. Eu tremia de amor, fascinado, feliz em sofrer por ela. Sufoquei a dor, e estendi-lhe outra vez o braço… (…)  Comeu mais (…), gostou e pediu outra vez.”

Não se sabe até onde chega o repasto. O que se sabe é que este Fradique fica por aqui. Como quem diz: chega de paródia,  porque os anos 70 serão, para Eça, anos de construção de personagens a valer e não de congeminação de heterónimos, mesmo que “em botão”.

(“Conversa entre heterónimos”. “Tudo Língua”, Coimbra, 4.12.2015. Por ocasião do Congresso Internacional “Língua Portuguesa: uma Língua de Futuro”).

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 Foto de Vera Moutinho, cedida pelo jornal Público

 

 

Fradique Mendes e Bernardo Soares (2)

Bernardo Soares e Carlos Fradique Mendes – ou melhor, Jerónimo Pizarro e Carlos Reis –  encontraram-se para uma conversa na Biblioteca Joanina, para o encerramento dos 725 anos da Universidade de Coimbra (UC). Com um saco de pano vermelho que comprou numa livraria de Madrid que se chama “Tipos Infames”, o especialista em Fernando Pessoa Jerónimo Pizarro apresentou o que se ia passar a seguir. “Somos dois tipos infames a falar de outros dois tipos infames que poderiam ser o Bernardo Soares e o Fradique Mendes ou semi-infames por serem semi-heterónimos e pensemos que esta é uma conversa a dois sobre duas personagens que estamos a tentar aproximar.” [continuar a ler e ver vídeo]

Isabel Coutinho, Vera Moutinho e Frederico Batista, Público [online], 7 de dezembro de 2015.

 

 

Fradique Mendes e Bernardo Soares

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Carta Inédita de Fradique Mendes

A Madame de Jouarre

Lisboa, começos de setembro

Minha boa Madrinha:

Carlos Fradique Mendes António           Em veraneio por esta Lisboa encalorada, aproveito para lhe dar conta das novas e mandados com que esta capital do Reino nos tem brindado nos últimos tempos;  de sobra sei que a minha Madrinha não toleraria que outros lhas confidenciassem, mesmo  com zelo  semelhante ao meu. E como, mais do que o tremendo olhar de Medusa, temo o  sobrolho franzido pelos seus amuos,  aqui venho, pressuroso e obrigado, depor no seu regaço os tais mandados e as tais novas.

Não padeço  da loquaz coscuvilhice de bondosa comadre que a outra comadre revela os segredos da vizinhança; em vez disso, motiva-me o esforço que há longo tempo venho fazendo para entender Portugal e os portugueses. Não é tarefa ligeira, posso assegurar. Coisas que aqui se passam dificilmente encontram parecença com proezas que a História  desveladamente guarda, bem aferrolhadas sob o pó dos seus arquivos  e nos ponderosos volumes que lhes consagrou.  No século que foi o meu, pude testemunhar acontecimentos tão extraordinários como as revoluções que em 48 mudaram o curso secular da velha Europa, a guerra da Crimeia, a ira do grande Hugo contra Napoleão le Petit, a navegação do Suez e o desastre da Comuna. Nada  se compara, contudo,  com  episódios  que nas últimas semanas têm agitado o dia a dia da minha Pátria e dos meus patrícios.

Saberá a minha madrinha que os portugueses têm vivido, nos últimos meses, com a angustiada preocupação de saberem qual será, por fim, o destino de um certo político que durante  anos os governou. Aparentemente em vias de ser acusado de malfeitorias que, jura ele e juram os seus competentes causídicos, jamais cometeu, este homem representa bem, et pour cause, aquilo a que os plumitivos de serviço chamam, com a originalidade que os distingue, a “classe política”. Segundo os meus concidadãos, pertencem a essa “classe” todos aqueles que, intrigando no Parlamento, discreteando em gabinetes ministeriais ou travando esganiçadas batalhas eleitorais, persistem em pôr alguma ordem (ou o que eles entendem como tal) nesta minha terra de doce clima. Os meus compatriotas reservam a esta “classe política” o  desprezo que provém de pensarem, praticamente sem exceção que se conheça, que ela fervilha de “gatunos”; ou que, no dizer de uma minha serviçal,  “eles querem é governar-se”. Não trato de esmiuçar agora  se algum grão de  verdade alimenta estas conjeturas, porque o caso  que lhe ofereço nestas linhas desataviadas é mais flagrante – e bem apetitoso!

