Carlos Fradique Mendes

Figura composta por Eça de Queirós a partir de 1885, Carlos Fradique Mendes não constitui uma convencional personagem de romance, mas uma entidade de conformação pré-heteronímica (cf. Reis, 1999). Designado n’A correspondência de Fradique Mendes (1900) como Fradique Mendes ou, mais familiarmente, Fradique, a sua personalidade ajusta-se, com alguns traços de caricatura, à imagem do dândi finissecular e viajante compulsivo, de cultura eclética e dispersa; além disso, Fradique Mendes é um escritor em projeto, destinado ao silêncio literário, com exceção de alguns poemas de juventude. Tal não impede que se vá desenvolvendo, à luz daquela dispersão, um pensamento a que se tem chamado fradiquismo. (…)

C. Fradique Mendes por António

Algumas linhas de força do pensamento fradiquista: a apologia da autenticidade, contra a descaracterização da sociedade portuguesa produto do liberalismo de importação francesa; a crítica da civilização e dos seus excessos, em particular quando ela invade cenários naturais, míticos e bíblicos; a notação das rotinas da vida portuguesa e dos seus tipos (o político do constitucionalismo, o brasileiro de torna-viagem, o sacerdote-amanuense); a menorização dos estadistas contemporâneos e das suas contingentes fragilidades; a visão anti-idealista das práticas religiosas, reduzidas a um “conjunto de Ritos através dos quais cada povo procura estabelecer uma comunicação íntima com o seu Deus e obter dele favores” (217).

Como epistológrafo singular e pensador com laivos de provocação, Fradique autonomiza-se, nos planos ideológico, cultural e estético. Essa autonomização processa-se em movimentos de aproximação e de afastamento em relação a Eça, como fica evidenciado pelo facto de o escritor ter transformado algumas crónicas que assinou em cartas de Fradique Mendes. Por isso e ainda porque a estilística fradiquista é muito semelhante à de Eça (mas com acentuação do regime da ironia e do paradoxo), Fradique Mendes já não é uma personagem, como algumas que dele estão próximas (Carlos da Maia ou Jacinto); mas ainda não é, em plena afirmação heteronímica, um autor literário com identidade e com estilo totalmente outros em relação a quem o concebeu.

A autonomia de Fradique Mendes tem favorecido derivas transficcionais que transmutam em personagem ficcional a figura construída por Eça. Incluem-se nessas derivas novas incursões epistolográficas, bem como descendentes e herdeiros de Fradique Mendes. Mencionem-se, como cultores deste legado, Frederico Perry Vidal (O único filho de Fradique Mendes, 1950), José António Marcos (O enigma das cartas inéditas de Eça de Queirós, 1996), José Eduardo Agualusa (Nação crioula, 1997), Fernando Venâncio (Os esquemas de Fradique, 1999) e José Pedro Fernandes (Autobiografia de Carlos Fradique Mendes, 2002) (cf. Oliveira, 2004; Neto, 2007-9). Noutro registo, o médico e jornalista carioca José Madeira de Freitas adotou o pseudónimo Mendes Fradique, com o qual assinou várias obras, dentre elas uma História do Brasil pelo método confuso (1922) (cf. Lustosa, 2004). Recentemente, surgiram várias cartas apócrifas de Fradique Mendes.

(C. Reis, “Carlos Fradique Mendes”, in Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa; ler na totalidade aqui)

Fradique e Eça

Afinal de contas, quando nasceu Fradique Mendes? E, numa expressão  deliberadamente ambígua, como foi ele concebido?

Anos depois do affaire antropófago, ressurge Carlos Fradique Mendes. O mesmo? Vamos por partes, porque a “ressurreição” de Fradique tem várias facetas. As  cartas a Oliveira Martins vêm a ser os lugares privilegiados para o anúncio do renascimento de uma figura agora, apesar de tudo, mais séria. Digo desde já: o segundo Fradique Mendes, chamemos-lhe assim, está no caminho que leva aos heterónimos pessoanos e, antes deles, por coincidências apreciáveis, ao semi-heterónimo Bernardo Soares. Não são irmãos,  mas são da mesma família.