A figura de quem tanto se fala esteve encarcerada durante largos meses, por ordem de uma Justiça que, para uns, foi indolentemente branda, enquanto, para outros, tem mostrado mais crueldade do que Nero enfurecido com os primeiros Cristãos. Ignoro  qual das duas fações tem razão. Ignoro-o eu e ignora-o o professor Marcelo, coisa que sobremaneira me  conforta o sono porque assim me acho tutelado pela companhia perspicaz do grande Comentador. O que sei é que nunca a prisão de alguém – para mais um “político”! – agitou tantas emoções e desatou tantos comentários. Não há talvez um só português que não tenha já exarado sobre o homem um veredicto definitivo! Mesmo este seu dedicado afilhado, depois de laboriosas congeminações, vai engendrando uma convicção firme quanto às acusações que sobrecarregam os ombros da criatura. Nisto, devo acrescentar, somos todos  ajudados pelas gazetas (e em especial por um matutino com grande aceitação e esforçados informadores) que diariamente nos trazem  notícia de novas aleivosias e de novas cumplicidades, prontas a serem assacadas ao pobre arguido.

O caso que sobre todos os outros motiva esta minha epístola aconteceu há alguns dias e trouxe de novo a tal https-page0001personagem (mas não só ela!) para o centro daquilo a que os periodistas chamam “espaço mediático”. Tendo sido aliviado da  frieza do cárcere em que jazia, o nosso homem  foi colocado naquilo a que prosaicamente se chama “prisão domiciliar”, um conforto  que lhe dá direito a ostentar à porta (ou nas escadas, não posso precisar) um garboso polícia. Situada numa sossegada rua de Lisboa, a discreta casa que assim serve de “prisão domiciliar” foi objeto, desde logo, da voracidade noticiosa de jovens repórteres que, de câmara e microfone em punho, ali montaram um cerco mais tenaz do que o assédio que por dez anos sitiou os muros de Troia.

Acabou-se, pois,  a pacatez daquela rua e daquela casa, para gáudio da vizinhança (que legitimamente aspira a “aparecer na televisão”) e sobretudo do “Cantinho do Abade”, pitoresca casa de comidas e bebidas que ali está paredes meias com o tal domicílio. Com razão o  digno proprietário do “Cantinho”  esfrega já as mãos de contentamento, regalado com uma tão inesperada publicidade. E de facto, logo no princípio da noite em que este caso começou, estava a rua enxameada de repórteres;  ali foram eles conduzidos  por uma intuição luminosa, pois que de outro modo nunca saberiam quem naquela casa obrigadamente passava a residir e nem testemunhariam o que se  seguiu.

Imagina a minha madrinha que foi o tal político a colher a atenção dos  repórteres? Engana-se e  engana-se redondamente, como  os seus claros olhos poderão ver e rever! Quem ali foi entrevistado e minuciosamente filmado foi o expedito funcionário de uma empresa de pizzas! Nem mais, minha madrinha! O rapaz da pizza, ostentando o seu  elmo de motociclista elegantemente descaído sobre a nuca, para que o seu rosto agora famoso ficasse bem à vista de todos.

Ao que parece, o tal político teve a veleidade de,  nas suas primeiras horas de quase liberdade, encomendar uma iguaria que lhe confortasse o estômago, desconsolado como estava pelos   meses em que teve de se contentar com as austeras ementas prisionais. Em má hora o fez  – para ele, porque acabou por ficar sem a encomenda. Mas em boa hora o decidiu, para o tal mancebo, que é hoje uma figura famosa para uma boa parte dos portugueses que seguem estes  incidentes com atenção gulosa.

https 3-page0001           Adivinho daqui a sua perplexidade e bem compreensível é ela. Não há, com efeito, palavras que decentemente relatem os cinco minutos de fama que o Destino  reservou a um jovem até então mais estranho às massas do que para mim o é a remota gramática do sânscrito; só mesmo o grande Balzac e a  pena com que ergueu, para nossa ilustração, todo um mundo de carateres e de paixões, só  ele poderia descrever com precisão e com verdade o rosto atónito e quase divertido  do moço metido em tais apertos. Limito-me, por isso, aos breves traços que a minha inépcia de cronista improvisado consente.

Ao chegar à porta  número 33, com o intuito de entregar a sua mercadoria, e não tendo tido a  intuição dos repórteres  (e, portanto, desconhecendo não ao que ia, mas a quem ia…), foi o moço prontamente intercetado por câmaras de filmar, por microfones  sequiosos e por  perguntas em catadupa: quem  tinha feito a encomenda?  A que andar iria ela subir? Sabia ele a quem os víveres se destinavam? E mais: que condimentos temperavam a pizza? Perante estas ingentes questões, o rapaz olhou com desconfiança risonha aquele bando de perguntadores e só pôde manifestar a  inocente surpresa de quem inopinadamente se vê em semelhantes assados.  De todas as perguntas só encontrou resposta para uma: a pizza era de extra-queijo e pepperoni,  uma  informação, minha madrinha,  que os historiadores e os sociólogos que atentamente nos esperam lá no futuro não se atreverão a descurar. Extra-queijo e pepperoni! Adivinho daqui os sisudos ensaios  que  os ditos sociólogos hão de compor,  achando-se na posse de tal informação; e imagino que surpreenderão  os vindouros com títulos tão suculentos como Hábitos alimentares em prisão domiciliar nos começos do século XXI; ou Influência do extra-queijo no Direito Penal e em sua arquitetura jurídica; e ainda, Indigestões de pepperoni em contexto de indagação criminal: novos contributos.  

A minha madrinha sorri, por certo. Mas não deixará de reconhecer que este jovem  que trago ao seu conhecimento page0001é, mesmo contra a sua vontade,  um benemérito digno da nossa efusiva gratidão. Sobejamente a merece ele, que mais não seja pela clareza com  que encerrou o episódio. Perguntado sobre se iria comunicar a impossibilidade de entregar a comida à sua cadeia (de produtos alimentares, como queria dizer a atabalhoada repórter), de pronto respondeu: “Cadeia? Esperem aí, eu não estou preso!”

Porque, por fim, a pizza não foi entregue e o extra-queijo e mais o pepperoni falharam o alvo a que iam dirigidos! Por lamentável esquecimento, faltava àquele Mercúrio das pizzas uma identificação que, bem nítida e bem eloquente, dissesse às forças da autoridade quem ele era de facto.  Deus sabe, terão pensado os espertos guardiões do número 33 e do seu residente, que engenhos e que artimanhas podem esconder-se nas vastas caixas de cartão  que levam as pizzas de porta em porta.

Assistindo a tudo o que bem imperfeitamente lhe narro, uma amiga minha, pessoa de invejável argúcia e dotes domésticos irrepreensíveis, afiançou-me que nada disto tem a verosimilhança de que outrora falava o velho Aristóteles. Segundo ela,  aquele número 33 a que se recolheu a ilustre personagem  estará mais do que fornecido de confortos e de mantimentos. A ser assim,  a entrega da pizza, garante a minha amiga,  teria resultado de uma  montagem não destituída de intenção publicitária.  Quem tal faria? A  cadeia (salvo seja) de comidas? Um provocador político? Um qualquer gracioso desejoso de fama momentânea? Não sei.

O que sei e convictamente sustento é que o meu alegre país está cheio de confortos que  lhe asseguram e a quantos tivemos a ventura de aqui nascer um lugar na História dos povos. Veja bem, estimada madrinha: somos servidos, de forma bem diligente e constante, por escribas e por repórteres preocupados com o nosso divertido bem estar e não com as chagas que a vida moderna reserva aos que a observam com o olhar bisonho dos pessimistas. E se pensarmos (como eu penso)  que os tais periodistas e os tais repórteres mais não são do que a ágil extensão (ou o braço armado, como diria o velho general Sequeira) da incompreendida e estoica “classe política”, então tudo se conjuga para que aqui desfrutemos daquela aurea mediocritas que os Antigos almejavam. Refugiados em debandada, crise demográfica, ameaças terroristas, bancos em rutura, colapso das bolsas, desemprego de jovens (e de adultos!), impostos que nos massacram, desconjuntamentos da velha Europa tudo isso é secundário, se  soubermos gozar a  existência amena que por estas gentes  nos é oferecida, com generoso  altruísmo.

E assim, a despreocupada vida que nos tocou em sorte bem livre está de coisas tenebrosas. Basta que  saibamos entreter-nos com os extra-queijos de uma pizza que errou o alvo! Não entendo mesmo por que razão persistem alguns espíritos  quezilentos em falar dos males que, segundo eles, nos atormentam, sempre ignorando os esforçados trabalhos do bem falante Coelho e do risonho Portas, a bem da Nação. Se mais não alcançar a bondade lusitana, bem merecem eles, no dia que a Providência o destinar,  ser  brindados também com uma pizza condimentada a seu gosto e bel-prazer. E mais: que tal pizza seja entregue, para castigo, por  um dos tais espíritos rabugentos, bem filmado pelos repórteres de serviço, para que a justa penitência  se espalhe e seja conhecida urbi et orbi. Quem sabe, por fim  aprenderão eles que o ódio azedo que destilam só contribui para infernizar os dias dos que nos governam e os de todos aqueles que têm a fortuna de assim ser governados.

Beija-lhe as mãos com  carinho,

Carlos Fradique Mendes

Carta de Fradique Mendes sobre as praxes

Ao Senhor Diretor da Gazeta de Paris

Fevereiro de 2014

Meu caro Amigo:

O meu fiel Smith acaba de me entregar, com a sua circunspeção de escocês austero, o bilhete em que o meu  Amigo me pede notícias acerca dos episódios que vêm abalando o meu país e que, cobertos pelo nome misterioso  de praxe, tanta comoção têm causado entre os meus patrícios. E contudo, temo  não ser capaz de lhe dar – e, por seu intermédio, aos leitores  da Gazeta – as informações sólidas e nítidas que tão ansiosamente me são pedidas. Em verdade digo que muitas coisas mudaram na saudosa Lusa Atenas, desde que deixei os bancos sonolentos da  alma mater coimbrã,  onde com deleitado gozo e não menor proveito colhi as lições que a facúndia dos lentes ditava.