Vejamos os factos: em meados de 1885, Eça de Queirós propõe a Oliveira Martins a publicação de “uma série de cartas sobre toda a sorte de assuntos, desde a imortalidade da alma até ao preço do carvão, escritas por um certo grande homem que viveu aqui há tempos, depois do cerco de Troia e antes do de Paris, e que se chamava Fradique Mendes!” E acrescenta: “Não te lembras dele? Pergunta ao Antero. Ele conheceu-o”. Claro que sim:  foram cúmplices e  ambos eram açorianos. Ora este Fradique Mendes, “homem distinto, poeta, viajante, filósofo nas horas vagas, diletante, e voluptuoso (…) morreu”. Nada melhor, diz Eça a Oliveira Martins, para celebrar esta personalidade do que publicar-lhe a correspondência.

Em 1888, ano em que publica Os Maias, Eça de Queirós volta a escrever a Oliveira Martins, mas agora vai mais longe: não é possível “editar a correspondência de Fradique, sem a preceder de um estudo sobre esta singular personalidade”. Assim mesmo, “um estudo”. Aparentemente, Oliveira Martins não percebeu  o que aqui estava em causa e Eça teve de se explicar. Assim:  “A introdução a «Cartas que nunca foram escritas por um homem que nunca existiu, não podia deixar de ser uma composição em que se tentasse dar a esse homem, primeiramente, realidade, corpo, movimento, vida”. Repito: dar “realidade, corpo, movimento, vida” a um “homem que nunca existiu”.

É esta a certidão de nascimento literário de Carlos Fradique Mendes, datada de 12 de junho de 1888, como está na carta de Eça a Oliveira Martins. Exatamente: 12 de junho, véspera daquele 13 de junho do mesmo ano de 1888 em que nasceu uma criança depois batizada como Fernando António Nogueira Pessoa. E assim, por 24 horas apenas, Fradique antecipou-se a  Pessoa.

Fradique Mendes tem uma biografia, uma formação, uma poética e um pensamento próprios e  autónomos em relação a  quem o concebeu. Pelo tal “estudo”, sabemos que Fradique  nasceu na ilha Terceira, que “pertencia a uma velha e rica família dos Açores” e que ali foi criado por uma avó  extravagante. Dessa D. Angelina Fradique diz-se  que era uma “velha estouvada, erudita e exótica que colecionava aves empalhadas, traduzia Klopstock, e perpetuamente sofria dos «dardos de amor»”.  Depois de frequentar uma escola  chamada Terceirense e de receber uma “primeira educação (…) singularmente emaranhada”, aos dezasseis Carlos Fradique Mendes é despachado para Coimbra. Pelo critério de Dona Angelina, a Universidade de Coimbra era  “um nobre centro de estudos clássicos e o derradeiro refúgio das humanidades.” A verdade, segundo constava na ilha, era outra: “apesar dos sessenta anos que lhe revestiam a face de um pelo mais denso que a hera de uma ruína, [D. Angelina] decidira afastar o neto – para casar com o boleeiro.”

Em Coimbra, Carlos Fradique pouco estudou. “Tocou guitarra pelo Penedo da Saudade, encharcou-se de carrascão na tasca das Camelas, publicou na «Ideia» sonetos ascéticos, e amou desesperadamente a filha de um ferrador de Lorvão.” A seguir,  “foi para Paris estudar Direito nas cervejarias que cercam a Sorbona, à espera da maioridade que lhe devia trazer as heranças acumuladas do pai e da avó”.