Deseja o meu bom amigo saber que obscuras razões levam a juventude das Escolas  à prática metódica de ritos e de liturgias cujo alcance o comum dos mortais não entende e cuja oculta lógica menos ainda  atinge. De tal forma que, ainda recentemente, uma tragédia que consumiu a vida de seis jovens pôde ser atribuída às tais praxes, coisa sobre que não me alongarei, porque a esse silêncio me obriga o respeito por aqueles jovens e pelos que lhes são mais próximos.

logo3            Mas apesar de, no sossego do meu apartamento, me achar bem longe da  encantada e quase fantástica Coimbra, não deixarei,  caro Diretor, de  transmitir o meu sentir sobre tão premente assunto. Faço-o também  para tentar contrariar a gritaria que atravessa o meu pacato Portugal, exalada das goelas escancaradas de quantos querem, sabe-se lá com que oculto desígnio, acusar as tais praxes de serem malignas e perversas. E porque não houve praticamente ninguém, dos poderes instituídos (incluindo o sempre vibrante Dr. Portas!) aos periodistas mais opinativos, que se não pronunciasse sobre as ditas praxes, também eu me acho no direito de aqui exprimir o que delas penso.

Em que consistem, afinal, as  praxes?, ouço-o daqui perguntar. Em coisas bem singelas e bem inofensivas, que algumas vezes pude testemunhar, com risonha bonomia. Dois ou três jovens, alçados à posição confortável  de pedagogos da integração (palavra que muito temos ouvido e lido nos últimos tempos), vigorosamente convocam um rebanho de colegas mais jovens para posições e  para práticas que só a crassa ignorância dos não iniciados pode criticar. A esses estudantes mais jovens dá-se o ameno nome de caloiros – nome que o fervor   praxístico às vezes  substitui por outros, bem saborosamente vernáculos, que aqui não repetirei – e sobre eles recai a graciosa e jovial criatividade dos tais colegas mais velhos, a quem, com otimismo e generosidade, se chama doutores. E como se materializa  a tal criatividade?  Lambendo degraus de escadas,  gemendo coisas com voz esganiçada,  rastejando de cócoras e de quatro,  rolando por sobre lamas e por sobre águas paradas,  sendo pintalgado e salpicado com tintas flamantes e, quando calha,  simulando prazeres e gozos íntimos, com suspiros bem sugestivos.

Vê o meu amigo algum mal nestas coisas inócuas? Se vê, então não entende a suprema dádiva da integração que, lá bem  no fundo  dos seus executores, justifica as praxes. Pois é em nome dessa integração que tudo se explica. E bem justa é ela, porque é a  integração que permite aos agachados e aos pintalgados de hoje agacharem e pintalgarem os que  amanhã vierem, obrigando-os a deslizar de cócoras pelas escadarias da universidade, coisa bem adequada à sólida organização hierárquica que assim se celebra.

Argumentam alguns, com uma maldade de que deveriam envergonhar-se, que estas engraçadas ações revelam que os nossos jovens (o futuro da Nação, no dizer sempre eloquente do Senhor Conde de Ribamar) padecem de uma forma de regressão que, já em estado adulto, os reconduz à frágil idade mental da infância. Nada mais errado! O que pinturas no rosto, lambedelas em escadas e meiguices com colheres de pau mostram é a saudável inclinação da nossa mocidade para permanecer moça! E para, assim fazendo, resistir estoicamente àquela aborrecida e baça madurez que outra coisa não traz às nossas vidas que não seja maçada e  tédio. Bem fazem eles! E melhor andam quando, em boa parte por virtude (outro termo não tenho) das praxes, descuidam as sebentas que os lentes, com açodado zelo, para eles escrevinharam; e rejeitam-nas também porque prudentemente  adivinham que da leitura só podem resultar enxaquecas pertinazes e perigoso cansaço da vista.

Em todo o caso, as tais praxes pouco tempo acabam por consumir aos nossos dedicados estudantes universitários. Bastará resumir, meu bom Amigo, a semana típica de muitos deles, para que bem se entenda o absurdo de recriminações como as que destilam das mentes que malevolamente criticam estes inocentes divertimentos. A semana do estudante reduz-se hoje, quanto a estudo e a bocejante frequência dos bancos das aulas, a um só dia, a quarta-feira. É ela o meridiano que separa os dias em que  laboriosamente se prepara e vive o fim de semana, dos dias em que se descansa dos deleites do fim de semana passado, já com  incontido desejo daquele que se avinha.  Resta, em suma, pouco tempo para as praxes.