O resto é mais ou menos conhecido: lançado no mundo, Fradique foi viajante e esteta, dândi e poeta reservado, aventureiro e putativo autor de prosas inéditas, companheiro de Garibaldi e confidente de Victor Hugo. Tudo isso e também amante de mulheres magníficas: da “gloriosa Ana de Léon, a mais culta e bela cortesã (Vidigal [o amigo e patrício de Fradique] dizia «o melhor bocado») do Segundo Império”; da misteriosa Madame Lobrinska,  legatária  dos seus papéis;  e, acima de todas elas, de Clara,  dona de uns  “olhos finos e lânguidos”, que a  Carlos Fradique Mendes mereceram a mais  admirável carta de amor que a língua portuguesa já conheceu.

Tudo isto sabemo-lo pela  introdução d’A Correspondência de Fradique Mendes, o tal “estudo” que é mais do que isso:  trata-se de uma biografia, bem documentada e bem atestada, para que dúvidas não fiquem acerca da existência (“realidade, corpo, movimento, vida”) desta figura. Quem nessa biografia nos fala é uma voz não identificada, que  só por distração poderíamos confundir com Eça de Queirós. Trata-se, isso sim, de  alguém que muito bem conheceu Fradique Mendes  e que  o revela aos seus concidadãos,  pela publicação das cartas. “Nos tempos incertos e amargos que vão”, diz o biógrafo, “portugueses destes não podem ficar para sempre esquecidos, longe, sob a mudez de um mármore.” Assim é, de forma que bem podemos dizer que está nestas “Memórias e Notas” a substância de que se faz a recordação de um mestre. Como Alberto Caeiro o foi para Álvaro de Campos.

(“Conversa entre heterónimos”. “Tudo Língua”, Coimbra, 4.12.2015. Por ocasião do Congresso Internacional “Língua Portuguesa: uma Língua de Futuro”).

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 Foto de Frederico Batista, cedida pelo jornal Público

Dois Fradiques

Quem é este Carlos Fradique Mendes de quem  falamos a propósito da língua portuguesa? Cito palavras de Eça de Queirós, numa carta a Oliveira Martins: Fradique foi um “verdadeiro grande homem, pensador original, temperamento inclinado às ações fortes, alma requintada e sensível… Enfim, o diabo!” Chega isto para conhecermos esta espécie de heterónimo que depois reaparece noutra carta, escrita, como aquela, no ano mágico de 1888? Talvez não, até porque,  duas linhas antes, Eça dissera: “Fradique, no nosso tempo, era um pouco cómico”. Afinal, havia outro.

Para encontrar esse outro, recuo uns vinte anos e leio o que vem na Revolução de Setembro (jornal influente, já se sabe) de 29 de agosto de 1869: “Habitando Paris durante muitos anos, conheceu o Sr. Fradique Mendes pessoalmente a Carlos Beaudelaire [sic], Leconte de Lisle, Banville e a todos os poetas da nova geração francesa”. Um Fradique bem relacionado, como se vê e, aparentemente, afrancesado (mas quem o não era, nesses tempos?). Só que este Fradique ia mais longe. De novo a Revolução: “O seu espírito em parte cultivado por esta escola é entre nós o representante dos satanistas do norte, de Coppert, Van Hole,  Kitziz, e principalmente de Ulurus, o fantástico autor das Auroras do Mal”.

Eram  quase risíveis  alguns dos títulos que a Revolução de Setembro anunciava: A Guitarra de Satã, Boleros de Pã e Ideias Selvagens, “três vastas epopeias” garantidamente já prontas a ler; e nelas, poemas bizarramente intitulados “Os beijos no Calvário” e “O testamento do abutre”. Apetece dizer aquilo que  mais tarde será escrito: “Éramos assim absurdos em 1867!” O ano, já se disse, não era 1867, mas 1869 e a diferença não é inocente. Pouco importa, contudo, porque o espírito do absurdo e da paródia  estava lá e bem vivo. Quem o alimentava eram o jovem Eça, mais Antero de Quental e Jaime Batalha Reis. E  a mistificação deu frutos:  houve quem procurasse  os livros dos tais “satanistas do norte”. Debalde:  Coppert, Van Hole,  Kitziz e Ulurus apenas existiam na bem fértil imaginação  dos três amigos.

Não direi que este é um “Fradique em botão”, mas é claramente um “primeiro Fradique Mendes” e já quase um heterónimo coletivo. Mas não nos apressemos: falta andar algum caminho na estrada que conduz ao heteronimismo pessoano, um caminho feito também de trabalho sobre a língua literária. Se Eça de Queirós parece tentado a ir por aí,  não o faz logo nesses anos 60 e já em vésperas de  uma outra provocação: O Mistério da Estrada de Sintra, romance epistolar (mas isso  só depois se soube)  composto em 1870  com o amigo Ramalho Ortigão.

É  no Mistério que reencontramos Fradique Mendes,  mencionado numa carta da misteriosa condessa W. Numa reunião mundana  Fradique Mendes  faz-se contador de proezas bizarras e  repulsivas. “Sentado num sofá com um abandono asiático, estava um homem verdadeiramente original e superior, um nome conhecido – Carlos Fradique Mendes”, diz a  condessa do Mistério. E acrescenta: “Fora amigo de Carlos Baudelaire e tinha como ele o olhar frio, felino, magnético, inquisitorial.”

De novo, Baudelaire. Mas agora há mais:  Fradique (diz ainda a  a condessa) “tocava admiravelmente violoncelo, era um terrível jogador de armas, tinha viajado no Oriente, estivera em Meca, e contava que fora corsário grego.” Sublinho: “contava que fora corsário grego”. Fradique já não é só poeta de versos por conhecer; ele é também contador de histórias. Uma dessas histórias é a de uma amante antropófaga que, no ardor da paixão, lhe ia levando um braço.  Palavras de Fradique, perante um auditório estupefacto: “A pobre criatura (…) untava os cabelos com um óleo ascoroso. Eu seguia-a pelo cheiro. Um dia, exaltado de amor, aproximei-me dela, arregacei a manga e apresentei-lhe o braço nu. Queria fazer-lhe aquele mimo! Ela cheirou, deu uma dentada, levou um pedaço longo de carne, mastigou, lambeu os beiços e pediu mais. Eu tremia de amor, fascinado, feliz em sofrer por ela. Sufoquei a dor, e estendi-lhe outra vez o braço… (…)  Comeu mais (…), gostou e pediu outra vez.”

Não se sabe até onde chega o repasto. O que se sabe é que este Fradique fica por aqui. Como quem diz: chega de paródia,  porque os anos 70 serão, para Eça, anos de construção de personagens a valer e não de congeminação de heterónimos, mesmo que “em botão”.

(“Conversa entre heterónimos”. “Tudo Língua”, Coimbra, 4.12.2015. Por ocasião do Congresso Internacional “Língua Portuguesa: uma Língua de Futuro”).

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 Foto de Vera Moutinho, cedida pelo jornal Público

 

 

Fradique Mendes e Bernardo Soares (2)

Bernardo Soares e Carlos Fradique Mendes – ou melhor, Jerónimo Pizarro e Carlos Reis –  encontraram-se para uma conversa na Biblioteca Joanina, para o encerramento dos 725 anos da Universidade de Coimbra (UC). Com um saco de pano vermelho que comprou numa livraria de Madrid que se chama “Tipos Infames”, o especialista em Fernando Pessoa Jerónimo Pizarro apresentou o que se ia passar a seguir. “Somos dois tipos infames a falar de outros dois tipos infames que poderiam ser o Bernardo Soares e o Fradique Mendes ou semi-infames por serem semi-heterónimos e pensemos que esta é uma conversa a dois sobre duas personagens que estamos a tentar aproximar.” [continuar a ler e ver vídeo]

Isabel Coutinho, Vera Moutinho e Frederico Batista, Público [online], 7 de dezembro de 2015.