O meu Amigo espanta-se com estas coisas surpreendentes? Bem se vê que não conhece a hierarquia académica e a veneração que nela é votada aos seus preclaros líderes. No topo dessa hierarquia acha-se a figura do dux veteranorum, uma personagem cujos méritos provêm do louvável facto de ter, no seu currículo académico, muito mais matrículas do que anos aprovados! Quem despreza a perseverança com que se chega a tão alta dignidade  não conhece e menos ainda admira a veterania da figura que hoje, na vetusta Universidade de Coimbra, ostenta vinte e quatro matrículas (sim, meu Amigo, duas nutridas dúzias!), assim tendo acedido ao inefável estatuto de dux. Muitos o invejam, poucos o igualam, porque não é certamente fácil persistir, com zelo e com obstinação, nos labores (ou na sua ausência, não sei dizer) que conferem tão ambicionada distinção a um ser humano. E quem fala, a propósito do respeitável dux, em preguiça, desmazelo e cabulice, dá mostras de um vesgo desprezo pelas agruras de um duro trajeto estudantil, bem vivido e bem desfrutado.

Não insistirei nas virtudes das praxes para não abusar da  paciência do meu Amigo. Mas não termino sem relatar um caso e saboroso. Quando eu era caloiro (reles caloiro, como amoravelmente diziam os doutores), contava-se em Coimbra uma história cuja veracidade não posso, em bom rigor, asseverar. Segundo tal história, um respeitável lente de Direito, antigo ministro do doutor Salazar, teria sido intercetado por um grupo de estudantes – uma trupe, no dizer da Academia – que o praxou. Ou seja: a trupe castigou as veneráveis unhas do lente com uma rude colher de pau. Porquê? Porque, revestido do negro traje académico (o chamado hábito talar), o tal lente cometera a descarada transgressão de calçar peúgas de cor! Pois o que nesta história se gabava, com desvanecida unção, era a paciente aceitação do eminente jurista, perante tão embaraçosa punição. E essa aceitação o que provava? Que a praxe era coisa tão  estimável que até  um severo professor de Direito a aceitava, com submissa tolerância – o mesmo professor que, enquanto ministro, tutelara os eficientes e ríspidos tribunais plenários que despachavam para a justa escuridão de uma masmorra todo aquele que, por obtusidade ou por aleivosia, se atrevia a duvidar da bondade do regime  então vigente.

Por mim, depois de muito escarafunchar nos escaninhos do meu entendimento, atrevi-me a  achar coisa diferente. E o que pensei foi que a reação pacífica do lente mais não era do que a astuta legitimação de comportamentos hierarquizantes e conservadores, que muito convinham a uma universidade  empedernida na rigidez de tais comportamentos – e que, por conseguinte, o lente ajudava a preservar o que também a ele bem calhava. Mas talvez eu esteja errado; e  terá sido certamente por falha do meu embotado discernimento que não percebi, logo na altura, os tão óbvios méritos da praxe!

Creia-me, meu Amigo, seu dedicado e certo

Fradique

              P.S. Ainda este caso das praxes se não encerrou e já outro e bem suculento ocupa a discussão dos portugueses. Pois não é que quase todos eles (incluindo o Supremo Magistrado da Nação!) de repente descobriram  ser devotos da pintura de Joan Miró? Não tenho espaço, nesta carta, para detalhar tais arroubos; mas se o meu Amigo assim o exigir, cá estarei para tentar explicar este assomo de militância pela causa das artes plásticas, que de repente se abateu sobre o país onde florescem as laranjeiras, como tão inspiradamente disse o nosso Bulhão Pato.

 PRAXE DOS ESTUDANTES DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 290906 LUIS CARR

Nova carta inédita de Fradique Mendes

 A Madame de Jouarre

 Paris, Janeiro

Minha boa Madrinha:

A carta em que a minha madrinha me pede notícias de Portugal esperava-me no regresso de uma longa viagem pelos pampas e pelas repúblicas do Rio da Prata. Encontro-a agora, adormecida ao lado das gazetas que, vindas do meu país, me trazem, atrasadas e lentas, novas das terras e das gentes portuguesas e que, passadas duas semanas,  quase entraram já no regaço da História.

Fradique Mendes por António

Fradique Mendes por António

É razão – e bem ponderosa! – da sua curiosidade perplexa o chorado desaparecimento de um jogador de foot-ball, de seu nome Eusébio da Silva Ferreira, agora alçado a herói nacional,  com semelhante estatura à dos Gamas, dos Cabrais e dos Albuquerques, esses outros e já desvanecidos heróis  com que se ilustra a História do meu  Portugal. Não compreende a minha boa madrinha isso a que chama “une exagération assez bizarre”, porque lhe escasseia – e perdoe-me que lho diga com uma franqueza sempre envolta em afeto – o minucioso e documentado conhecimento  dos hábitos e  das mentes dos meus patrícios. É disso que me apresso a falar-lhe, informado como estou pelo que me dizem as tais gazetas, nelas luzindo, com o  esplendor do seu verbo marmóreo, uma carta do Senhor Conselheiro Acácio ao diretor do Diário de Notícias: nela, com palavras firmes e fortes, o austero Conselheiro  propõe a ida do tal Eusébio (ou do que dele resta) para o Panteão Nacional.