 

 

Fradique Mendes e Bernardo Soares

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Carta Inédita de Fradique Mendes

A Madame de Jouarre

Lisboa, começos de setembro

Minha boa Madrinha:

Carlos Fradique Mendes António           Em veraneio por esta Lisboa encalorada, aproveito para lhe dar conta das novas e mandados com que esta capital do Reino nos tem brindado nos últimos tempos;  de sobra sei que a minha Madrinha não toleraria que outros lhas confidenciassem, mesmo  com zelo  semelhante ao meu. E como, mais do que o tremendo olhar de Medusa, temo o  sobrolho franzido pelos seus amuos,  aqui venho, pressuroso e obrigado, depor no seu regaço os tais mandados e as tais novas.

Não padeço  da loquaz coscuvilhice de bondosa comadre que a outra comadre revela os segredos da vizinhança; em vez disso, motiva-me o esforço que há longo tempo venho fazendo para entender Portugal e os portugueses. Não é tarefa ligeira, posso assegurar. Coisas que aqui se passam dificilmente encontram parecença com proezas que a História  desveladamente guarda, bem aferrolhadas sob o pó dos seus arquivos  e nos ponderosos volumes que lhes consagrou.  No século que foi o meu, pude testemunhar acontecimentos tão extraordinários como as revoluções que em 48 mudaram o curso secular da velha Europa, a guerra da Crimeia, a ira do grande Hugo contra Napoleão le Petit, a navegação do Suez e o desastre da Comuna. Nada  se compara, contudo,  com  episódios  que nas últimas semanas têm agitado o dia a dia da minha Pátria e dos meus patrícios.

Saberá a minha madrinha que os portugueses têm vivido, nos últimos meses, com a angustiada preocupação de saberem qual será, por fim, o destino de um certo político que durante  anos os governou. Aparentemente em vias de ser acusado de malfeitorias que, jura ele e juram os seus competentes causídicos, jamais cometeu, este homem representa bem, et pour cause, aquilo a que os plumitivos de serviço chamam, com a originalidade que os distingue, a “classe política”. Segundo os meus concidadãos, pertencem a essa “classe” todos aqueles que, intrigando no Parlamento, discreteando em gabinetes ministeriais ou travando esganiçadas batalhas eleitorais, persistem em pôr alguma ordem (ou o que eles entendem como tal) nesta minha terra de doce clima. Os meus compatriotas reservam a esta “classe política” o  desprezo que provém de pensarem, praticamente sem exceção que se conheça, que ela fervilha de “gatunos”; ou que, no dizer de uma minha serviçal,  “eles querem é governar-se”. Não trato de esmiuçar agora  se algum grão de  verdade alimenta estas conjeturas, porque o caso  que lhe ofereço nestas linhas desataviadas é mais flagrante – e bem apetitoso!

A figura de quem tanto se fala esteve encarcerada durante largos meses, por ordem de uma Justiça que, para uns, foi indolentemente branda, enquanto, para outros, tem mostrado mais crueldade do que Nero enfurecido com os primeiros Cristãos. Ignoro  qual das duas fações tem razão. Ignoro-o eu e ignora-o o professor Marcelo, coisa que sobremaneira me  conforta o sono porque assim me acho tutelado pela companhia perspicaz do grande Comentador. O que sei é que nunca a prisão de alguém – para mais um “político”! – agitou tantas emoções e desatou tantos comentários. Não há talvez um só português que não tenha já exarado sobre o homem um veredicto definitivo! Mesmo este seu dedicado afilhado, depois de laboriosas congeminações, vai engendrando uma convicção firme quanto às acusações que sobrecarregam os ombros da criatura. Nisto, devo acrescentar, somos todos  ajudados pelas gazetas (e em especial por um matutino com grande aceitação e esforçados informadores) que diariamente nos trazem  notícia de novas aleivosias e de novas cumplicidades, prontas a serem assacadas ao pobre arguido.