É essa proposta que está desencadeando acesa discussão em Portugal (os periodistas portugueses  preferem dizer “polémica”, sempre que um debate, ainda que pacífico, se instala na chamada praça pública). Não quero  pronunciar-me já sobre tão ingente questão, porque me falta explicar-lhe, com o carinho que sabe, duas ou três coisas sobre os modos de ser e de estar dos meus concidadãos, em particular quando se cruzam com a figura sinistra da Morte e com a temerosa ideia da Eternidade, sua parente próxima.

Os portugueses, minha boa  madrinha, são um povo atraído pelo desgosto e  pela celebração fúnebre. Nada os  une mais do que o passamento de alguém, anónimo ou conhecido, famoso ou obscuro: é nesse momento fatal que aquele que a malvada Foice  decapitou ganha qualidades que o próprio estranharia, se, lá para onde foi, pudesse saber como os que lhe eram afetos e sobretudo os que lhe foram desafetos,  lembram virtudes e esquecem defeitos, com uma celeridade que  enternece. E depois é ver, quando chega a hora do funeral, os rostos compungidos e as palavras  comovidas (autenticamente comovidas, afianço!) que a nunca gasta retórica  do desgosto nos dita.

Quando o morto é uma  figura pública, seja do mundo da política, seja das artes ou seja do desporto, então os discursos esmeram-se e as faces tornam-se mais sombrias, coisa que bem adensada é por uns oportunos óculos fumados, sempre de reserva para a decisiva hora do enterramento. E é ver então  quase todos quantos declaram o seu muito apreço e admiração pelo defunto, em esforços mal contidos para, na biografia do desaparecido, encontrarem um cantinho de convívio pessoal e de  bem testemunhado conhecimento das tais virtudes e glórias. No caso do finado Eusébio e como a minha madrinha vai ver, também tenho o meu recanto, ainda que bem estreito e modesto; mas mesmo que o não tivesse, poderia eu agora esfuracar, com método e paciência,  no passado do futebolista uma qualquer ocorrência  em que se tivessem cruzado as nossa vidas,  porque já cá não está quem poderia desmentir-me. Ainda recentemente tivemos disso mesmo exemplos bem tocantes, quando Mandela se foi: não faltaram em Portugal políticos com conhecimento direto e pessoal do herói que o mundo inteiro, em sonora e unânime  homenagem, evocou; de tal forma que cheguei a pensar que os longos e sofridos anos  que Mandela gastou numa masmorra cruel foram amenizados pelas visitas regulares dos que agora ostentam uma familiaridade, que muito invejo, com Madiba (assim dizem os tais, porque a isso os autoriza a intimidade que puderam ter com o herói de África).

Este Eusébio que aguça o interesse da minha boa madrinha foi, como sabe já, um futebolista e dos bons. Mas agora que ele partiu, descobre-se que não foi apenas um grande jogador, mas antes o melhor de sempre e não só de Portugal, mas do mundo,  dos tempos passados e até talvez dos tempos por vir. Esgotaram-se (positivamente esgotaram-se!), no nosso suave  e bem fornecido idioma, os adjetivos com que desvairadamente foram  elogiadas   as correrias e os feitos do grande Eusébio! Pela sua estátua (sim, porque ainda em vida este honrado cidadão teve direito a ela, coisa que Camões e Pombal por muito tempo e pacientemente aguardaram), pela sua estátua, dizia, desfilaram, aos milhares, anónimos portugueses,  reverentes e em pranto, não sendo poucos os que jamais viram o jogador Eusébio conquistar uma vitória “dentro das quatro linhas” – conforme competentemente dizem os plumitivos da especialidade.

Depois veio o funeral, sob uma chuva tão inclemente que o bom Pinheiro Chagas pôde escrever, com aquela argúcia só dele, que era o Céu que se debulhava em lágrimas pelo atleta   já  feito lenda. Poucas vezes, minha querida madrinha, um povo inteiro se uniu em torno de uma causa tão dignamente nacional; e até  o nosso sisudo Chefe de Estado veio declarar, com bem adequada pompa, a gratidão da Nação pelo filho querido. É verdade que alguns espíritos tortuosos e roídos pela traça da maledicência não deixaram de lembrar que o mesmo Chefe de Estado ficou mudo e quieto quando, por exemplo, morreu um dos dois prémios Nobel que a nossa História regista; não comentarei agora tais reparos, porque não quero contaminar esta carta amável com o veneno que daqueles reparos destila.