O caso que sobre todos os outros motiva esta minha epístola aconteceu há alguns dias e trouxe de novo a tal https-page0001personagem (mas não só ela!) para o centro daquilo a que os periodistas chamam “espaço mediático”. Tendo sido aliviado da  frieza do cárcere em que jazia, o nosso homem  foi colocado naquilo a que prosaicamente se chama “prisão domiciliar”, um conforto  que lhe dá direito a ostentar à porta (ou nas escadas, não posso precisar) um garboso polícia. Situada numa sossegada rua de Lisboa, a discreta casa que assim serve de “prisão domiciliar” foi objeto, desde logo, da voracidade noticiosa de jovens repórteres que, de câmara e microfone em punho, ali montaram um cerco mais tenaz do que o assédio que por dez anos sitiou os muros de Troia.

Acabou-se, pois,  a pacatez daquela rua e daquela casa, para gáudio da vizinhança (que legitimamente aspira a “aparecer na televisão”) e sobretudo do “Cantinho do Abade”, pitoresca casa de comidas e bebidas que ali está paredes meias com o tal domicílio. Com razão o  digno proprietário do “Cantinho”  esfrega já as mãos de contentamento, regalado com uma tão inesperada publicidade. E de facto, logo no princípio da noite em que este caso começou, estava a rua enxameada de repórteres;  ali foram eles conduzidos  por uma intuição luminosa, pois que de outro modo nunca saberiam quem naquela casa obrigadamente passava a residir e nem testemunhariam o que se  seguiu.

Imagina a minha madrinha que foi o tal político a colher a atenção dos  repórteres? Engana-se e  engana-se redondamente, como  os seus claros olhos poderão ver e rever! Quem ali foi entrevistado e minuciosamente filmado foi o expedito funcionário de uma empresa de pizzas! Nem mais, minha madrinha! O rapaz da pizza, ostentando o seu  elmo de motociclista elegantemente descaído sobre a nuca, para que o seu rosto agora famoso ficasse bem à vista de todos.

Ao que parece, o tal político teve a veleidade de,  nas suas primeiras horas de quase liberdade, encomendar uma iguaria que lhe confortasse o estômago, desconsolado como estava pelos   meses em que teve de se contentar com as austeras ementas prisionais. Em má hora o fez  – para ele, porque acabou por ficar sem a encomenda. Mas em boa hora o decidiu, para o tal mancebo, que é hoje uma figura famosa para uma boa parte dos portugueses que seguem estes  incidentes com atenção gulosa.

https 3-page0001           Adivinho daqui a sua perplexidade e bem compreensível é ela. Não há, com efeito, palavras que decentemente relatem os cinco minutos de fama que o Destino  reservou a um jovem até então mais estranho às massas do que para mim o é a remota gramática do sânscrito; só mesmo o grande Balzac e a  pena com que ergueu, para nossa ilustração, todo um mundo de carateres e de paixões, só  ele poderia descrever com precisão e com verdade o rosto atónito e quase divertido  do moço metido em tais apertos. Limito-me, por isso, aos breves traços que a minha inépcia de cronista improvisado consente.

Ao chegar à porta  número 33, com o intuito de entregar a sua mercadoria, e não tendo tido a  intuição dos repórteres  (e, portanto, desconhecendo não ao que ia, mas a quem ia…), foi o moço prontamente intercetado por câmaras de filmar, por microfones  sequiosos e por  perguntas em catadupa: quem  tinha feito a encomenda?  A que andar iria ela subir? Sabia ele a quem os víveres se destinavam? E mais: que condimentos temperavam a pizza? Perante estas ingentes questões, o rapaz olhou com desconfiança risonha aquele bando de perguntadores e só pôde manifestar a  inocente surpresa de quem inopinadamente se vê em semelhantes assados.  De todas as perguntas só encontrou resposta para uma: a pizza era de extra-queijo e pepperoni,  uma  informação, minha madrinha,  que os historiadores e os sociólogos que atentamente nos esperam lá no futuro não se atreverão a descurar. Extra-queijo e pepperoni! Adivinho daqui os sisudos ensaios  que  os ditos sociólogos hão de compor,  achando-se na posse de tal informação; e imagino que surpreenderão  os vindouros com títulos tão suculentos como Hábitos alimentares em prisão domiciliar nos começos do século XXI; ou Influência do extra-queijo no Direito Penal e em sua arquitetura jurídica; e ainda, Indigestões de pepperoni em contexto de indagação criminal: novos contributos.  