E chegou então, como se esperava, a ideia acaciana de remeter os restos de Eusébio para  a solene guarda do Panteão Nacional. Por mim, digo que tal ideia não podia ser mais oportuna; e acrescento até que, sendo ela óbvia e inevitável, bem dispensaríamos  a azeda discordância daqueles que, certamente movidos  pela estreiteza de uma visão demasiado rígida dos caminhos que levam à Glória (ou a Santa Engrácia, para ser mais preciso),  querem ensombrecer o brilho da lembrança do Senhor Conselheiro Acácio. Por razões que agora não trato de detalhar, eu pude conhecer pessoalmente este Eusébio, por ocasião de uma viagem oficial a Moçambique, terra de origem do nosso herói. Não direi, como Teodorico a propósito de Topsius, que com ele “arranchei”; mas posso, sem exagero nem distorção da verdade, asseverar que com ele conversei por algum tempo,  ligados como estávamos pelo nervoso que uma viagem daquelas provoca nos dois comuns mortais que nessa circunstância éramos. O que lhe garanto, minha prezada madrinha, é que o homem me pareceu uma pessoa bem simples, de conversa amena e singela, sem a vaidade nem a sobranceria que as suas proezas noutros provocariam, como se estivesse inocente de tais proezas. De modo que não estou certo de que o mesmo Eusébio esperasse ou até entendesse o alcance da vistosa homenagem que a Pátria agora lhe reserva.

Digo que a Pátria lhe reserva porque bem certo estou de que, passados os trâmites e os prazos que as absurdas exigências administrativas do Estado impõem, para o Panteão acolhedor irá o nosso Eusébio. É disso garantia a já declarada concordância de todas (sim, querida madrinha, todas!) as forças políticas que povoam o nosso Parlamento com as suas ideias e com a sua verbosa eloquência; uma concordância que liquidou à partida a estranha reserva da Senhora Presidente do dito Parlamento, por momentos aflita com os grossos cabedais que a iniciativa há de custar. Espante-se com isto, querida madrinha: alguém quis obnubilar, com a vil questão da pecúnia (e parece, por fim, que as contas estavam mal feitas), uma tão gloriosa empresa!  Pergunto-me até se não poderíamos desde logo ter feito o que feito há de ser:  quando aconteceu o nunca visto funeral,  era para Santa Engrácia que a carreta fúnebre deveria ter sido conduzida, com mão firme e rumo certo, assim se poupando mais passos e mais lágrimas (que de novo, é claro, hão de jorrar, quando a trasladação se der) aos devotos do grande Atleta. Sem mais delongas  iria ele fazer companhia aos nomes  quase esquecidos do “divino” Garrett e de Aquilino Ribeiro, de Junqueiro e de Humberto Delgado, de Sidónio Pais e de Manuel de Arriaga. E aos que dizem que hão de ficar espantados estes e os demais que lá são recordados, quando pela larga porta do Panteão assomar o futebolista,  respondo eu que a surpresa é injustificada e não será unânime: daqui mesmo, do meu apartamento da Rue de Varennes, imagino o júbilo da grande Amália – é verdade, minha madrinha, a diva da canção nacional lá repousa, para gozo de inumeráveis  portugueses e portuguesas –, quando se vir na companhia de Eusébio. Juntando-se o futebolista à fadista, teremos então bastas razões para dizer que com rijos pontapés se vai completando o nosso Fado!

Sempre dedicado, beija-lhe as mãos o seu afilhado,

Fradique

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Carta Inédita de Fradique Mendes

AO SR. E. MOLLINET

Diretor da Revista de Biografia e História 

                        Lisboa, outubro

            Meu caro sr. Mollinet:

            Pede-me o meu amigo que lhe explique, com minúcia e paciência, quem são e como procedem estes jovens governantes que com mão ágil estão guiando o  meu país e que repetidamente têm desatado o alarido das gazetas e dos periodistas. Não serei eu a pessoa mais

Fradique Mendes por António

Fradique Mendes por António

indicada para o fazer, com o objetivo desassombro que de mim espera: pertenço ao bem acanhado número daqueles que, reconhecendo nos tais governantes um talento e um patriotismo que a vesga parcialidade dos meus concidadãos não alcança, só posso alardear louvores  e encómios que  a pena do velho Chagas (sempre este homem fatal!) não desdenharia. Mas sabendo bem das graves exigências de historiador a que o meu caro senhor Mollinet há de fazer frente, corro em seu auxílio e deixo-lhe, com traços bem largos e bem grossos, a breve análise que o  meu olhar balzaquiano permite.

Deixe-me que, antes de mais, lhe diga que os portugueses são um povo de gente ignara e ingrata. Longamente tenho observado este fenómeno que a nossa imatura  democracia exibe, para espanto de quantos, como eu, só devem reverência  e gratidão aos que  conduzem os nossos destinos: quanto mais esses que regem as nossas vidas breves se esforçam e se explicam, mais as mal agradecidas plebes lançam aos ventos a impudente e esganiçada gritaria da sua contestação incontida, erguendo-se a uma só voz contra medidas que  só deveriam provocar gozo e agradecimento. Mas assim são as coisas! De tal modo que uns poucos já vão, sem pudor nem discrição, louvando com saudade  os tempos remotos da Senhora D. Maria I, essa sagaz estadista  que ao pulso férreo do senhor intendente Pina Manique confiava a manutenção de  um recato que muito espantava a Europa de então, infestada de pedreiros-livres. Por qualquer razão oculta que não atinjo, alguns desses nostálgicos falam até, para se referirem a essa época de  austeros costumes, no tempo da outra senhora. A tanto chega a criatividade e o engenho dos meus patrícios.

O caso que agora despertou o curioso interesse do meu caro Sr. Mollinet conta-se em poucas palavras. Mais divagações são necessárias, contudo, para bem aprofundarmos a razão de ser (ou a sem-razão, como diria o nosso chorado José Maria) de tão ásperas críticas como as que temos lido e ouvido nos últimos dias. Acontece que um vice-primeiro ministro, de seu nome Paulo Portas, havia traçado, não se sabe  onde nem com que eficiente instrumento, uma firme e bem nítida linha vermelha. No lápis,  no pincel ou no giz (os historiadores tratarão de esclarecer esta dúvida) com que o fez havia o declarado propósito de dizer: daqui não passa a minha tolerância, relativamente aos direitos de velhinhas  e de reformados. Digo “reformados” porque o vice-primeiro ministro Portas é bem conhecido pela desenvoltura com que, para nosso gáudio e ilustração, renomeia coisas e conceitos: aquilo  que para muitos é  agricultura, para ele é “lavoura”; aos aposentados chama “reformados”; e  qualquer decisão a rever rapidamente – para ele é “irrevogável”.

Mas passemos. Acontece que, certamente por distraído e perdoável descuido, Portas esqueceu a tal linha. Fora ela riscada com a nitidez de que só os grandes estadistas dão prova, mesmo que, com  a língua de fora e transpirando de concentração,  tenham que lançar mão de uma sólida régua, daquelas com que antigamente os mestres-escolas ofereciam reguadas aos meninos madraços. Não sei se terá sido o caso. O que sei é que, ao que me dizem,  Portas ultrapassou a linha. Todavia,  ainda há dias, ao anunciar suaves medidas que sustentam as contas da Nação para o ano, glorioso entre todos, de 2014, o verbo sempre vibrante e garrido  do vice-primeiro ministro contornou, com uma habilidade que muitos nele louvam, uma ou outra insignificante decisão, porventura mais gravosa. Como essa a que alguns comentadores, perfidamente exigentes com a tal linha, têm chamado a “TSU das viúvas”,  seja lá o que for que estas enigmáticas palavras querem dizer.

Diferentemente do que esses plumitivos maldosos querem fazer crer, não vejo nas omissões do nosso Portas nem maldade nem sobranceria. Não está o vice-primeiro ministro atarefado com uma reforma do Estado que há tempos nos prometeu? Não serão esses operosos afazeres suficientemente absorventes para desculparem a  distração? E não é  verdade que daquela reforma, ansiosamente aguardada, há de sair obra que espantará o mundo? Não serão uma tal proeza e o talento de que se nutre suficientes para relevarmos o salto por cima da linha?

É  assim, meu caro senhor Mollinet, a desagradecida reação de espíritos estreitos que em tudo veem oculta aleivosia ou incompetência rude. Bem ignorantes são os que deste modo pensam; melhor fora que tivessem presente que este nosso governante e quase todos os seus colegas de Governo traziam consigo, quando se aconchegarem nas cadeiras do poder, vastos currículos de proezas que só os invejosos não reconhecem. Não é certo que quase todos ostentam vistosos diplomas passados por universidades das mais exigentes? Não é verdade que, depois disso, souberam construir vidas profissionais recheadas de sonoras realizações? E não passaram esses trajetos de sucesso  pela provação suprema  de enfrentar arrastadas reuniões, comités e comissões partidárias, daquelas em que se decide quem um dia há de subir as escadarias de São Bento?  Por muito que se esfalfem aqueles que entregam as suas vidas e as horas de que elas são feitas aos interesses supremos da Nação, nunca os meus ingratos concidadãos deixarão de sobre eles bolçar a baba ingrata da sua maledicência. Disso  mesmo se queixou, em tempos e irritadamente, um outro estadista, agora comentador de palavra cortante, e de nada lhe serviu.

Dizem-me que, por estas horas  e num Conselho de Ministros dominical (repare  o meu caro amigo que nem ao domingo esta gente descansa!), se está fechando o rol do deve e haver do Estado para o ano que vem. Que o bom Deus ilumine quantos tal empresa levam por diante; e que  lhes sejam leves as  malsãs denúncias que os críticos do costume hão de fazer nos próximos dias, quando vierem, com a vozearia que os distingue, apontar erros e excessos, linhas franqueadas e irrevogáveis decisões afinal revistas.

O que se há de fazer, meu caro senhor Mollinet, para conviver com tanta desfaçatez? Por mim, consolo-me no remanso de um refúgio doméstico que o  aroma de um  Vega Fina saboroso torna mais doce. E daqui não saio – a não ser para lhe assegurar, meu bom amigo, o afeto deste que com garbo lhe endereça um  rijo abraço  e que se assina,

 Carlos Fradique Mendes

Foto de João Girão/Global Imagens

Foto de João Girão/Global Imagens

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