A minha madrinha sorri, por certo. Mas não deixará de reconhecer que este jovem  que trago ao seu conhecimento page0001é, mesmo contra a sua vontade,  um benemérito digno da nossa efusiva gratidão. Sobejamente a merece ele, que mais não seja pela clareza com  que encerrou o episódio. Perguntado sobre se iria comunicar a impossibilidade de entregar a comida à sua cadeia (de produtos alimentares, como queria dizer a atabalhoada repórter), de pronto respondeu: “Cadeia? Esperem aí, eu não estou preso!”

Porque, por fim, a pizza não foi entregue e o extra-queijo e mais o pepperoni falharam o alvo a que iam dirigidos! Por lamentável esquecimento, faltava àquele Mercúrio das pizzas uma identificação que, bem nítida e bem eloquente, dissesse às forças da autoridade quem ele era de facto.  Deus sabe, terão pensado os espertos guardiões do número 33 e do seu residente, que engenhos e que artimanhas podem esconder-se nas vastas caixas de cartão  que levam as pizzas de porta em porta.

Assistindo a tudo o que bem imperfeitamente lhe narro, uma amiga minha, pessoa de invejável argúcia e dotes domésticos irrepreensíveis, afiançou-me que nada disto tem a verosimilhança de que outrora falava o velho Aristóteles. Segundo ela,  aquele número 33 a que se recolheu a ilustre personagem  estará mais do que fornecido de confortos e de mantimentos. A ser assim,  a entrega da pizza, garante a minha amiga,  teria resultado de uma  montagem não destituída de intenção publicitária.  Quem tal faria? A  cadeia (salvo seja) de comidas? Um provocador político? Um qualquer gracioso desejoso de fama momentânea? Não sei.

O que sei e convictamente sustento é que o meu alegre país está cheio de confortos que  lhe asseguram e a quantos tivemos a ventura de aqui nascer um lugar na História dos povos. Veja bem, estimada madrinha: somos servidos, de forma bem diligente e constante, por escribas e por repórteres preocupados com o nosso divertido bem estar e não com as chagas que a vida moderna reserva aos que a observam com o olhar bisonho dos pessimistas. E se pensarmos (como eu penso)  que os tais periodistas e os tais repórteres mais não são do que a ágil extensão (ou o braço armado, como diria o velho general Sequeira) da incompreendida e estoica “classe política”, então tudo se conjuga para que aqui desfrutemos daquela aurea mediocritas que os Antigos almejavam. Refugiados em debandada, crise demográfica, ameaças terroristas, bancos em rutura, colapso das bolsas, desemprego de jovens (e de adultos!), impostos que nos massacram, desconjuntamentos da velha Europa tudo isso é secundário, se  soubermos gozar a  existência amena que por estas gentes  nos é oferecida, com generoso  altruísmo.

E assim, a despreocupada vida que nos tocou em sorte bem livre está de coisas tenebrosas. Basta que  saibamos entreter-nos com os extra-queijos de uma pizza que errou o alvo! Não entendo mesmo por que razão persistem alguns espíritos  quezilentos em falar dos males que, segundo eles, nos atormentam, sempre ignorando os esforçados trabalhos do bem falante Coelho e do risonho Portas, a bem da Nação. Se mais não alcançar a bondade lusitana, bem merecem eles, no dia que a Providência o destinar,  ser  brindados também com uma pizza condimentada a seu gosto e bel-prazer. E mais: que tal pizza seja entregue, para castigo, por  um dos tais espíritos rabugentos, bem filmado pelos repórteres de serviço, para que a justa penitência  se espalhe e seja conhecida urbi et orbi. Quem sabe, por fim  aprenderão eles que o ódio azedo que destilam só contribui para infernizar os dias dos que nos governam e os de todos aqueles que têm a fortuna de assim ser governados.

Beija-lhe as mãos com  carinho,

Carlos Fradique Mendes

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